Relvas, Carvalho, César e sua mulher


As relações alegadamente ténues entre Miguel Relvas e Jorge Silva Carvalho têm vindo a parecer mais estreitas no desenrolar de todo o processo e à luz de novos dados que vão sendo difundidos.
Mensagens telefónicas e reuniões de negócios (como agora noticia o JN nesta página) não me parecem - nem a ninguém, ressalve-se - relações tão ténues quanto se quer fazer transparecer.
Num clima de suspeição como o que reina, não será difícil perceber que as aparências também contam e devem contar, principalmente porque as pessoas envolvidas devem ser um exemplo de integridade pelos cargos que ocupam.
Será que estes dois senhores não consideram a possibilidade de, a cada nova noticia, verem adensar a nuvem negra que repousa sobre as suas cabeças?
Como diz um ditado que tanto aprecio, "à mulher de César não basta ser séria, tem de parecer". E neste caso, se as aparências não nos iludirem, o cheiro a irregularidade, a "compadrio" e a tráfico de informações podem inundar o ar que respiramos e o perfume ambientador da demissão de um subordinado pode não ser suficiente para os narizes democráticos dos eleitores.


Óculos, cabelo lambido e mochila vermelha

Lembram-se daquele menino de óculos, cabelo lambido com gel para trás, que chegou à Universidade ainda de mochila vermelha às costas?
Lembram-se daquele rapaz a quem muitas dariam crédito intelectual mas a quem poucos tratariam como parte integrante de algo comum?
Alguns, os meus mais chegados amigos, lembrar-se-ão até de um menino religioso, que sonhava casar virgem e acertar à primeira na mulher que amaria para sempre. Lembram-se, de certeza, de um menino que não tocava determinantemente em álcool ou tabaco. Recordam facilmente as recusas dele em sair à noite.
Que é feito desse rapaz tão sério? Há quem afirme tê-lo visto ir-se embora, ter partido. Há quem pense até que morreu para sempre e no seu lugar deixou outro ser. Mas tudo isto é mentira!
Este menino de óculos, sóbrio e saudável, pudico e religioso, fui eu. Aliás, sou eu! Mas as pessoas crescem...
Quem hoje me conhece e não tomou contacto com aquela figura que descrevo acima terá dificuldade em imaginar. Contudo, em essência, tudo está lá. Deixei para trás dogmas religiosos, é certo, mas sei reconhecer o lado positivo de os ter vivido. Deixei para trás restrições, também dogmáticas, e passei a ver o mundo.
Mas continua a ser o menino de óculos que vos escreve (tenho-os postos, por exemplo). Já não puxa o cabelo para trás, não só por ter deixado de gostar como por este ter começado a cair...
Continua a ser o menino de cabelo lambido para trás que entra em qualquer projecto com um entusiasmo de bambu.
É esse menino que diariamente se veste de branco, entra na Unidade de Cuidados Intensivos Neurocríticos do Hospital de São João - que nome! - e trata dos doentes com todo empenho. É ele também que todas as semanas se dedica ao estudo tutorado da música na Escola de Música de Canidelo, ao piano, e que desempenha as performances possíveis. É ele que entra, alegre, no Só Danças, para aprender a dançar. É ele que treina com alguns dos PT's do ginásio que frequenta, por estes lhe notarem um entusiasmo sóbrio, sem exageros.
Na Tuna "A Vencedora" de Vilar de Andorinho é ele que entra para desempenhar os papeis teatrais que o encenador assim destine. Leva consigo a mochila vermelha, não às costas, mas dentro do peito, onde vibra aquela criança que nunca se importou com nada a não ser com aprender e ser feliz.
E agora? Quem será este homem de barba que me olha do espelho?
Depois de tantas páginas escritas, de tantos dogmas rejeitados, de algumas mulheres sentidas, de tantos lugares visitados, de vários cursos e experiências profissionais, de algumas perdas e muitas mais vitórias, depois de dois livros, de várias mortes presenciadas, de vários vícios consumados, este que me olha do espelho é apenas o menino de outrora. Mudou de visual, mudou de opinião várias vezes, mudou talvez tudo o que é acessório... Mas a essência é a origem. E as origens, sejam elas quais forem, são para guardar.

Questões de perspectiva

As perspectivas de vida que temos mudam. Sim, afinal, os objectivos não são estanques. São voláteis, esvaem-se, esgotam-se, perdem-se no tempo.
Há coisas, por exemplo, que tendemos a valorizar que não passam de meros pedaços de um vazio que, arbitrariamente ou não, nos rodeia. É estranho que percamos tempo com esses factos, mas eles, por serem parte integrante da nossa realidade, estão diante de nós, sem misericórdia.
Todos já devem ter notado a descaracterização de algumas prioridades, valores que se deveriam manter interminavelmente. Mas, como os valores também têm tempo, acabam por ser ora ultrapassados, ora hipervalorizados, ora ignorados. Tudo isto quase ciclicamente.
O melhor exemplo disso é o sexo. O sexo, como partilha do prazer, tem vindo a perder o secretismo e a tornar-se um tema menos silencioso do que antes. Democratizou-se, no fundo, e acabou por ser impelido à compreensão da sua semântica. O seu significado, antes singular, agora ter-se-á transformado numa multiplicidade de factores.
Contudo, o sexo encontra-se sobrevalorizado. Quererei com isto dizer que o sexo não é algo extremamente agradável? Pelo contrário! O sexo reveste-se de uma importância determinante na vida das pessoas. É fundamental que exista, que seja bom, que seja feito com vontade, que seja bem praticado, que seja tudo e mais o que a imaginação nos puder dar... Mas não é tudo.
Os objectivos de vida que hoje em dia tanto se apregoam são outro dos factores confundidos ad eternum com aquilo a que chamamos qualidade de vida. A qualidade de vida de um soldador suíço que ganha um salário líquido de 2500 € é melhor ou pior do que a de um médico português que receba o mesmo valor? Creio que se perceberá facilmente que a profissão, e o estatuto social que a ela é mal associado, não é um significante directo para a boa vida que todos sonhamos. O soldador trabalha com maquinaria pesada, mas o médico passa noites em claro. O médico passa horas infinitas no hospital sem ver a família, mas o soldador passa os fins-de-semana a descansar do peso laboral de uma semana inteira.
Estas generalizações são perigosas, mas ajudam-nos a provar a incongruência das declarações que ouvimos no metro, no autocarro, no café e, incrivelmente, lemos em alguns jornais. No fim de tudo, benditos o médico que se lembra que a folga também existe e o soldador que vai jantar fora e divertir-se ao fim-de-semana. Questões de perspectiva, portanto…
Por meu lado, as horas estão contadas criteriosamente para uma multiplicidade de actividades. Não dá para ser diferente, porque é assim que gosto de viver. E há tempo para tudo. Até para escrever textos como este e para perceber que as prioridades também mudam, frequente e bilateralmente, queo prazer de ontem ter saído pode ser o de hoje ficar em casa, que o prazer de ontem ter lido pode ser hoje o prazer de usar um gadget, que o prazer de ter um corpo novo a explorar pode hoje ser o prazer de ter alguém que ouça e ocupe o vazio ao nosso lado e que também pode ter um corpo novo a explorar, o que mostra que pouco nesta vida é exclusivo…
Porquê? Há quem chame prisma, visão, orientação, escolha… Eu, aqui, preferi chamar-lhe perspectiva.

Para ti

Sabes esses espelhos da alma
Que tuas pálpebras aconchegam?
Sonhei guardá-los na palma
Porque os dedos todos não chegam

E esse teu tão calmo jeito
Feito de um mistério silencioso
Onde amiúde me deleito
E me faz tão curioso

Sabes dos lábios desenhados
Que a tua face encaixilha?
Imagino-os em beijos apaixonados
Do mundo nova maravilha

Sabes desse pleno poder
Que a dançar enfeitiça?
Quase me faz não conter
Todo o fogo que me atiça

E se não tiveres defeitos?
Arranjar-te-ei um altar
Para, em momentos perfeitos
Te poder, somente, contemplar.

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