Na música como na religião só acredita quem quer






Vivemos na era da técnica. Vivemos na era da especialização máxima do desempenho e dos conhecimentos. O que nos traz até um momento único da história em que recorremos a um médico e ele descarta as suas responsabilidades para outro colega de outra área. Especializado que está num ramo, acabou por desligar-se dos restantes, não se achando suficientemente capaz para desempenhar a sua profissão nesses terrenos.
Chegamos também ao momento em que as máquinas substituem o Homem em imensas actividades. Até no âmbito artístico, fundamentalmente na música, existem meios para suplantar lacunas técnicas e deficiências de desempenho.
Aqui reside o primeiro paradoxo que vos quero apresentar, pois se por um lado temos que devemos especializar-nos através da formação, por outro temos que através de um subterfúgio tecnológico podemos chegar ao mesmo sítio sem sequer estudarmos uma página.
Assim, como na religião, o dogma da formação absoluta esconde o talento e a tecnologia defende os profundamente inaptos. Em que ficamos? Por mim, em nenhuma das duas.
Há um outro caminho que é o mais renascentista, como outrora, e que implica a integração de vários conhecimentos, sem descurar vários âmbitos da experiência humana e mesclando todos numa congregação cultural. Em linguagem corrente, ser um ser humano mais pleno.
Na religião, os ataques feitos à doutrina são rechaçados com a desculpa de que a falta de fé do descrente não permite o crente argumentar. Na música, também existe o mito de que um recinto de espectáculos ou um bar cheios pela presença de uma banda são sinónimo de qualidade. Num caso como noutro são afirmações fruto de pura crendice, porque é perfeitamente possível falar de religião racionalmente bem como ver uma casa cheia com uma banda de má qualidade. É, contudo, a defesa mais fácil dos crentes de ambos os lados.
Numa época como a nossa, o consumo de produtos culturais está mais presente onde é facilmente proprocionado aos clientes, porque a maioria destes não tem vontade, tempo ou sabedoria para procurar. Assim, o mais fácil e mais básico por vezes acaba por valer mais.
E se introduzirmos outro elemento nesta equação? Se falarmos daqueles que, sem competências, pretendem fazer acreditar o consumidor de que são as pessoas indicadas para desempenhar determinada função. Como na religião, acredita quem quer e questões de fé não são discutíveis, bem como opiniões diferentes e legítimas. Mas no caso de haver erros técnicos crassos ou paragens abruptas enquanto se toca um instrumento isso começa a ser algo que se assemelha a areia contra os olhos de quem paga.
Se este tipo de músicos for responsável por uma casa cheia de clientes isso agradará substancialmente ao proprietário e, pela lei de mercado, a aposta foi ganha. No entanto, a presença desse número de pessoas não assegura a qualidade do músico. Assim, critérios comerciais não são critérios qualitativos, porque o tipo de música, a comunicação com o público e a postura em palco, por exemplo, influenciam a resposta do cliente.
Em tempos, defendi alguém que se rebelou contra os músicos que, vindos de outro país, se afirmam em Portugal sem terem qualidade suficiente. Hoje, como nessa altura, defendo que quem quer aprender não o pode fazer em palco, a menos que o faça de uma forma não profissional, em termos experimentais e nunca sendo cabeça de cartaz de uma noite ou espectáculo.
E quanto à formação? É estritamente necessária a formação musical para tocar um instrumento? Não. Neste caso, a palavra-chave é "estritamente", porque embora seja possível há um limite de aprendizagem que não se ultrapassa autonomamente. Para chegar a níveis de excelência, a formação é necessária.
No caso de indivíduos de raro talento é possível atingir um nível de desempenho superior, mas mesmo esses veriam o seu potencial ser exponenciado pela formação.
Em comparações de profissionais que desempenham a mesma função em igualdade de circunstancias a formação faz diferença. No caso da música, a formação poderá permitir que um músico que toca rock todos os dias consiga ter um desempenho de qualidade no jazz. Não adquirindo os conhecimentos através da experiência, poderá fazê-lo através do estudo. Como na religião, o dogma de que só um estilo é legítimo irá limitar os conhecimentos. E aí voltamos ao mesmo...
Assim, esta é a posição que tenho em relação aos estereótipos religiosos que aqui equiparo à posição que tomo sobre os músicos que tocam profissionalmente de uma forma que desrespeita o consumidor. Há os que usam ficheiros MIDI para os substituírem na totalidade e não para seu auxílio, os que utilizam transposições electrónicas sem contenção... Quem sabe existirão alguns para quem uma pauta é feita de hieróglifos alienígenas.
Em suma, nestes casos musicais acredita quem quer, exactamente como nas questões religiosas. No entanto, nos primeiros basta estar atento e os erros atropelar-se-ão nos nossos ouvidos. Perante isto, alguns irritam-se, outros desculpam e outros não notam. Enquanto isso, dezenas de incapazes tomam o lugar de legítimos profissionais, porque os gostos mais comuns perderam poder crítico.
Lembra-me o dito: quem nasceu para lagartixa, nunca chega a jacaré...


Será pedir muito?






A noção de limitação é estranha. Depois da minha queda num dos ciclopercursos - tão cedo, logo após a compra da nova bicicleta - provo o acre sabor da incapacidade de cumprir algumas tarefas.
Nada de força nesse braço que se torceu sobre si mesmo, nada de peso, pausa em todas as actividades. Sim, porque todas usam os braços.
Para-se com o trabalho, com o ginásio, com os passeios em duas rodas, com a dança e o piano e apenas se mantém a escrita e a leitura, fáceis de manter mesmo com um braço a meio gás.
E que tal tocar no delicado assunto de poucas pessoas entenderem que isto dói? Será muito, pedir àqueles que comigo partilham uma formação para estas coisas dirigida que, pelo menos, se poupem à crítica?
Será necessário mostrar que, noutras alturas, o mesmo lhes aconteceu ou acontecerá e também se sentirão limitados? Será fácil esquecerem que, noutras alturas, estive lá para colmatar outras ausências?
É triste, mas diz muito acerca do momento em que vivemos. Diz muito acerca da crise existencial que está por detrás de tudo quanto é falta de princípio ou falta de compreensão.
Num mundo assim, ressalve-se que há excepções. Nessas, encontra-se um certo aconchego do frio que se faz em alguns corações.
Hoje, mais do que nunca, somos um número, uma quantidade de horas, uma taxa de produtividade, um sem fim de factores, vectores e quantificadores...
Mas lembrem-se que do outro lado está um fulano, um sicrano e um beltrano...Que do outro lado está um Fernando, por exemplo, a quem as dores de ombro não largam e que escreve isto porque ao lado dessas dores outras preocupações nascem, vindas de um poço negro que não devia existir cheio de falta de tudo o que em criança nos ensinam. Ou será que não ensinam?
Eis que enfrento hoje não só a simples aventura de tomar banho ou a necessidade de ajuda a vestir um casaco, bem como a plena deturpação do tão badalado espírito natalício.

Felizmente biciclético!


Saberá quem me conhece que sou profunda e inigualavelmente eclético. Gosto de tudo e tenho imenso prazer em tudo aquilo que constitua novidade. Um actividade, um filme, um livro, uma música, um som até, tudo pode constituir para mim a origem de uma expressão infantilizada na face, aquela carinha de criança que recebe um caramelo...
Sabem qual é o prazer mais recente? Pedalar! Galgar alcatrão por descobrir com os pneus da bicicleta, investir parte do orçamento em material para melhorar a experiência, gozar do vento na cara e sentir as dores do dia anterior, desafiando-as a continuar no dia seguinte até as vencer.
Vejam na foto como saio para fazer exercício em duas rodas. Críticos serão aqueles que, por ignorância, não conhecem as imensas vantagens de equipamento adequado. Terei melhorado o meu desempenho em mais de um quarto e o prazer... esse duplicou!
Acima de qualquer coisa vale o convívio que temos associado ao exercício, os objectivos nobres, as amizades novas e o prazer de mover o corpo.
Acaso saberão o prazer de triplicar a distância percorrida em seis dias de prática? A boa forma física, o ar puro que se respira, os caminhos que nunca se conheceram de carro...
Sim! Este é, definitivamente, um novo prazer, uma nova forma de lazer que agora faz parte de mim.
Isto é a maior prova de que sempre fui eclético. Pouco a pouco - mens sana in corpore sano - torno-me atlético, com o ginásio e a bicicleta. Atlético, eclético... Biciclético!
É como agora me sinto: felizmente biciclético!









Todos podem cozinhar




Este é o lema de um filmes da era moderna da Disney que mais admiro, Ratatouille. Pude comprovar a realidade do mesmo através da minha primeira experiência séria na cozinha. Segundo os presentes à mesa, nove bem contados, tudo estava apetecível e foi, como pude confirmar no final, consumido até ao último pedaço.
Bifes de peru com presunto e salva... Até me cresce a água na boca só de pensar! O mais incrível de tudo é a vontade que me dá de cozinhar, de fazer daquela arte um novo objectivo, um novo hobbie (como se todos os outros fossem poucos), de ler de saber de poder dar a quem nos visita algo trabalhado com afinco pelas nossas mãos e que lhes proporciona um prazer que podemos ver estampado na face.
Houve quem repetisse, nada sobrou a não ser os elogios e, no final, como determinada personagem do supracitado filme, o meu ego emproou-se um pouco. Rápido conclui ser apenas um aprendiz de aprendizes, mas soube, agora por experiência, que todos podem cozinhar.
Nota: a foto é real e retrata os mesmo bifinhos que acima descrevo!

Respeito, por favor!





Tenho
aumentado consideravelmente o exercício físico que faço, não só pelo bem-estar
que isso me proporciona, aproveitando um período de férias, como também para
ajudar um amigo a perder peso.


Para isso,
além do treino que faço no ginásio, acompanho-o com a bicicleta e
percorremos  a marginal de Gaia, sempre
com o tempo e a intensidade controlados. Como se nota facilmente, damos valor
a isto. E isso merece respeito!


Podendo
haver, e há, pessoas que detestem o exercício físico, considerem-nas, desde já,
respeitadas por mim. Se não o fazem não serei eu a ir buscá-las a casa, pelo
que não perturbo o decorrer de qualquer das suas actividades.


Hoje,
contudo, descobri, no passadiço da marginal gaiense, que eles não me respeitam
da mesma forma, porque existem locais apropriados para caminhar e eles insistem
em fazê-lo no local destinado ao exercício que pratico. Daí que a minha impressão fique como a fotografia: propositadamente desfocada.


Muito embora
existam ciclistas que pedalem pelos passeios, a percentagem é incomparável. E,
note-se, o passeio é consideravelmente maior do que a ciclovia. Se é pela
paisagem, então percorram aquele que se situa exactamente na praia, o que
tornará o passeio bem agradável.


Toda esta
irritação deve-se ao facto de, pedalando a um ritmo alto, ter de me desviar de
pessoas que andam a pé, sem sequer se preocuparem com quem estorvam, sem
olharem quando atravessam, sem usarem as passadeiras destinadas a eles em plena
ciclovia.


Não me
preocupam as crianças que aprendem agora a pedalar, nem tampouco os que agora
dão os “primeiros passos” de patins. Esses estão no local certo e, ademais,
cada um pedala ou patina à velocidade que quer, pode e sabe. Mas caminhar?
Havendo dois locais destinados ao efeito, por que razão tenho de interromper a
minha respiração controlada para gritar "cuidado"?


Hoje, esta
tamanha falta de respeito mostrou-me a importância de uma campainha, cuja
compra posterguei até hoje… Mas o que mais me incomoda é a falta de civismo
daqueles que não se interessam, daqueles que, lamentavelmente, terão de ver os
próprios filhos serem atropelados por uma bicicleta a alta velocidade para se
lembrarem que têm de tomar conta deles e não os deixarem correr para fora do
parque infantil.


A crise também passa por aqui, sabem?
Não, não falo da económica. Falo da crise existencial que, provavelmente, está na origem daquela outra. Afinal, se todos nos respeitássemos não haveria
derrapagens. Nem orçamentais, nem da minha bicicleta…







A motivação (específica) deste escritor

Página de «Dois Maços» (2011)
Todos os dias são produzidas, com a ajuda nas das nossas sinapses, milhares de ideias brilhantes. Algumas são de tal forma difundidas que, mais tarde, se transformam em produtos ou conceitos de elevado valor económico. Outras passam a salvar vidas ou a gerar sorrisos e felicidade. Todas elas têm criatividade na sua essência. Mas só as que chegam até nós têm motivação.
A minha motivação, enquanto escritor e com o percurso que sonho há tanto tempo quanto existo, é criar de uma forma fiel àquilo que mais desejo transmitir. Não me preocupam as acepções de públicos que não escolhem o que considero ser mais importante a nível literário.
Há em mim, sem falsa modéstia, senão uma prática, um hábito. Uma carreira até, dado o tangente número plural de títulos, fugindo à singularidade tantas vezes significativa de experiência a prazo.
Importam-me os versos bem construídos, as palavras bem alicerçadas... Desprezo, quase sempre, o uso desmedido do cliché e das palavras desprovidas de significado, só fixadas pela forma, pela superficialidade.
Esta é a ideia que as minha sinapses me oferecem, diariamente. Se me agrada que gostem daquilo que escrevo? É fundamental! Mas vital é também a minha autocrítica. E essa passa por cima de qualquer outro argumento.

Dentro de poucos dias terão convosco a informação de novas áreas de actuação, um projecto para nós - e não apenas para mim, porque vos inclui - e a mesma motivação de sempre de satisfazer este meu determinante prazer.

De Indignados a Conformados: um Passo de Hábito ou Cravos à Lei da Bala

Desde que a crise se instalou definitivamente nos bolsos dos portugueses e que a Europa é abalada constantemente com notícias que deitam por terra as infindáveis excelentes características que nos foram apresentadas acerca do Euro e da vantagem que é possuirmos uma unidade monetária que me questiono acerca daquilo que estamos a fazer para que tudo mude. Só há pouco tempo se percepcionou com nitidez que os portugueses queriam mudar de rumo. Viam-se manifestações em Espanha, na Grécia havia tumultos e em Portugal a mesma serenidade própria de um povo que prefere, enquanto está dentro deste pequeno e tão belo rectângulo, proteger-se antes e expor-se só em caso de anunciada catástrofe. Digo cá dentro, porque sei de fonte segura que não há povo que vença a vontade dos portugueses quando estes se decidem a desafiar as leis da normalidade, quando estes se propõem a vencer a vigorosa parede do destino e, noutro país, trabalham de tal forma que vêm a ser considerados dos povos mais laboriosos que existem. Portugal, apesar de até já se confrontar com bandeiras invertidas, terá acordado um pouco tarde. Todos aqueles que, muito embora pretendam ser forças de oposição, fazem ainda parte do sistema político, poderão ter, de alguma forma, sustentado até mais tarde uma situação que já se antevia incomportável. Agora que finalmente estamos despertos, ouço conversas de corredor sobre a violência de algumas das nossas manifestações. Que os portugueses não são assim; que são pacíficos; que não deveriam ceder à incitação subliminar que é ver outros cidadãos, noutro país, na mesma condição agirem desta forma; que as nossas manifestações sempre foram pacatas; que até a nossa revolução se fez com flores e não à lei da força... Pare tudo! É contra este último argumento, profundamente desrespeitador por quem fez a Revolução de Abril e por todos que poderiam ter sido condenados a miseráveis vidas caso esta não resultasse, que tenho de me insurgir. Pacíficos? Pacatos? Queremos ser um verdadeiro povo ou um grupo de crianças numa creche? Um povo, com toda a força que a palavra incita, mesmo ao ser pronunciada, revolta-se quando é pisado. Um povo ordeiro quando tudo corre dentro dos trâmites políticos aceitáveis e das condições sociais dignificantes pode e deve, quando tudo muda, renegar essa posição e insurgir-se.

  De cravos, força e balas 


 Quanto à Revolução, aos cravos e à falta de balas passemos por uma analogia. Imaginem-se na rua. Fazem um dos percursos que vos é tão comum, um daqueles que percorrem diariamente. E eis que, vindo do outro lado da estrada, um homem vos aborda, encostando um cano frio à cabeça, um cano pronto a ser aquecido pela velocidade férrea de um projéctil, e vos exige que desistam, que se entreguem e que lhe dêem a carteira. Perante este cenário, sem solução nem fuga, entregam a carteira. O ladrão chega a casa e diz: “Hoje, no meu último assalto, fui pacífico”. Foi? E se pudéssemos pegá-lo pelos colarinhos e lhe disséssemos entre gritos e perdigotos irritados que encostar uma arma à cabeça não é pacífico? E se eu pudesse gritar aos ouvidos de alguns energúmenos que entrar pelo Terreiro do Paço com duzentos e quarenta homens, dez viaturas blindadas, doze viaturas de transporte pessoal; vencer a ordem de um brigadeiro que se opunha dando, inclusive, ordem de fogo e ver os seus homens aceitarem o desígnio do Movimento das Forças Armadas; disparar – repito, disparar – rajadas de metralhadora e subjugar, desta, forma, um inteiro governo não democrático não tem nada de pacífico? Não tem e ainda bem que assim é! Porque nesse dia, Salgueiro Maia, ladeado pelos seus apoiantes, disse que os 25 de Abril vindouros seriam feriados e, pela força, com um Movimento das Forças Armadas, cujo nome é descritivo de uma intenção a que não foram forçados, mudou a face de um país. Ostracizado injustamente mais tarde, Maia mostrou que, naquele preciso momento histórico, nada mudaria sem o caminho da força e da coacção armada. Os cravos, símbolo tão perfeito para esta Revolução, não podem, de forma alguma, ser ridicularizados neste papel de substitutos da bala. Cada um teve o seu papel nesse dia. E Salgueiro Maia, apesar da desconsideração de que depois foi vítima, deixou o seu nome inscrito na História e numa história onde não se encontram muitos dos nomes que o enfrentaram e onde não se encontrarão os nomes daqueles que agora reduzem a Revolução dos Cravos. Cravos que surgiram à lei da bala. Guardem, então, os argumentos falaciosos para outra altura. Hoje, Portugal precisa de acção!




Foto: http://eideguimaraes.files.wordpress.com/2009/04/25abril11.jpg

Sobre o fausto de quem sabe mas não lê




Hoje é um daqueles dias em que acordo assoberbado de cultura. E, no entanto, esta frase contém duas gloriosas mentiras. Primeiro, não acordo. Acabei de trabalhar durante a noite, pelo que, além de não acordar ainda me falta dormir. Além disso, estou a sentir-me atulhado na falta de cultura e não na sua, tão desejada, presença.
Não raras vezes, como hoje, tenho o dever de aturar conversas avulsas com rótulo de heresia. Dizem essas vozes não gostar de ler e, por tal motivo, não terem hábitos de leitura.
Confusa declaração esta de não gostar de ler. Acaso alguém é capaz de dizer que não gosta de respirar? E, ainda assim, é uma necessidade perfeitamente comparável com a leitura.
De que serve, pois, terem aprendido a fazê-lo? Para contribuírem por ordem divina para  a não menos endeusada estatística?
Que me atestem que determinado género de publicações, de textos ou  de palavras não são da sua preferência é algo que não me conduz a este estado de revolta. No entanto, o fundamentalismo, como em tudo, enjoa.
Talvez seja por isso que me agarrei ainda mais veementemente a ‘O Processo’, de Kafka, que tenho vindo a ler desde a semana transacta. Refugiei-me ainda nos ‘Sonetos’, de Florbela Espanca, e comprei dois jornais.
Talvez seja, também, pela morte de um poeta e cronista da melhor estirpe, Manuel António Pina, que sinto este vazio. Morreu sem ter convencido aqueles que acima refiro de que deviam ler aquilo que escrevia. E isso, apesar da indiferença que um escritor pode fazer notar perante esta larga faixa de estreita largueza mental, dói.
Agora, ao invés de dormir, tento colmatar este oco sentir, alternando páginas.
E escrevendo para que aqueles que querem leiam e na esperança secreta de que alguma luz acenda por cima da estupidez das mentes daqueles que nada desejam fazer em prol de algo que lhes falta.


Assim dita, então, a minha alfabetizada raiva:


A cada palavra que leio
Ou a cada palavra que escrevo
Num imenso poço me enleio
Num imenso mundo me inscrevo 

Se na fome da leitura
Sinto a prisão dos pouco anos
Duma vida que não dura
O tempo de ler os decanos
Faço do critério a cura
E rejeito a literatura
Vinda de cérebros marranos 

Deixo à mercê de quem queira
A miserável existência
De não ter sequer maneira
Ou fórmula de algibeira
Para mostrar inteligência 

Dou a sonhada permissão
Para citarem o egocentrismo
Que nasce da união
Entre a minha elevação
Com vosso perigoso abismo 

E se dúvida sobrar
Ou ainda faltar lucidez
Seja para interpretar
Ou para decorar de vez
Acabando de comunicar
Em cuidado português
Resta-me renunciar
Sem sequer suplicar
Deixando-vos supliciar
Nessa faustosa estupidez

Foto: barry-williams.com

Deixa o sótão, amor. Anda ver as máquinas do (nosso) futuro!

Onde estão todas as expressões de sublimação que procurei tanto tempo? Onde será que se encontram os seixos da calçada em que fui tropeçando? Quero agora revê-los e rir-me um pouco com eles. Onde estão os corpos inúteis, lançados na vala comum do desejo desprovido de sentido, que me trouxeram até ti?
Amor, diz-me onde estão os silêncios gritantes que guardei lá atrás? Diz-me onde ficaram as melancólicas noites de balcão…
Onde estarão os pares que me ensinaram os passos que agora só sei dançar contigo? E as teclas do piano que agora toco para ouvires?
Tudo em ti.
E aquelas manhãs em que o travo azedo das noites longas se perpetuava até à hora de voltar a ver o sol pôr-se? Essas são agora corolário de um beijo de acordar ou de uma despedida doce.
Afinal, que fizeste às pedras da calçada onde tropecei? Não as quero, mas gostava de saber dessa magia, dessa tua subliminaridade com que fazes sumir o difícil.
Se percorro os teus passos, maioritariamente dados aqui, de braço dado, não consigo perceber onde foram parar os fantasmas de outrora. Curiosamente, assusto-me com tamanha felicidade!
Pois se deles tinha medo, não deveria também temer quem é mais forte do que eles?
Gostava de ver esse sótão onde depositaste o meu passado. Afinal, o passado existe para ser olhado, de quando em vez, para ser revisitado, para ser percebido…
Não tragas nada para cá. Teremos de ser nós a olhar para as fotos empoeiradas e não elas a invadir o nosso castelo de madrepérola.
Agora que penso, conseguiste guardar tudo organizadamente, sem ouvir os teus passos a percorrerem as escadas e o arrastar dos armários enormes daquilo que estava guardado? Por isso te doem as costas!
Não terei forma de te pagar. Posso só ficar a teu lado? Posso também revistar o teu passado para te saber de cor?
E carregar-te ao colo quando me apetecer? Posso oferecer-te flores?
Onde está a luz fundida dos meus olhos? Trocaste a lâmpada, porque agora dizem que eles brilham.
Vá lá, mostra-me tudo só para eu saber o truque… Ah! Já sei! Eu sabia que esses olhos escondiam uma força titânica!
Então, faremos assim. Deixa estar tudo onde está. Quando precisarmos de cortar as raízes ou de as regar, assim faremos. Pegamos na escada, subimos ao sótão e vemos o que podemos fazer. Mas não tragas nada para baixo. Isto está tudo tão limpinho… Já viste o pó que depois teríamos de limpar?
Quatrocentas e treze palavras e ainda não te disse que te amo! Distraí-me com as tuas aptidões…
Amo-te ao ponto de te fazer mais uns quantos pedidos. Quero que fiques aqui ao meu lado, que me abraces, que me faças sentir acompanhado, que me deixes molhar-te os ombros com as lágrimas que amiúde me escorrem, que me fotografes com os beijos que partilhamos de olhos fechados… São beijos sem flash!
Mas, de olhos abertos, de flash apontado a nós, qualquer um perceberia que falta a minha parte. Como não tenho a magia dos teus olhos, criei várias máquinas.
Há aqui uma máquina que chamei ABRAÇO SEGURO. Esta protege-te. Os meus braços, com a ajuda desta máquina, têm toda a força necessária para afastar até o que não existe. E o que existe? Bem, isso corre o risco de deixar de existir.
Para não teres de esconder a cara quando tiveres medo tens a VENDA DE TROCA OCULAR. Depois de a colocares ela troca os meus olhos pelos teus. Sim, eu fico a ganhar na cor, mas pelo menos não tens de ver o que não quiseres e eu assumo o sofrimento que não desejares.
Para os momentos em que te sintas sozinha ou acompanhada de mais pelas arestas quadradas de quem não te percebe tens o CARDIORADIOTELEFONE: um telefone que usa uma frequência única e não interceptável, que liga directamente ao meu coração e onde podes ouvir que ele bate desmesuradamente por ti.
Outras máquinas estão em desenvolvimento, mas precisarei da tua ajuda para pequenos ajustes finais. Afinal, agora que estamos lado a lado não quero deixar-te aparte de nenhum dos meus desígnios.
Mas tenho aqui uma muito especial. A FUTURECAM permite-nos tirar uma foto e ver como seremos num ano à nossa escolha.
E sabes o que descobri? Que nas fotos dos meus dias de velhice apareces sempre ao meu lado…

Para a Andreia Filipa Cardoso, porque sem ela já nada faria sentido…
Foto: http://thumbs.dreamstime.com/thumblarge_296/1217883646iT629U.jpg

Lágrimas selvagens






Há, entre amigos, laços que não se vêem durante o quotidiano das nossas vidas, preenchidas pelos afazeres que delas fazem parte, mas que acabam por determinar a pessoa que somos. São esses laços que, sendo chamados à razão da sua existência nos momentos determinantes, respondem com um rotundo sim e estão presentes na sua forma mais vincada.
Ontem, compareci num local de perda. Uma perda enorme, já anunciada mas sempre imprevista, para um amigo. Nesse momento, após uma longa viagem para proporcionar o apoio devido, obrigatória na minha consciência e que, por isso, poderia até ter de me obrigar a percorrer o dobro da distância, subiu-me a empatia aos olhos e escorreu-me pela cara...
No final, aguentando-se como podia com a despedida que lhe marcava a cara de cansaço, ele cumprimentou os outros amigos, sempre sem me ver. Eu já domesticara as minha lágrimas.
Porém, quando reparou em mim, presença que ele ainda desconhecia, entregou-se à comoção. A surpresa, aliada à dor que nele habitava, fê-lo soltar-se e perder a contenção. E eu perdi o controlo e vi as minhas lágrimas escorrem selvaticamente. Conversámos abraçados, atabalhoadamente, sobre como poderia contar comigo e sobre como chorar fazia bem. Sempre fui apologista inveterado do choro. E ele, normalmente duro em relação às lágrimas, deixou-se ir no leito triste e empático que criámos ali.
Há perdas irrecuperáveis e amigos admiráveis. Ontem, num dia de constatações do que de mais óbvio há na vida, ainda houve tempo para sorrisos e ternuras e trocas de aventuras, muito embora sempre à sombra daquela dor basal.
"A vida é assim", "Faz parte..." ou outras palavras de circunstância são sempre proferidas e podem ser camufladoras. As lágrimas que se decidem a ser selvagens depois de as domesticarmos, que se decidem a irromper pela face abaixo inexpugnavelmente, não têm preço e são feitas só de virtudes. E lavam até o que alma desconhecia conter...




Foto: pcworld.com (Spider's Web by Walt Durling, Strasburg)



Obrigado!


Olá amigos!
Antes de mais, obrigado por estarem desse lado. Ninguém que queira ter uma existência plena pode sobreviver sem a presença da amizade e vocês são os responsáveis pela satisfação que sinto quanto a isso.

Quero que percebam o quanto é difícil agradecer a todos. Gostaria de o fazer individualmente, mas faço-o desta forma tipificada. Assim não há esquecimentos.
No entanto, saibam que os sentimentos que nutro por vocês são especialmente individuais. Não esqueci os momentos que vivi com cada um de vocês, apesar de, por vezes, falhar quanto à minha presença.
É por isso que escrever este texto me comove tanto...
Chamem-me vocês Miguel, Migas, Fernando, Gerva, Escritor, Sucateiro, Saviola, Nandinho, Pensador ou qualquer outra alcunha que tenha marcado a minha passagem na vossa vida, lembrem-se do quão especiais são para mim, mesmo quando pareço esquecer-me. Vocês estão sempre comigo, porque eu trago-vos dentro de mim.
Beijos, abraços e muito obrigado por existirem!

Novo projecto online

As novidades, por vezes, são como as folhas. E, neste caso, esta caiu com a chegada do Outono. Enquanto a produção de um novo livro em formato de papel se processa, há que produzir algo que me aproxime de vocês. 
Assim sendo, tenho o prazer de anunciar um novo projecto que consiste num livro online, com um novo capítulo a cada duas semanas e que poderão acompanhar e reler sempre que desejarem da forma mais prática possível e em formato digital.
Claro que, pelas pedras da calçada que este caminho representa, novidades surgirão! 
Para já, a vossa colaboração é determinante para escolher o género literário que irei versar. Por isso, façam parte desta brincadeira e votem, até uma vez por dia, na poll (http://poll.pollcode.com/bm6yho) até dia 30 de Outubro!
Até já!

Sevilha




Por razões alheias à minha vontade inicial, Sevilha foi o destino das minhas férias fora do país. Apesar dessas circunstâncias, acabei por descobrir uma cidade fascinante, com um dialecto muito próprio, embora perceptível, e com uma cultura transversal que mistura o tempo dos Califas com todas as correntes arquitectónicas e artísticas da nossa Europa.
Percorri esta cidade a pedalar, muito bem acompanhado, com um olho clínico virado para a escrita lado a lado com outro virado acutilantemente para a fotografia. Que mais se poderia desejar?
Foi, aliás, o período de férias mais agradável e mais estranho que passei até hoje. Um bom prenúncio, portanto, para o futuro, onde nos deparamos com mundos estranhos, mas dos quais teremos sempre de espremer o lado positivo.
A herança andaluz desta cidade, tremenda e intimamente ligada ao passado árabe e ao futuro conservador de tradições, leva-nos a percorrer caminhos de jardins deslumbrantes, palácios encantados, lagos e praças imponentes...
Está, toda ela, preparada para o passeio de bicicleta, ou uso desta opção de transporte no quotidiano laboral, como se pode ver nos inúmeros habitantes que a escolhem.
Possui, ainda, um dos melhores parques de diversões da Península Ibérica, a Isla Mágica, na margem do Guadalquivir que em 1992 albergou a Exposição Universal que lhe renovou o rosto e que ainda hoje é recordada com ânimo quente.
Uma cidade que, sem dúvida, vale a pena visitar e sentir...

Marcha da Afurada 2012 (Prémio José Guimarães, pela Melhor Letra)











A noite não dura mais
Já chegou a alvorada
A varina está acordada
E o pescador volta ao cais

No coração, um passado
Um rio mesmo à mão
E aquele mar respeitado
Que nos dá a tradição 

E quando chega o Verão
A alegria é o que resta
S. Pedro e S. João
Deixam a Afurada em festa

A sardinha está a assar
É hora de festejar
O S. João nos trouxe a festa
S. Pedro há-de a continuar
E em noites como esta
Para a tradição honrar
Seja bem-vindo à Afurada!
Faça o favor de entrar!

Nas varandas coloridas
O mangerico e seu perfume
E as imensas partidas
Que trazem o peixe ao lume 

A varina e o pescador
Na festa, já de mão dada
Levam consigo o calor
Deste tão belo labor
De uma história bem contada
Todos vivem com fulgor
E todos sentem amor
Por esta nossa Afurada!

A sardinha está a assar
É hora de festejar
O S. João nos trouxe a festa
S. Pedro há-de a continuar
E em noites como esta
Para a tradição honrar
Seja bem-vindo à Afurada!
Faça o favor de entrar!



Fonte fotográfica: http://www.facebook.com/TURISMO.VNGAIA

Enfermagem: a (des)valorização




O Dr. Manuel Pizarro, à data Secretário de Estado da Saúde, caracterizou os enfermeiros, numa mesa de um colóquio que tive oportunidade de presenciar, como a "espinha dorsal do Serviço Nacional de Saúde".
Não se trata de uma valorização excessiva, trata-se da realidade dado o papel do enfermeiro, a sua presença em número nos hospitais e ainda a mediação que pratica entre as várias disciplinas e respectivos técnicos que se cruzam nos cuidados de saúde.
Perante factos tão reveladores da preponderância da Enfermagem, o que levou esta ao descrédito, ao desemprego e ao estatuto social reduzido que hoje, por vezes, lhe conotam? A Lei da Oferta e da Procura.
Tempos houve em que os enfermeiros podiam escolher o local onde queriam iniciar a sua carreira, o número de empregos que desejavam acumular, o local para onde gostariam de mudar ao fim de alguns anos de experiência. Chegou a abertura de cursos em catadupa e eis que, a cada ano, são formados entre três a quatro mil enfermeiros, segundo referência de Germano Couto, o actual bastonário da Ordem.
E agora? Não podendo nem devendo tratar os enfermeiros como frutos ou cereais, destruídos por esse mundo fora em prol da competitividade dos preços, como resolver a questão? Queremos ser um país exportador de enfermeiros? Ou desejamos criar uma rede de cuidadores que potencie a qualidade dos cuidados a curto, médio e longo prazo?
Compensaria, por tudo isto, estancar totalmente a leccionação de Enfermagem?
Questões que se colocam, que se desejam ver resolvidas mas que, apesar de tudo, ainda não estão sequer na agenda nacional.
Se os enfermeiros são a espinha dorsal dos cuidados de saúde, então este país será aquele utente negligente que, desesperado com dores lombares, só recorre a cuidados especializados quando nem a cirurgia é solução. Antes disso, resolveu-se com panaceias e assobios para o ar...

Publicado no P3, suplemento online do jornal Público

Euro 2012


Já começou a competição mais importante do futebol europeu.


Muito se tem comentado acerca dos valores astronómicos despendidos, das opções técnicas questionáveis, da falta de ambição nos últimos amigáveis...
Muito se poderia questionar, mas o apoio é determinante. As críticas podem surgir, mas o desejo de vitória tem de se manter, sob risco desses dedos apontados não serem mais do que um símbolo da facilidade com que hoje se fala de tudo dum modo pejorativo.
A esta hora, já Portugal saiu derrotado do jogo com a Alemanha. Mesmo há pouco...
Infelicidades, inseguranças, falta de sorte... Poderão ser usadas inúmeras justificações. Mas não é preciso...
Portugal é uma selecção temida, uma selecção com bons praticantes de futebol e discute de igual para igual com verdadeiros portentos históricos do mundo da bola.
Da minha parte, gostei de ver a garra de João Pereira, o refrescante Varela, um Cristiano Ronaldo distribuidor e o equilíbrio de toda uma equipa recheada de ambição e vontade de ir longe.
Hoje ninguém pode sair envergonhado. O que não invalida a redenção exigida no próximo jogo!

Liberdade intermitente

O Governo chinês era, outrora, aparentemente mais fechado. Puramente comunista, proibia a disseminação de produtos capitalistas como a Coca-Cola. Agora, passados alguns anos, a McDonald's está presente em Pequim e a Cidade Proibida viu ser fechado o Starbucks Coffee que lá fazia negócio. Encerrou após protesto da população, mas esteve lá.
A propósito dos 23 anos dos protestos na Praça de Tiananmen, muitos chineses enfrentam a censura de não poderem consultar páginas sobre o assunto na Internet, uma vez que os motores de busca se encontram a ser controlados pelo Governo.Tiananmen "desaparece" da Internet (Jornal Sol)
Todos sabemos que a China é um portento de força e que poucos serão capaz de lhe fazer frente. Mas não será um pouco demais existir um país que pratica uma liberdade intermitente?
Claro que, por mais que o Governo chinês tente apagar a memória dos cidadãos acerca do massacre do dia dos protestos, que o mesmo nega, o povo lembra sempre aquilo que tentam fazê-lo esquecer.

O circo da Selecção Nacional

Manuel José, treinador de futebol com uma longa carreira e cuja última experiência o recheou de títulos, teceu duras críticas à nossa Selecção.
Mais não fez, no fundo, do que verbalizar as ideias da maioria dos portugueses, que sentem na pele a frustração de anos a ver promessas sem concretizações.
Assim se passou com todas as gerações futebolísticas. Todas elas foram polémicas, todas elas promissoras e todas desprovidas de palmarés.
Manuel José refere-se à falta de profissionalismo que rodeia a equipa de todos os portugueses como um "autêntico circo", pela sequência de festas que levam à distracção dos jogadores.
Será que a Selecção que mais dinheiro dispende precisa de mais distracções? Será que o ambiente é mais de folga do que de responsabilidade? Será que por detrás daquela face sisuda de Paulo Bento temos um treinador fraco e que não se consegue impor?
Aconteça o que acontecer, Portugal já começou mal. Mesmo que a vitória nos seguisse até ao final do torneio, mesmo que o título fosse conquistado pelos nossos jogadores, esta nunca seria a forma mais correcta de lutar por algo que é uma responsabilidade deste país há muitos anos: lutar por um lugar de destaque em todo o Mundo e em qualquer actividade!

Metropolitano

Escrevo em movimento. A cada dia que passa percorro este caminho, neste exacto meio de transporte urbano que é o metro.
Desde a sua criação que o metro mudou a cidade. Mais virada para o futuro, mais atenta aos turistas, mais fácil para os trabalhadores, o Porto é, por tudo e também por ter metropolitano de superfície, uma metrópole cosmopolita.
Não será difícil perceber porquê.
Já se torna complicado perceber a sua estrutura interna, as derrapagens financeiras, a falta de planeamento eficaz.
Porque temos todos de fazer escala na Trindade? É contraproducente em relação à concepção de um meio de transporte deste género.
Em cidades equiparadas, o metro possui linhas que se cruzam, que se tocam e que têm, ainda assim, destinos completamente distintos. Essas servem na perfeição os habitantes dessa cidade.
Coloca-se, por isso, a questão: terá o metro sido criado pela necessidade urgente de não ficar atrás do conceito de cidade moderna? Terá como público alvo apenas os visitantes, esses mesmo que nunca terão passe mensal?
E, agora que chego ao destino, sinto-o útil, como sempre e apesar de tudo...

Relvas, Carvalho, César e sua mulher


As relações alegadamente ténues entre Miguel Relvas e Jorge Silva Carvalho têm vindo a parecer mais estreitas no desenrolar de todo o processo e à luz de novos dados que vão sendo difundidos.
Mensagens telefónicas e reuniões de negócios (como agora noticia o JN nesta página) não me parecem - nem a ninguém, ressalve-se - relações tão ténues quanto se quer fazer transparecer.
Num clima de suspeição como o que reina, não será difícil perceber que as aparências também contam e devem contar, principalmente porque as pessoas envolvidas devem ser um exemplo de integridade pelos cargos que ocupam.
Será que estes dois senhores não consideram a possibilidade de, a cada nova noticia, verem adensar a nuvem negra que repousa sobre as suas cabeças?
Como diz um ditado que tanto aprecio, "à mulher de César não basta ser séria, tem de parecer". E neste caso, se as aparências não nos iludirem, o cheiro a irregularidade, a "compadrio" e a tráfico de informações podem inundar o ar que respiramos e o perfume ambientador da demissão de um subordinado pode não ser suficiente para os narizes democráticos dos eleitores.


Óculos, cabelo lambido e mochila vermelha

Lembram-se daquele menino de óculos, cabelo lambido com gel para trás, que chegou à Universidade ainda de mochila vermelha às costas?
Lembram-se daquele rapaz a quem muitas dariam crédito intelectual mas a quem poucos tratariam como parte integrante de algo comum?
Alguns, os meus mais chegados amigos, lembrar-se-ão até de um menino religioso, que sonhava casar virgem e acertar à primeira na mulher que amaria para sempre. Lembram-se, de certeza, de um menino que não tocava determinantemente em álcool ou tabaco. Recordam facilmente as recusas dele em sair à noite.
Que é feito desse rapaz tão sério? Há quem afirme tê-lo visto ir-se embora, ter partido. Há quem pense até que morreu para sempre e no seu lugar deixou outro ser. Mas tudo isto é mentira!
Este menino de óculos, sóbrio e saudável, pudico e religioso, fui eu. Aliás, sou eu! Mas as pessoas crescem...
Quem hoje me conhece e não tomou contacto com aquela figura que descrevo acima terá dificuldade em imaginar. Contudo, em essência, tudo está lá. Deixei para trás dogmas religiosos, é certo, mas sei reconhecer o lado positivo de os ter vivido. Deixei para trás restrições, também dogmáticas, e passei a ver o mundo.
Mas continua a ser o menino de óculos que vos escreve (tenho-os postos, por exemplo). Já não puxa o cabelo para trás, não só por ter deixado de gostar como por este ter começado a cair...
Continua a ser o menino de cabelo lambido para trás que entra em qualquer projecto com um entusiasmo de bambu.
É esse menino que diariamente se veste de branco, entra na Unidade de Cuidados Intensivos Neurocríticos do Hospital de São João - que nome! - e trata dos doentes com todo empenho. É ele também que todas as semanas se dedica ao estudo tutorado da música na Escola de Música de Canidelo, ao piano, e que desempenha as performances possíveis. É ele que entra, alegre, no Só Danças, para aprender a dançar. É ele que treina com alguns dos PT's do ginásio que frequenta, por estes lhe notarem um entusiasmo sóbrio, sem exageros.
Na Tuna "A Vencedora" de Vilar de Andorinho é ele que entra para desempenhar os papeis teatrais que o encenador assim destine. Leva consigo a mochila vermelha, não às costas, mas dentro do peito, onde vibra aquela criança que nunca se importou com nada a não ser com aprender e ser feliz.
E agora? Quem será este homem de barba que me olha do espelho?
Depois de tantas páginas escritas, de tantos dogmas rejeitados, de algumas mulheres sentidas, de tantos lugares visitados, de vários cursos e experiências profissionais, de algumas perdas e muitas mais vitórias, depois de dois livros, de várias mortes presenciadas, de vários vícios consumados, este que me olha do espelho é apenas o menino de outrora. Mudou de visual, mudou de opinião várias vezes, mudou talvez tudo o que é acessório... Mas a essência é a origem. E as origens, sejam elas quais forem, são para guardar.

Questões de perspectiva

As perspectivas de vida que temos mudam. Sim, afinal, os objectivos não são estanques. São voláteis, esvaem-se, esgotam-se, perdem-se no tempo.
Há coisas, por exemplo, que tendemos a valorizar que não passam de meros pedaços de um vazio que, arbitrariamente ou não, nos rodeia. É estranho que percamos tempo com esses factos, mas eles, por serem parte integrante da nossa realidade, estão diante de nós, sem misericórdia.
Todos já devem ter notado a descaracterização de algumas prioridades, valores que se deveriam manter interminavelmente. Mas, como os valores também têm tempo, acabam por ser ora ultrapassados, ora hipervalorizados, ora ignorados. Tudo isto quase ciclicamente.
O melhor exemplo disso é o sexo. O sexo, como partilha do prazer, tem vindo a perder o secretismo e a tornar-se um tema menos silencioso do que antes. Democratizou-se, no fundo, e acabou por ser impelido à compreensão da sua semântica. O seu significado, antes singular, agora ter-se-á transformado numa multiplicidade de factores.
Contudo, o sexo encontra-se sobrevalorizado. Quererei com isto dizer que o sexo não é algo extremamente agradável? Pelo contrário! O sexo reveste-se de uma importância determinante na vida das pessoas. É fundamental que exista, que seja bom, que seja feito com vontade, que seja bem praticado, que seja tudo e mais o que a imaginação nos puder dar... Mas não é tudo.
Os objectivos de vida que hoje em dia tanto se apregoam são outro dos factores confundidos ad eternum com aquilo a que chamamos qualidade de vida. A qualidade de vida de um soldador suíço que ganha um salário líquido de 2500 € é melhor ou pior do que a de um médico português que receba o mesmo valor? Creio que se perceberá facilmente que a profissão, e o estatuto social que a ela é mal associado, não é um significante directo para a boa vida que todos sonhamos. O soldador trabalha com maquinaria pesada, mas o médico passa noites em claro. O médico passa horas infinitas no hospital sem ver a família, mas o soldador passa os fins-de-semana a descansar do peso laboral de uma semana inteira.
Estas generalizações são perigosas, mas ajudam-nos a provar a incongruência das declarações que ouvimos no metro, no autocarro, no café e, incrivelmente, lemos em alguns jornais. No fim de tudo, benditos o médico que se lembra que a folga também existe e o soldador que vai jantar fora e divertir-se ao fim-de-semana. Questões de perspectiva, portanto…
Por meu lado, as horas estão contadas criteriosamente para uma multiplicidade de actividades. Não dá para ser diferente, porque é assim que gosto de viver. E há tempo para tudo. Até para escrever textos como este e para perceber que as prioridades também mudam, frequente e bilateralmente, queo prazer de ontem ter saído pode ser o de hoje ficar em casa, que o prazer de ontem ter lido pode ser hoje o prazer de usar um gadget, que o prazer de ter um corpo novo a explorar pode hoje ser o prazer de ter alguém que ouça e ocupe o vazio ao nosso lado e que também pode ter um corpo novo a explorar, o que mostra que pouco nesta vida é exclusivo…
Porquê? Há quem chame prisma, visão, orientação, escolha… Eu, aqui, preferi chamar-lhe perspectiva.

Para ti

Sabes esses espelhos da alma
Que tuas pálpebras aconchegam?
Sonhei guardá-los na palma
Porque os dedos todos não chegam

E esse teu tão calmo jeito
Feito de um mistério silencioso
Onde amiúde me deleito
E me faz tão curioso

Sabes dos lábios desenhados
Que a tua face encaixilha?
Imagino-os em beijos apaixonados
Do mundo nova maravilha

Sabes desse pleno poder
Que a dançar enfeitiça?
Quase me faz não conter
Todo o fogo que me atiça

E se não tiveres defeitos?
Arranjar-te-ei um altar
Para, em momentos perfeitos
Te poder, somente, contemplar.

As difíceis despedidas do que é fácil

Sei de alguém que vai partir. Por problemas conjugais deixará o marido de há décadas e partirá. Outro país a espera e, consequentemente, uma vida mais activa e, assim desejo, mais feliz.
Do ponto de vista de quem com ela conviveu durante mais de dez anos, tudo se torna estranho. A presença daquela pessoa era-me algo garantido, daqueles factos a que pouco ligamos por nos parecerem marcados em pedra. São dados assegurados, no fim de contas.
A vida muda, contudo. O que outrora estava garantido poderá hoje não ser mais do que uma recordação, seja de que teor for.
Que o diga o marido, quando descobrir. Saberá que todos os erros que cometeu mudaram a sua existência? Ou teimará em culpar a fugitiva esposa pela conduta desenfreada e quase leviana de desaparecer da sua vida?
Apenas sei responder à questão que em mim se coloca. Se aquela mulher, que nunca significou nada para mim a não ser uma constante presença se transforma numa despedida difícil, tomara que os erros de hoje não os obriguem a ser "maridos abandonados" de amanhã.

Valência e o meu "até já"


Valerá sempre um até já! Deixou saudades, como se notará pelas parcas palavras que escreverei. Custa escrever sobre estas coisas. Barcelona também foi assim, para pior, tendo em conta que o que escrevi à mão nunca tive coragem de passar. Reler aquilo requer mais tempo...


Nesta viagem, além da comida, das pessoas, das simpatias, dos sorrisos anónimos, do hotel, dos italianos barulhentos, enfim, do bom e do mau que acaba por ser bom por ser diferente, há uma ressalva determinante: a companhia.


É a viajar que a essência das pessoas vem à tona. E eu adorei navegar nesse imenso mar, feito de um feitio difícil (porém, mais fácil do que o meu), uma enigmática beleza e um companharismo surpreendente...


E como a vida é curta, deixo-vos com a música que mais se ouviu por lá, nessas noites de memórias eternas e turvas pelos líquidos sorvidos...












Passear, visitar, tapear, treinar

Hoje foi dia de ver a Ciudad de las Artes y las Ciencias. Alguns quilómetros a pé foram-nos mostrando uma cidade jovem e pronta para o turismo, edifícios que tanto lembravam o barco do Capitão Nemo de Júlio Verne como naves vindas de filmes de ficção científica.
Tapeamos ao lanche. No fundo, uma visita ao sabor mediterrâneo...
No Medium Conqueridor aproveitei para treinar um pouco. O ginásio não é grande, mas tem tudo o que uma sala de treino de um hotel deve ter como indispensável.
E que tal um jantar, sem repetir a Paella Valenciana de ontem? Estão convidados...

Valência II

Uma cama jaz neste quarto, desfeita já por sonhos e outras travessuras. Valência tem o sabor catalão desta costa mediterrânea. Os copos fluem facilmente, os corpos cruzam-se agilmente e a noite cai com sons que noutro sítio seriam música só para alguns. Aqui tudo é para todos e todos estão por tudo!




Valência

Este banco do Aeroporto sabe bem. Começa mais uma daquelas aventuras desmedidas. Ou bem medidas. A vontade de levantar voo, a vontade de aterrar de conhecer, enfim, de viver. E tudo isto com companhias inesperadas, vontades unidas, aquelas acima citadas... É assim que tudo começa na vida: com um inesperado sim a uma ideia inicialmente improvável. Até já...

As fieis tempestades onde depositamos ideias

Oito anos se passaram, se fecharam no dia sete do mês corrente. Oito anos a escrever para estas páginas virtuais, oito anos de paixões, de mágoas, de desencanto e muito encanto.
O Fiel Depositário está ao meu lado há um terço da minha vida. Tendo em conta que os primeiros anos são vividos sem a escrita, sobra ainda menos tempo para me lembrar do que era escrever e não o ter.
Lembro-me de o ter criado antes da minha primeira viagem. Li algo num livro sobre espaços na web que permitiam que se escrevesse e se lesse e, no fundo, se deixasse o Mundo ver o pensamento que transportamos individualmente. A globalização do pensamento personalizado, portanto, que soa a paradoxo, mas tem um lado muito bonito.
É aqui que tenho alguns dos poemas mais bonitos que já escrevi. Li um deles ontem, numa noite especial de poesia. E soube-me bem recordar o imenso prazer que é alimentar este velho amigo.
O FD viu nascer outros blogs, filhos da sua vontade, e da minha, que acabaram por influenciar outros. Com o tempo, o cansaço venceu essas páginas, derrotou a vontade de quem as escrevia.
De todos estes "descendentes" já não há memória.
No entanto, agora o FD tem um irmão. Não é um filho, porque não é descendência directa, e nasceu antes de ter sido criado. Afinal, já vivia dentro do seu criador, que agora diariamente o alimenta. Foi necessário apenas o estímulo, vindo de várias partes, e eis que nos surgiu o http://tempestadideias.wordpress.com.
Da autoria de Ricardo Alves Lopes (RAL), é um blog que marca principalmente pelo toque pessoal que é dado a cada texto e pela universalidade que cada um destes apresenta. Confuso? Leiam e descubram se a sensação não se aproxima a uma familiaridade incomum.
Sou, há vários anos, amigos do RAL. Sei ter sido protagonista de um dos vários estímulos que foram necessários para a criação do seu blog, mas isso perde importância quando a evolução que notamos, já autónoma e livre, nos agrada ao ponto de nos pagar da forma ideal: sendo bom.
É também esta qualidade notória que, hoje, me incentiva a escrever ainda mais, a não deixar o Fiel Depositário muito tempo sozinho.
Leiam! E caso vos dê vontade ofereçam-nos outro irmão. A família nunca está fechada...


Sacrifício ao sol

Mais um dia de puro ócio, com uma perspectiva cultural sem par. As noites de poesia de quarta-feira, provadas por fotografia e ao sabor de textos de qualidade superior, no Olimpo, aquecem esta tarde mais do que o calor que se faz sentir.
É este calor e este mar que me observa desde o horizonte até beijar a areia que me fazem sentir que esta vida não tem igual. Também, é certo, não haverá mais nenhuma para nos fazer sentir algo do género.
Por estas razões, o valor que têm momentos destes, de descanso mental e extenuação física, porque o calor também cansa, acaba por nos valorizar enquanto pessoas. É verdade, tornam-nos pessoas diferentes, gente que vive, deixam-nos sentir o autodomínio dos nossos passos e fazem com que a necessidade de realização pessoal deixe de ser medida por méritos e esforços. Bastam o sol, o mar e tudo o que com eles se conota para que nos sintamos plenos.
E escrevo. Como não podia deixar de ser. Escrevo à velocidade que me permite o tempo que o sol me deixa, mas não se pode lamentar. Sem ele estaria, provavelmente, a escrever um poema negro ou uma prosa ressentida. O sol deixa que a escrita flua, leve, como a brisa que ele mesmo acaricia. Ou será que nós, seres conscientes e pensantes, acariciamos, por meio dele, aquilo que vale a pena? Alguns o farão, outro deixam a oportunidade perder-se... Contudo, o sol nasce também para esses e proporciona-lhes várias oportunidades, como se lhes chama-se a atenção para a premência que existe no usufruto deste ambiente.
Assim será, se tudo prosseguir segundo os cânones sazonais, durante os próximos meses. Eu cá estarei para, de férias ou não, me oferecer em sacrifício ao veranear próprio destes momentos. Tudo o resto, como sempre, virá por acréscimo.

A praia, o tempo e o outro tempo

Há neste tempo, o climático, algo de novo. Sempre novo a cada ano que surge. Há aquela saudade do calor que se faz sentir nesta esplanada onde escrevo. Onde vim, propositadamente, escrever. Há a renovada vontade de criar.
Mas não se chama inspiração. Por favor, não lhe dêem esse nome. Cansa-me que se ofereça sempre ao que é externo o mérito de algo que vem, invariavelmente, de dentro. Não é inspiração, trata-se de pura transpiração, trabalho, persistência, vontade e a força que dela advém...
Vejam o trabalho que dá acordar, almoçar, saber que as férias estão a ser óptimas e ter de fazer o esforço de sair, pegar no gadget que servirá de meio e optar pela esplanada que mais nos aprouver só para praticar o prazer maior de poder criar, de poder deixar estas palavras fluírem até vocês, que agora as lêem.
Imaginem que que o ócio, aquele outro de ficar em casa sem mais nem porquê, me assalta? Já não dá. Já aqui estou, a aproveitar o calor deste Março estranho e novo, novo a cada ano que surge.
Mas é difícil ser assim. É difícil saber observar, é difícil escolher a esplanada, é difícil saber porque palavra começar para deixar o resto de inveja em todos aqueles que agora estão a trabalhar. Esses que sabem que pelo tempo, o cronológico, perderão este tempo, o climático, para não mais o recuperar.
Rejubilem no pensamento de que tal me acontece amiúde. Mas hoje o tempo, este e o outro, são meus. Por isso, invejem-me. É um orgulho que me oferecem.

O simples prazer de jantar

Chega a segunda-feira e janta-se fora. Vem a banda, os amigos, os copos que se entrelaçam em conversas, ora banais ora com a seriedade que tem de ser. E ouve-se. E fala-se.
Haverá maior prazer que partilhar momentos com amigos e ser feliz à custa disso? Ser feliz pelo preço de um jantar e pela simplicidade de poder gastar tempo a partilhar uma das melhores actividade que o ser humano desenvolveu com perícia: a comunicação.
As conversas vagueiam, é certo, por assuntos que a ninguém interessaria ler aqui neste post. Muda-se de assunto à velocidade da lembrança, memórias surgem livres de censura. Bebe-se um pouco mais. Os próprios copos, que se esvaziam rapidamente, soltam os lábios e a língua.
É um prazer estranho e, simultaneamente, facilmente explicável pelo espírito gregário que todos reconhecemos.
No final, os laços estreitam-se, as pessoas aproximam-se, a amizade já se começa a escrever com maiúscula.
O simples prazer de jantar não tem preço, não é taxado e deixa sempre três resistentes que, até de manhã, trocam as ideias mais recônditas.
Até segunda...

Sons e ecos mentais

Existem sons que, por simples que sejam, se retêm na memória, não a querendo abandonar. Esses que são considerados cientificamente um transporte a momentos passados.
Assim é com a música, com as chamadas de atenção, com a declaração de sentimentos, com a expressão da palavra escrita através da voz...
Quem nunca chorou a ouvir uma música ou se comoveu com palavras ditas na hora certa, da forma mais acertada?
Estes ecos mentais, como em mim a música que agora ouço do genérico de Tom Sawyer, tocada pela banda residente do Syrah Bar, levam-me amiúde até tempos que, ao contrário do que se diz, voltam todos os dias por fazerem parte da nossa existência.
Que assim seja. Sempre...


Experiência digital

O mundo muda a olhos vistos e com ele todas as actividades a que estamos habituados. Escrever sempre foi algo prático e uma actividade que se pode sempre fazer fora de casa.
Porém, perdia-se tempo, outrora, a copiar à mão aquilo que outros tinham escrito.
Mais tarde, as máquinas de escrever que subtraíam dificuldade à cópia mas não ao armazenamento. Depois, os computadores. Revolução completa onde o escritor poderia debitar palavras prontas para a edição, também esta revolucionada pelas mesmas tecnologias, e armazenar páginas imensas sem usar gavetas infinitas.
Os computadores tornaram-se portáteis, permitindo libertar o escritor do escritório e hoje qualquer um pode escrever onde quer que seja.
No fim, chegam os tablets. Experiência estranha e estranhamente deliciosa, portabilidade máxima até hoje, um mundo com as polegadas de um palmo. Os e-books reforçam o seu mercado, facto só permitido pelas novas interfaces. Falta apenas a textura e o cheiro, mas há outras potencialidades. Talvez nunca prescinda da ideia do papel. Mas acho muito interessante facilitar a edição de um livro ao ponto de este se parecer com um post de um blog, fazendo-o chegar a todos os leitores sem estes saírem de casa, no mesmo momento e sem ter de aturar as realizações cinematográficas de gráficas e editoras.

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Mesa vazia




Há uma estrada. Há um caminho. Existem cadeiras vazias, uma mesa que espera e músicas que marcam. E depois, no fim de contas, apenas isso, nada mais, faz sentido.
Horas demoradas entre beijos clandestinos, subterfúgios de um sentimento sem nome, vozes de um coro relacional impronunciável.
Fugir não é opção, porque não se foge de quem se é. Lutar poderá não ser, por não haver força maior do que a liberdade que se proporciona.
Eis uma encruzilhada onde as caravanas de pensamentos se atropelam, onde nascem decisões não ditas, onde se escondem momentos , onde se descobrem medos e armadilhas e dicotomias do sentir…
Isto é viver, afinal. A dor também é prazer, em análise profunda, tendo em conta que a vida assim nos trata. Não sendo assim, antes vegetal.
E os outros dias em que não acorda com a noção de nada, mas o todo que um vazio nos traz nos prova que, por maiores que sejamos, não vencemos sempre? Pequenos, portanto.
E lá estará a mesa vazia, à espera da fugacidade dos lábios, da vigilância dos olhos e do secretismo de tudo o que se pensa, faz, sente…
Estará lá, realmente e sempre, nesta metáfora de si mesma em que a vida se torna quotidianamente.

Orgulho

A noite nunca é escura de mais para pensar. Os pensamentos podem ser escuros de mais para a noite. Assim como as manhãs cobertas de nevoeir...