Pobres coitados

Em época natalícia, ajudar os mais desfavorecidos será, porventura, uma das acções mais bem praticadas. Quanto a mim, continuo a achar que será uma tentativa dos ricos de fugir aos impostos e dos pobres de um dia serem riscos para poderem, imagine-se a desfaçatez, fugir aos impostos. Eu não sendo rico nem pobre - rico só se associado à palavra traste e pobre a par do vocábulo diabo – tenho alguma dificuldade em classificar a minha ajuda aos coitadinhos. Ainda assim, a proliferação de benfeitores é de tal forma visível que me leva a cometer o mesmo pecado: o de ser um coração mole e cair na redundância de, ano após ano, levar um pouco de mim a quem tem menos.
Foi o que fiz Sábado, na Fnac do Norteshopping, e Quarta-Feira, no auditório da Reitoria da Universidade de Aveiro. No primeiro caso, a minha ajuda aprouve a um senhor de cabelos brancos, revoltado com várias circunstâncias da sua vida. No segundo, para mal do meu coração amanteigado, tratava-se de um jovem, em plena flor da idade, em posse quase perfeita do seu poder juvenil, mas a ajuda era tão ou mais necessária. Olhando para aqueles dois pares de olhos, ainda que em dias diferentes, a minha reacção foi a mesma. Tinha de lhes dar algo, fazer com que eles se pudessem lembrar de mim mais tarde, dar um pouco de mim a quem, subliminar ou literalmente, já tanto me tinha dado. Assim, depois de ouvir as suas palavras, de ambos, sublinhe-se, mas em dias diferentes, decidi pegar num dos meus livros e entregar de forma totalmente gratuita aos dois pobres coitados. Mas, se pensam que me fiquei por tal simples acto de bondade, mesmo que essa estagnação não fosse de todo reprovável, livrem-se desse engano. Fiz ainda o favor de adquirir as suas obras, como se faz com os estropiados e artistas de rua em Santa Catarina: uma esmola em troca de uma obra de arte de valor dúbio. Resta-me a esperança de que, por esta altura, António Lobo Antunes e Ricardo Araújo Pereira, estejam a ler o meu livro, tal como faço com os deles.

Espelho possível

A gota da água gémea do grão de areia da ampulheta que urge e buzina e fala e lembra

A hora filha do tempo espelho do mal organizado juízo da hora que passa e vai

A ternura o engano da ternura a ternura de ser o enganado e o enganador

O pasteleiro a manhã a fortuna a perdição mas sempre a vontade

A árvore escorre no tempo como um pingo de porcelana doce


Todos os nomes e perdida como cada vontade de perder

Atrás de uma adaga imperdível chamada como

A ela e à devoção pelo prosseguir correndo

Palavra de amor que lhe enviamos

Só dependente da consentida

Que nos leva onde quer

Iniciativa o delapidar

Poder deixar com

Um diamante

Ser um dia

Querer

Querer

Ser um dia

Um diamante

Poder deixar com

Iniciativa o delapidar

Que nos leva onde quer

Só dependente da consentida

Palavra de amor que lhe enviamos

A ela e à devoção pelo prosseguir correndo

Atrás de uma adaga imperdível chamada como

Todos os nomes e perdida como cada vontade de perder

A árvore escorre no tempo como um pingo de porcelana doce

O pasteleiro a manhã a fortuna a perdição mas sempre a vontade

A ternura o engano da ternura a ternura de ser o enganado e o enganador

A hora filha do tempo espelho do mal organizado juízo da hora que passa e vai

A gota da água gémea do grão de areia da ampulheta que urge e buzina e fala e lembra

Haverá limite?

Quarta-feira o meu regresso, no suburbano da CP, foi feito na companhia de um professor. A impressão que tinha daquele homem, responsável por muitas das acções que se efectuam na área da deficiência em Portugal, mudou substancialmente. A naturalidade com que trata os deficientes, mesmo utilizando aqueles títulos que nós, recheados de preconceitos, evitamos, só demonstra a confiança com que ele encara o futuro. Sabe que pode fazer melhor, que podemos fazer melhor e que um dia será, na realidade, tudo um pouco melhor se todos fizermos por isso. A conversa sublimou-se até à existência de limite para o desenvolvimento.
Haverá limite?


Em resposta a um leitor do Fiel Depositário questiono: foi boçalidade da minha parte ter citado Rogério Samora ou foi este um boçal por ter diferenciado dois tipos de sexo, tema de que muitos se escusam e que todos sabem não pode ser assim tratado?
Pois deixem-me explicar que Rogério defendeu o amor ao dizer que não é pelo facto de se ter relações sexuais que se ama. Daí o uso do vernáculo para o que se sabe ser sexo pelo sexo e o uso da palavra amor quando tal se justifica, envolvendo o sentimento na sua plenitude.
Como profissional de saúde, lugar que um dia ocuparei, diria que estamos perante a reacção normal de mais de 60% dos ocidentais. Baseio-me no empirismo para tais valores, mas arrisco até afirmar que mais de metade da população adolescente pratica sexo, não sente amor e, por este assunto nunca ter sido abordado em casa, preocupa-se mais com uma gravidez indesejada do que com uma IST (infecção sexualmente transmissível). Será mais boçal dizer palavrões ou morrer de pneumonia após a infecção por HIV? Os palavrões chocam e este tema pode ser conversado sem recurso a estes. Nesse sentido concordo. Mas pergunte aos membros mais novos da sua família, do sexo masculino, que tipo de preocupações têm em relação ao cancro do colo do útero. Responderão, na sua grande maioria, que não têm útero. E o interlocutor não saberá responder. Pois saiba que não tendo útero podem, ainda assim, por infecção do Papiloma Vírus Humano, ter lesões praticamente invisíveis no pénis. Sendo este um cenário hipotético esteja descansado. Não terá de ouvir a verborreia completa, a citação de A a Z do Dicionário do Calão, reacção típica dos infectados que sabem que tudo poderia ter sido evitado se alguém lhes tivesse dito isto mais cedo.
Continuará o sexo a ser proscrito das nossas conversas?
Haverá limite?

Rogério Samora

Nunca postei nenhuma daquelas palavras que a sociedade decidiu ostracizar no Fiel Depositário. Talvez tenha chegado a altura de assumir que todas as palavras, sem excepção, encerram na sua essência uma beleza que não pode sucumbir a qualquer censura.

Afinal, a literatura usa-as, as piadas dependem eventualmente delas e a vida contém-nas, embora haja meios em que elas devam ser evitadas, a par de tantas outras.
Recordo, a este propósito, o episódio em que uma enfermeira, com um papel determinante naquele Centro de Saúde, soltou a interjeição perfeita para atacar os académicos que preferem os papéis à luta pela integridade da profissão. «À merda mais os registos!» E esta frase não se esquece.


Um dia, numa aula, um professor pergunta-me que livro tinha lido na semana anterior. Em verdade absoluta respondi Memória das Minhas Putas Tristes, de Gabriel García Márquez. «É tão bom quando um livro nos permite dizer um palavrão numa aula», respondeu o professor. Eu referi que podia citar mais um, de Miguel Esteves Cardoso. Ele disse que também conhecia e que eu não precisava de dizer. Pensávamos ambos em O Amor É Fodido.


Rogério Samora, em entrevista à Tabu, revista do semanário Sol, também usou as palavras, também elas por vezes um tabu tão grande quanto as letras garrafais da capa da publicação.


Mas se precisa tanto de companhia por que não abre o coração a alguém?

Estou mal arranjo uma companhia?!? Arranjar mulher porque preciso de companhia era no tempo de Salazar. Respeito as pessoas. Uma mulher sentia-se bem com um homem que dissesse: ‘Amo-te, és linda, deixa-me foder-te’, só porque queria companhia e alguém à espera quando chegasse a casa? Se fosse mulher sentir-me-ia muito mal se alguém estivesse comigo só porque precisava de alguém À espera em casa. Prefiro tratar das minhas neuras sozinho. (sic)


Nunca diz ‘fazer amor’?

O amor não se faz, acontece. Essa expressão é feiíssima. Ama-se, faz-se sexo, mesmo que seja com amor. Isso é um preconceito português de achar que foder é só com as putas. Um dos grandes tabus da humanidade continua a ser o sexo. Como é possível viver nos dias de hoje sem prazer? O sexo não serve só para procriar! Acho a expressão fazer amor muito pouco ‘tesuda’. (sic)


Simples, barato e sem eufemismos hipócritas, por muito criticável que possa ser.


27 de Outubro de 2007




Acabado de chegar ao stand de venda da Mazda vi, logo na entrada, em frente à porta eléctrica, um exemplar Mx-5. Estava pronto para o meu test drive. No entanto, como iria eu sair do stand com o carro? Não iria. Estava um outro, igual mas de cilindrada inferior ao 2.0 que eu tinha visto, à minha espera na rampa de saída. Este, um 1800 cc, era aconchegante. Parecia que me incorporava em si como se eu fosse apenas mais um elemento do habitáculo. A performance relativamente instável da suspensão em paralelo é mais do que compensada pela performance em estrada daquele que é, actualmente, o automóvel mais vendido no mundo deste segmento. Ao mudar de velocidade, a caixa estimula o motor e dá-nos um impulso, sendo o carro a puxar por nós e não o contrário. Um apelo enorme ao usufruto da estrada. Resta-me recordar embora o preço, bem acima dos 30.000 euros, pareça ser um óptimo argumento para o esquecimento.

Europeu de Futsal Portugal '07

Encontro-me neste preciso momento a escrever este post na Media Working Area do Pavilhão Multiusos de Gondomar "Coração de Ouro". As condições da imprensa, muito embora sejam comparativamente menores e menos luxuosas do que em outros eventos, são muito boas. Então porque não usufruir delas? Por agora, nem que sejam apenas cinco minutos, sou jornalista. Bem, talvez não. Talvez seja só um gajo com a mania que sabe escrever e que gostava de estar credenciado para estar aqui.

Josh Schwartz e Michael Hirst: dois oásis

Como fã de Josh Schwartz, criador da série The O.C., estou atento a todo o seu trabalho. Sim, eu sou daquelas pessoas, poucas talvez, que lêem o nome dos autores dos guiões (não gosto da expressão guionista por ser limitativa face a alguns escritores que também fazem deste o seu trabalho). Daí que seja um espectador atento a Gossip Girl e serei ainda de Chuck, que ainda não me foi possível ver, duas séries que o referido autor assina. Gossip Girl foi, entretanto, adquirida pelo canal AXN, o que vejo com muito bons olhos.
Este é um sinal, seguro, que os canais por cabo têm, além de uma preocupação muito mais cuidada com a interacção entre publicidade e espectador, uma preocupação ainda maior com os conteúdos. E isto não acontece com os canais generalistas, nem mesmo com a RTP que falha consecutivamente, embora menos que SIC e TVI. O canal 2, esse tem o benefício da dúvida no conteúdo, mas perde em toda a linha com a forma de os tornar aliciantes, não sendo, de todo, chamativo para os mais jovens e, por vezes, nem mesmo para os mais velhos.
Nutro, ainda, uma grande admiração, embora recente, por Michael Hirst. Depois do guião de The Tudors, a série já transmitida em Portugal, chega agora Elisabeth aos cinemas, um filme a que já tive oportunidade de assistir numa sala que me é tão familiar (ou não fosse ela situada no Gaiashopping, o mais intimista e acolhedor do meu ponto de vista, embora possa perder em qualidade no cinema). Dois guiões enormes, de grande qualidade histórica e narrativa, como só os nomes que alcançam a posteridade podem redigir. Pena que o guião seja ainda um pouco banalizado entre aqueles que criticam, impunemente, a literatura.

A beleza política da sedução do eleitorado

Muitas teorias apontam o feminino como resolução de muitos problemas de poder e governação. A inteligência emocional do género considerado mais fraco, erroneamente, durante tantos séculos, é referida como sendo um trunfo. E é bem provável que assim seja.
Daí que nos devamos congratular com a vitória de Cristina Kirchner nas presidenciais argentinas. Num país emblemático, onde o sangue quente e à flor da pele gere a maioria das movimentações, o facto de o poder presidencial encerrar agora uma beleza nunca antes vista prenuncia algo de bom.
Também nos Estados Unidos onde Hilary Clinton pretende ter o mesmo privilégio: impor-se num mundo masculino com as armas que pela natureza, e não só, lhe foram dadas. Armas de sedução que aplicadas à política podem elevar o ego de um povo exponencialmente. E a sensibilidade? Essa, então, ascende a um patamar quase inquestionável.

Vinte anos

Os meus vinte anos foram cumpridos com euforia. Não minha, mas de todos, no jantar do caloiro da ESSUA (Escola Superior de Saúde da Universidade de Aveiro). Já tínhamos ouvido o Quim Barreiros no dia anterior, nesse dia seriam os Anjos, no seguinte os Blasted Mechanism e, por fim, os Clã, no último dia. Claro está, há sempre que destacar essa parte, fiz novos amigos. Trabalhar numa das barracas onde se vende bebidas dá, como é lógico, alguma notoriedade social, se bem que essa já vá existindo em grau suficiente. Seja como for, e estando outro livro aí à porto, é óbvio que me sinto bem. A idade não pesa, como muitos me disseram, nem tampouco os seus números redondos. Daqui a outros tantos, que me seja concedida a oportunidade de estar aqui, no Fiel Depositário, a dissertar acerca da crise dos quarenta. Até lá, que venha o resto que sobra, tudo, que cá estarei para escrever sobre isso.

Decathlon Vitalsport

Escrevo este post à mão e num estado de felicidade enorme. Olhando para a semana transacta e para o fim-de-semana que ontem terminou em particular, não podia ser outra a reacção que a memória e a lembrança sensorial me oferecem.
Pois bem, na terça-feira, em pleno Estádio Jorge Sampaio, casa do pedroso mas também estádio talismã dos sub-21 nacionais, assisti ao jogo por outra perspectiva. Foi, então, como voluntário do IPJ que tive a oportunidade de conhecer novos voluntários, seguranças da 2045 e ainda de verificar que era lembrado dos tempos da formação. Entre isto, fiz a escolha solicitada pela Paula Cruz, uma grande amiga e directora de comunicação da Decathlon, que consistia em cinco voluntários.
Desta forma, dia catorze, acompanhado de mais quatro voluntários, parti para Lisboa. O Vitalsport, evento internacional e anual da Decathlon, foi algo de muito surpreendente, não só pela estrutura alcançada, mas também pela filosofia demonstrada pela marca. Pessoas novas, ou melhor, amigos novos, que tantos agradecimentos nos merecem agora pela oportunidade. Fica aqui dentro, a pulsar, a despedida de ontem na piscina e um “até para o ano” que não é somente um pedido formal, mas sim a tradução de um grande apreço e da vontade de comparecer. Sempre.

Fernando Miguel Santos
17 de Setembro de 2007

Uma dejecção de morte

O dia de hoje, o do regresso às aulas, tomou contornos surreais. No meu regresso, no comboio que parte às 16.36 de Aveiro, assisti a duas coisas que pensava nunca vir a ter de observar, quanto mais uma junto da outra.
Na Aguda, ainda antes de chegar ao apeadeiro, ouvi o comboio apitar com uma veemência estranha e nada usual, que me fez lembrar as palavras de um revisor que um dia explicou que , parando o comboio, tal se devia ou a um dispositivo de controlo de velocidade da linha ou a um atropelo do comboio a uma pessoa. Pois saiba-se que este último sobreveio à minha viagem. No entanto, para mal de todos os que estavam fechados no comboio, uma senhora idosa, mas a quem pelos vistos a idade não terá ensinado tanto quanto devia, decidiu começar a reclamar pela paragem. Indignada, dizia que tinha de ir à casa de banho, mas não comunicou isto ao revisor de serviço. Na impossibilidade de sair decidiu levantar-se, dirigiu-se a uma das portas mais próximas de mim e, fazendo uso da sua raiva, aliviou os intestinos mesmo no chão do comboio!
E mais palavras não tenho…

Guerrilha?

Não é uma perseguição pessoal ao mundo cor-de-rosa. É, antes de mais, uma sensibilidade que tenho contra coisas ridículas que se dizem e fazem. Como por exemplo a frase de Margarida Rebelo Pinto ao Jornal de Negócios: «[Os blogues] são um território de guerrilha suja, protagonizada pelos terroristas da Internet».
É provável que isto aconteça, como é provável que não. Assim, o problema reside na generalização. E basta ler uma sentença assim para se discernir a incapacidade de alguns frente ao que é novo, a inércia temporal e sazonal. Enfim, resta-me dizer uma coisa. Um blogue bem seleccionado é bem capaz de bater o Sei Lá, o Não Há Coincidências e todos os outros livros de Margarida em qualidade e sentido de fundo literário.

Imitador imparável

Defendo a política de vida que o CD de Gabriel, o Pensador enuncia: Seja você mesmo, mas não seja sempre o mesmo.
Claro que, sendo seres em aprendizagem contínua, em crescimento sempre exponencial e nunca em decrescimento, como alguns podem querer transmitir, admito sempre a mudança e o volte-face vivencial que é mudar de hábitos e até de opinião. Contudo, censuro veementemente a vontade indómita de alguns em transformar a sua vida na crítica de outro quando em si mesmos se revela o estilo de vida criticado. É o caso de Cláudio Ramos.
Este pretenso escritor (sublinhe-se o pretenso), ou melhor, mau cronista social, faz vida da crítica do cor-de-rosa, aquilo que muita gente não sabe o que é, que alimenta comprando revistas mas que acaba por repugnar na mesa de café quando renuncia ao snobismo. Pois atente-se neste homem e veja-se que a sua ambiência é a mesma daqueles que ele critica, o que lhe confere a pele de delator, no mais puro sentido do termo. Se bem que nada tenha contra a frequência em festas, em eventos sociais ou tudo que com isto se relacione acho ser exigível que os frequentadores destas o façam com um fundo palpável de intencionalidade. Estar ali por ser bem sucedido é uma coisa, ganhar a vida posando para fotografias, vestir roupas emprestadas e jogar ao faz-de-conta parecendo rico e não tendo onde cair na hora do chamamento já não é tão justificável. Pelo contrário, é triste, porque esta é a verdadeira miséria de espírito. Mas que dá vontade de rir, dá.
Então mas se não gosto de me relacionar com este tipo de coisas porque razão estou a falar delas? Porque a revista Sábado traz uma citação de Cláudio Ramos à TV Guia, a reacção do apresentador ao facto de ser chamado gay por alguns humoristas: «A maioria das pessoas que goza comigo tem telhados de vidro. Sei muitas coisas sobre elas.»
Em primeiro lugar, que fique claro que compreendo a indignação. Alguém que avalia a vida de gente tão rica do ponto de vista humano, tão rica ao ponto de se tornar cor-de-rosa, deve ser um imenso avaliador de caracteres. Logo, ninguém precisa de lhe contar nada, basta um simples perscrutar e eis a melhor das avaliações quanto às características individuais de cada um. Cláudio Ramos não saberá que humor é algo para rir e que o facto de ser gozado se baseia nisso mesmo, numa intenção de trazer sorrisos e gargalhadas aos rostos dos espectadores.
Já a acusação sobre a orientação sexual me aprece basear-se em algo diferente: a capacidade do ser humano em estabelecer relações com algo já observado. E neste campo, se Cláudio Ramos não é gay, imita na perfeição.
Por isso, e para terminar um post já algo longo, deixo aqui a minha ideia brilhante aos produtores televisivos, ideia com a qual poderia ganhar muito, mas que deixo nas mãos dos profissionais. O melhor seria Cláudio Ramos juntar-se a Fernando Pereira, no sentido profissional, porque não questiono a vida deste último. Mas seria espectacular ver os dois, no mesmo palco, a fazer imitações de grande qualidade. Fernando Pereira imitava as vozes de cantores conhecidos, Cláudio Ramos imitava as bailarinas.

O engano continental, a poncha e o que de nós restasse

A verdade foge, como na maioria das vezes, ao estereótipo. A Madeira não é asfixiante por estar rodeada de água. Tal não acontece com a apelidada Pérola do Atlântico nem com a ilha Dourada, o Porto Santo, tendo esta até uma dimensão bastante mais reduzida.
Por isso, após as férias no Algarve, onde nunca tinha visto tantos estrangeiros (e estrangeiras) como este ano, talvez devido ao facto de ser Agosto, fui para a Madeira.
Desde dia dez até dia vinte foi o mais pequeno arquipélago português que me ocupou mais tempo. Em dois dias demos a volta à ilha, eu, o Bruno e o Filipe, fazendo uso das mais extremas capacidades de resistência e captação. Para a primeira tínhamos a ajuda do pé-de-cabra, da nikita, da Coral, do cortado, mas principalmente, da poncha (que saudades!). Para a segunda, o inestimável apoio das máquinas fotográficas que, como nós, aguentaram caminhadas, chuva, vento, muito sol e muito pó pisado por nós. E depois disto ainda faltava mais de metade da estadia.
Intercalando a poncha com Brisa, o refrigerante madeirense cuja versão maracujá é de repetir vezes sem conta, lá fomos optando pelo que mais nos satisfazia do ponto de vista do equilíbrio emocional de quem tem de visitar uma ilha de inúmeros recursos em tempo tão limitado. Ora o Casino e o Copacabana à noite, ora o Jardim da Quinta da Vigia de tarde para relaxar… Até que chegou a vez do Porto Santo.
Embarcámos no Lobo Marinho, o barco de ligação entre as duas ilhas que compõe o arquipélago, e fizemos das tripas coração para aguentar o ritmo das noites, depois de uma semana tão preenchida. Destas noites fica a noção de que as madeirenses são bonitas, mas não têm a capacidade de o avaliar na verdadeira dimensão. Perdem por se sobrevalorizarem ao ponto de ignorarem quem com elas conversa e, claro, gerar o riso de quem está a ver. Será este o ponto negativo da viagem? De forma nenhuma. Voltaria a sofrer revezes destes vezes sem conta … Era sinal que tinha voltado para a Ilha!



Nota- Este é o post número 300! Mais uma data marcante para o Fiel Depositário.

Pólo Aquático

Finalmente regresso aqui para fazer um novo depósito. Demorou porque durante a última semana não tive vida própria por tanto me ter dedicado ao 7º Campeonato do Mundo de Pólo Aquático Feminino Júnior como voluntário do IPJ.
Começou mal, é verdade, com desistências em catadupa, motivadas pela ausência de coerência e de informações concretas, com desmentidos de afirmações anteriores e tentativas de contornar o que estava acordado. Foram os mais inconformados, ficaram os mais fortes.
Assim sendo, acolheu-nos o Fluvial durante todos aqueles dias tão inconstantes no que toca a atitudes da organização como no clima. Ora chovia, ora fazia sol e as ordens podiam ser “vento Norte” ou “vento Leste”. Resolveu-se cumpri-las primeiro, criticá-las, se necessário, depois. E tudo correu pelo melhor.
Não será muito difícil adivinhar o que vou falar a seguir. Deve ser uma das expressões que mais utilizo desde que a li na badana de Sul de Miguel Sousa Tavares. A diferença é que ele utiliza as duas palavras separadamente por ter incluído a segunda numa enumeração de características. Por outro lado eu junto-as pelo poder que têm e falo somente em “amigos instantâneos”.
Começando como não podia deixar de ser pelos voluntários com quem compartilhei tudo e, uma vez, até o quarto, passando pelas pessoas da organização (as agradáveis, porque as outras dispensa-se) e acabando nas atletas e restantes membros das equipas tudo o que aconteceu é algo que além de inexplicável me parece, até a mim, quase mítico e surreal.
Claro que tenho de fazer algumas ressalvas, porque há coisas que nos tocam mais. Arrepiei-me, como não podia deixar de ser, ao ouvir o meu hino e o de Itália, passei a semana a falar italiano, inglês e espanhol, troquei objectos característicos e contactos, mas acima de tudo troquei experiências e sorrisos, o melhor que podemos carregar dentro de nós. Depois do campeonato ter terminado, Candice, suplente do Canadá que não participou em nenhum jogo, agradeceu-me o facto de lhe ter feito companhia. Fi-lo instintivamente, porque me pareceu que devia ser difícil não participar. Recebi em troca uma das melhores coisas que se podem ouvir, um obrigado. E sei, por isso, que todas estas atitudes das quais esta interacção é apenas um exemplo saíram recompensadas.
Dado que as recordações vão vindo à tona e a vontade de as relatar será incontornável deixo a expectativa de voltar a este assunto tantas vezes quanto possível. E agradeço imenso a todos aqueles que me proporcionaram tamanha experiência. Aos que me enervaram, que me levaram a paciência perto do limite e que tentaram prejudicar os voluntários em determinada altura também agradeço. É graças a esses que existe resistência e que, no fim, saindo eles derrotados, o sorriso dos “voluntários amarelos” é ainda mais profundo, denotando o desgaste de uma semana extenuante, mas a vontade de continuar sabendo que esta semana é inesquecível.

Dina Gusmão vs. Estaline

Até posso ser processado por este post. Era um orgulho que assim fosse. O Correio da Manhã de dia 17 escrevia, pelas letras da iletrada jornalista Dina Gusmão, que Saramago venceu o Nobel em 1989. Acresce ainda, no corpo do texto, que “em 1988, o escritor e Nobel no ano seguinte” (sic) casou com Pilar del Rio. Como podemos ver, não se trata de uma simples troca de números, mas de uma manifestação de apurada cultura, quando bastaria verificar no site da Academia Sueca a data do referido prémio, mesmo tendo a obrigação de o ter memorizado por ser único. Um muito obrigado a Dina Gusmão. É graças a jornalistas que nada percebem do assunto de que falam, que os jornais perdem leitores e, pior ainda, que os leitores se desinteressam pela cultura, que lhes é transmitida erradamente. Jornalista? Tendo em conta que isto requer um título profissional digno trata-se já de um elogio exacerbado.
Após a leitura do parágrafo anterior – D. Dina se o ler, por favor, comente agressivamente ou, melhor ainda, processe-me por difamação e por ter revelado o desastre que foi aquele artigo – muita gente pensará que eu estarei a ser duro. Dirão isto porque firo um pessoa que não conheço (nem quero, a não ser em contexto judicial). Dirão isto porque esta senhora terá já feito coisas de valor (duvido). No entanto, há quem no site deste jornal afirme que devia ser retirada a nacionalidade portuguesa a Saramago, por este ter afirmado que Portugal devia tornar-se parte de Espanha. Devia? Não. Discordo totalmente de Saramago e não penso sequer que isso fosse plausível, quanto mais aceitável. No entanto, assim como não concordo com Dina Gusmão e os seus erros não peço que seja despedida do Correio da Manhã. Há tantos profissionais que não cumprem o que lhes é devido que mais uma não leva o país à ruína. E a julgar pela cultura dos leitores do CM que comentaram o artigo no link, nem o jornal sairá afectado por estes erros. Há até quem diga que Saramago desrespeita as regras do português. Mais uma senhora desgraçada que assina Mari Silva e acaba uma pergunta com ponto final. No mínimo, consideraria isto uma estupidez, porque criticar alguém sobre algo que nem nós sabemos fazer é estúpido. Assim como haver quem chame Saramago de velho senil. Como escritor peço às mais altas instâncias divinas que, a partir dos meus 80 anos de idade, me ofereça uma senilidade como a de Saramago.
Alguém comenta ainda o texto usando a palavra salazarismo. Então o país que considerou Salazar o maior português de sempre queixa-se de um escritor conceituado quando este diz que podíamos ser a “maior autonomia” do país vizinho? Pertencer a Espanha não seria agradável, mas decerto não seria melhor não poder sequer falar entre família sob risco de sermos denunciados por traição ao regime.
Não podemos esquecer que Saramago levou o nome de Portugal, e não o de Espanha, até à Academia Sueca. E que foi este país que um dia o ostracizou, tendo ele sido acolhido pelo país vizinho.
No entanto, Saramago está errado. A meu ver, Portugal tem muito futuro como país. Esperem! A não ser que toda a população seja toda como os estes medíocres comentadores de artigos de jornal medianos. Nesse caso, Salazar teria futuro, graças, de novo, ao analfabetismo. Mas melhor seria ressuscitar Estaline e pedir-lhe para os levar para a Sibéria. Ou Gulag. Desde que seja longe…

Cidade do Carnaval, do pão-de-ló e do basquetebol

Terminou mais um estágio da minha segunda profissão, ou melhor, futura segunda profissão. Por agora só tenho uma: escrever. Mesmo assim, a enfermagem não é algo que eu descure, de todo. Muito pelo contrário, estimo-a tanto como qualquer outra actividade que pratique.
Por isso, congratulo-me quando sou recebido como no Centro de Saúde de Ovar e quando termino com uma classificação tão satisfatória, que em nada se compadece com a falta de sensibilidade dos testes escritos que nos levam a média para baixo. Porém, nestes momentos se prova que a média vale o que vale. Muito, muito pouco.
Com esta afirmação que nada implica, porque, afinal, não tenho qualquer tipo de sentimento negativo para com a escola, a não ser um espírito crítico aguçado, deixo o meu agradecimento a todos que contactaram comigo durante a minha estadia na cidade do Carnaval, do pão-de-ló homónimo e do basquetebol. E trago, claro, uma nova costela dentro de mim…

As Sete Maravilhas do Mundo e as outras

Hoje são eleitas as novas Sete Maravilhas do Mundo. Com letra maiúscula, porque esta designação encerra em si mesma a honra de milhares de visitantes nos próximos tempo. A beleza de qualquer dos monumentos vencedores não aumentará, como é lógico, mas a atenção e os focos de luz da Comunicação Social levarão, provavelmente, a um aumento do fluxo turístico nestes para estes destinos.
Com a presença de inúmeras estrelas como Jennifer Lopez, Marisa, Rui Veloso, Hillary Swank, entre outros e contando com a participação dos campeões nacionais de patinagem artística, o Rolar Custóias Clube, meus conhecidos do campeonato europeu da modalidade de este ano.
Muito embora possam os críticos afirmar que este movimento mais não é do que uma enorme manobra de marketing, tal não pode significar que nisso se baseie uma perda de interesse. Afinal, as obras-primas em questão merecem a nossa atenção. Pena que não se pratique o mesmo com todas as outras de qualidade e gabarito semelhantes.

Sul

Viajo para Lisboa á velocidade de um Intercidades. As paragens, boas para enquanto se dorme, são imensas para quem não se acompanha de livros nem tem as estações radiofónicas do Alfa. Eu trago três. Leio Dana Arnold, no seu A História da Arte e Avenida Paulista de João Pereira Coutinho, ambos saídos da irmandade estabelecida entre a Sábado e a Quasi, o meu prato principal e faço d’ O Ano de 1993 de Saramago a sobremesa poética. Anseio os Il Divo como penso nunca ter ansiado algum artista e talvez porque André Sardet chegou em hora de lamentos, os mesmo que agora quase ridicularizo. Enquanto isso, vejo o revisor e avalio-lhe o porte. Tem mais anos de carreira do que as caras de sempre do meu urbano ou, pelo menos, assim parece. E mostra que a idade lhe conferiu a sabedoria da melhor universidade que há, ao dizer a esta menina que agora entra em Alfarelos, com voz cândida, para colocar a mala grande no local que lhe é reservado, para não ir apertada. Fá-lo como um pedido, não uma ordem, colocando a tónica no conforto da passageira e não na obrigação. Ainda há revisores, afinal. Se lhe ler o nome, aponto.

20 de Junho de 2007


Escrevo agora em Lisboa. Atrás o Vasco da gama, à frente o Pavilhão Atlântico, o primeiro meu conhecido, este meu estranho de sempre. Hoje Lisboa sabe-me bem. Afinal, é a minha capital. E numas cores e num calor humano que nunca lhe tinha percebido. Ou talvez sim e o recordar é que dá a doçura ao reencontro.

20 de Junho de 2007


O palco tem honras de grandeza. Nem podia ser de outra forma. Carlos, David, Sebastien e Urs entrarão em palco daqui a menos de meia hora. Fico de lado em relação ao palco. Sujeito a centralidade pela proximidade. E não tenho ninguém à frente, a não ser a entrada. Daí que fique, também, sozinho nesta fila. O corrimão que nos protege do perigo da queda é também o mesmo que tapa a visibilidade aos ses lugares. Menos este. Mas é meu.

20 de Junho de 2007


Está quase a começar. Sinto aquele nervoso miudinho próprio dos grandes eventos. Agrada-me. Neste lugar até posso esticar as pernas ou cruzá-las à vontade. Dá, principalmente, para fazer uso da minha individualidade sentimental, enquanto aprecio este concerto fenomenal, certamente.

20 de Junho de 2007


Não durou o tempo suficiente (duas horas é pouco). Não cantaram Hasta Mi Final e The Man You Love de que tanto gosto. Assinaram centenas de papéis que não eram meus (eu estava longe). Foi mau? De forma alguma! Foi um dos melhores a que já assisti e um daqueles que nos faz apreciar quem se exibe ainda mais. O som do Pavilhão Atlântico fez estragos uma vez, misturando as quatro vozes, mas é um bom palco. Não um palco óptimo. Mas também não é mau, como muitos afiançaram. Bem, ficam as recordações e as músicas para a elas regressar, sempre.
Ah! Na entrada houve lágrimas. As de sempre, as da praxe, como não podia deixar de ser.

21 de Junho de 2007


Entro no comboio. Sinto o meu périplo lisboeta terminar. E o setubalense, ainda menor, também. Recordo os Il Divo e sinto o pulsar da promessa de regresso no ano que vem. Será? Esperemos . Pelo menos por agora fico-me pela expulsão de uma passageira que ocupava o meu lugar.

21 de Junho de 2007

Il Divo

Correndo o risco enorme de que a minha fama me atraiçoe, mas fazendo-o em nome do amor pela arte e pelo Fiel Depositário que, acredito, nela se insere, sinto-me tentado a perspectivar o dia de amanhã.
Dado que acompanho o quarteto inglês - porque nasceu em Inglaterra - do qual nenhum dos membros o é - um é americano, outro espanhol e há ainda o francês aos quais se junta o suíço – é com grande excitação que espero o concerto da noite de quarta. E os Il Divo, por quem são, para nós portugueses, por quem somos, farão um concerto que espero memorável. Ou imemorável… Porque a arte sente-se e vive-se, não se memoriza.

Relato: três dias

Passaram dois dias desde a apresentação do livro de Maria Bochicchio, O Paradigma do Pudor. Com pianistas e sopranos, a presença de João Pereira Coutinho e de Arnaldo Saraiva, um final com Porto de honra e muita expressão do que é a arte da filologia e a actividade académica literária de topo… Afinal, falar sobre José Régio, ou melhor, construir obra acerca de uma outra não é facto de deixar passar despercebido. E pensar que uma italiana olha para Portugal como sendo fonte de inúmeros génios literários (entre outros) devia fazer-nos rever a noção de que tudo está absorto em escuridão. Algumas mentes estão, mas eis que lhes aparece uma lanterna vinda do estrangeiro e ilumina aquilo que poderia ser um pano negro a cobrir uma janela poeirenta.
Ontem, uma tarde repleta de actividades de relaxamento exceptuando uma discussão em torno de hábitos de conduta em relacionamentos íntimos. A razão de ser do contraditório é a expressão própria de quem fala; ora se diz uma coisa, ora se acha outra, talvez só porque a sociedade nos incute que temos de ter valores. Só não explica quais.
Para restabelecer corpo e mente, boas companhias à noite e a passagem pelo Act. E termino este relato dos últimos dois dias dizendo que o fiz apenas por vontade extemporânea, pois não pretendo que o Fiel Depositário se torne num diário como os de antigamente, sem desprimor para estes e para o género que encerram. Afinal, o meu blog é a mais acessível e mais imediata de todas as minhas manifestações literárias.

Nikita e a Expo Saúde

Durante três dias, segunda, terça e quarta, marquei presença na Expo Saúde, um local de grande validade para a população abrangida, onde o visitante podia receber aconselhamento de saúde a par da verificação de alguns dos parâmetros analíticos aos quais devemos estar constantemente atentos. O convite foi-me dirigido e, como voluntário que sou, não pude deixar de aceitar e comparecer dois dias além do que estaria previsto à partida. Terminou ontem, tarde, já noite profunda e com um saldo que, a meu ver, é positivo.
No regresso, ligo o rádio e ouço Nikita de Elton John. Chove lá fora, mas o limpa-pára-brisas protege-nos, ao vidro e a mim. E chego. Com a consciência de, mais uma vez, ter cumprido um dever que existia de mim para comigo. Falta de modéstia? Pois que seja. É a forma e os meios que valorizo. Os princípios e os fins têm o valor que nos lhes dermos.

Saramago e eu

Ontem, fui à Feria do Livro do Porto. Por mero acaso, consultei o programa para verificar a hora de abertura e, qual não é o meu espanto, vejo o nome de Saramago. Uma sessão de autógrafos e eu em casa. No entanto, e sabendo que a guia de condução estava já na minha posse há cerca de duas semanas, nada melhor do que preparar-me e marcar presença no «meu» Pavilhão Rosa Mota. O encontro com o Nobel da Literatura de 1998 estava marcado para as 17 mas outros compromissos levaram ao adiamento. Por isso, enquanto esperava uma hora, escrevi. No meio de todo aquele mundo compus estas palavras:

«Visito a feira do Livro do Porto. A ausência do Aldeia de Luz e da Papiro não lhe tiram o glamour de sempre. Ainda acredito que um dia aqui estarei sentado a falar e a dar autógrafos. Espero por Saramago e, após o adiamento da sessão de autógrafos do nosso (sem aspas) Nobel, vejo-me no centro daquilo que um dia foi um rinque. Olho o lugar dos juízes, revisito os lugares dos amigos instantâneos, revejo-me naquela porta a orientar as equipas e relembro o 3º lugar do Custóias que tantas lágrimas me custou, essas que agora parecem querer voltar. E sinto que, pela geografia, há dois mundos a confluírem em mim, a literatura e a patinagem. Sei que depende de mim não me desligar. Não o farei, nem que para isso tenha de cerrar os dentes e quebrar os ossos que tenho ao enfrentar a inércia que por vezes se abate sobre nós.»

Fernando Miguel Santos - 8 de Junho de 2007

Com o Planisfério Pessoal de Gonçalo Cadilhe e Os Poemas Possíveis de Saramago nos respectivos sacos, ainda me levanto, pedindo a um companheiro de espera que podia ser meu avô para me tomar conta do lugar, e adquiro O Ano de 1993 para poder, pelo menos, levar dois autógrafos em vez de um. Trazia já comigo um dos meus para oferecer àquele que considero o expoente máximo vivo da literatura portuguesa. Ao lado já de muito bons nomes como Eça, Pessoa, Camões e todos aqueles incontornáveis. E, mesmo assim, ali estava.
- Em primeiro lugar, este é para si. Fui eu que escrevi. Tem a dedicatória na primeira página e essas páginas soltas, no fim, são de uma entrevista que dei em que, por acaso, falo de si. Por acaso não. Perguntaram-me de quem gostava…
- Ah, muito obrigado. Com uma dedicatória bonita, pois claro. Isto é o quê? Contos? – respondeu-me Saramago.
- É um romance.
- Muito bem.
- Esses são para mim: Fernando Miguel.
- É o teu primeiro livro? – disse o autor de Memorial do Convento, estabelecendo uma conversação para mim inesperada.
- É, tenho dezanove anos.
- Pois, realmente… Se começaste com dezanove nem imagino onde vais parar…
E, com isto, iniciou a dedicatória de Os Poemas Possíveis, enquanto uma senhora da fila me dava os parabéns. Ainda só uma palavra estava escrita quando ouço:
- Espera. Tu tens dezanove agora! Que idade tinhas quando começaste a escrever o livro?
- Dezasseis.
- Bff.. Que susto! – disse um dos meus modelos, olhando para mim e depois para a senhora que se encontrava ao meu lado.
Já eu tremia e achava que aquilo era bom de mais quando, não me canso de repetir, o único escritor português que possui o maior galardão da literatura assina O Ano de 1993 e lê a dedicatória em voz alta:
- «Para Fernando Miguel um abraço, colega.»
E, dito isto, esticou-me a mão, piscou o olho e desejou-me felicidades.
- Obrigado, igualmente. – respondi simultaneamente mais pequeno e muito maior.

Afinal, a Papiro estava lá. Confirmei-o quando duas senhoras que estavam na fila me disseram que iam estar atentas ao meu trabalho. Estava a Papiro mas não o Aldeia de Luz. Mas, depois daquele momento, será que isto importa?

O fim da história

A história tornar-se-ia imperceptível se, pelo acaso, eu não tivesse a felicidade de receber um flash, quase como um sussurro divino, daqueles bem ao estilo das séries americanas, daqueles que deixam o Dr. House especado a olhar em frente com um olhar deliciado e a roçar a lascívia. Bem, talvez não tenha sido bem assim. Talvez tenha sido uma questão não tão esotérica e muito mais prática. Quem vê, ouve e sente, sabe. Quem sabe, percebe os finais das histórias. Finais ou intermédios, tanto faz. O futuro que fale mais tarde; eu prefiro falar agora.
Pensam os que nos vêem de fora que o fardo que carregamos, como escritores, é leve e que só trás benefícios. É certo que não o trocava, mas nem tudo cheira a rosas, quanto mais ter a sua forma. E, perceba-se, há muitas formas de fazer as coisas. Pena que muito poucos percepcionem isso.Tentar controlar o ímpeto de escrever é difícil, apartar-nos das personagens é complicado, mas nada é mais incontrolável do que o curso das emoções de um escritor, qual rio repleto de rápidos e curvas sinuosas. Não vendia este rio por nada deste mundo, mas é algo que dá trabalho manter. E manter é uma palavra extremamente fascinante. Pena, de novo, que muito poucos a saibam dizer. Ou melhor, praticar.
Gabriel, o Pensador diz, através de um dos seus álbuns: “Seja você mesmo, mas não seja sempre o mesmo”. Todos mudam, eu mudo. Mas mudar um rumo que se toma de forma veemente é, no mínimo, estranho. Ou talvez não seja. Houve um sussurro divino ou algo bem menos esotérico que me disse que não. Agora percebo o final de toda a história. E, no fim, mesmo não sendo apologista do derrotismo, mesmo achando que o cor-de-rosa ganha ao negro, tudo me parece da mesma cor. E eu, que nunca gostei da unanimidade, por achá-la despida de diferença, irrito-me por ter escorregado. Sim, escorregado. Porque fazer-me cair é difícil, agora que percebo o fim da história.

A Fuga

"A vida é por nós controlada.
Perdêmo-la se fugirmos dela.
O nosso papel é a genuina e a perseguição do querer.
Fugir não é ganhar: é perder."


Fernando Miguel Santos
25 de Maio de 2007

Furadouro 2007

Passou mais um Encontro Nacional de Estudantes de Enfermagem. Deixou sequelas nos olhos, derrames e coisas do género, e deixou lembranças inéditas. Voltei a andar no touro mecânico e digo isto sem estar a fazer qualquer tipo de analogia. Era um touro mecânico de verdade. Além disso, a inédita bicicleta que faz loops e o todas as atracções que possam existir num ENEE, seja dentro ou fora das tendas. Uns copos, umas noites mal dormidas, mais amigos instantâneos, enfim, a paródia normal de quem gosta de viver no pleno sentido da palavra. Mas de tudo isto destaca-se aquela noite em que, ao som do rumorejar das árvores e do deslizar do vento, se ouvem sons estranhos enquanto eu, santo, jogo às cartas na tenda… Até para o ano ENEE!

Grandes olhos têm as barrigas pequenas

Já o afirmei várias vezes: um blog é um local tão independente que se torna aliciante escrever nele por si só. Havendo razão específica para o fazer ou não. Mas, porventura, é necessário existirem razões para se escrever? E é sobre isto que hoje quero falar.
Na literatura há dois tipos de leitores: os que vibram tanto com a leitura que aceitam as coisas tal como elas são, criticam construtivamente e esperam dos autores uma produção que lhes agrade e os leitores que pensam vibrar correctamente com a leitura, mas cingem-se a criticar – seja ou não de forma construtiva – e esperam que o autor faça algo que lhes permita dizer «podia ter sido melhor». Estes são aqueles que não percebem o intuito final, o cerne da literatura. São estes que fazem desta arte uma dança de lombadas, onde quem tem mais autores premiados nas prateleiras ganha, mesmo que para isso não precise de os ler. São ainda aqueles que pensam que podem fazer melhor, mas apenas quando «tiverem tempo de se dedicar» ou, então, «quando um dia se lembrarem de editar um livro». De boas intenções…
Este é um problema de fundo, um problema que todos aqueles que se encontram por fora do mundo literário podem percepcionar facilmente. Talvez não queiram, talvez seja difícil ter de reconhecer. A tacanhez, afinal, paira em muitas cabeças, o que torna fácil o encontro com alguém destas características. Para aqueles cuja crítica é totalmente desprovida de valor, cujas mentes enlameadas exalam apenas o cheiro sulfúrico da inveja, aqueles que acreditam que o que é bom tem de ter sempre as mesmas características e não dão o benefício da dúvida, para quem os bons livros são grandes, grossos, profundos, complexos e o que é pequeno, simples e fácil deixa de ser bonito deixo dois exemplos: Antoine de Saint-Exupèry e David Mourão-Ferreira. Um legou-nos uma das obras mais completas e bonitas de toda a história literária, ou não fosse O Príncipezinho um hino à boa obra. O outro deixou-nos palavras de amor, tantas vezes descuradas por outros por serem tão sentimentais, mas que encerram a verdade do sentimento que inexoravelmente nos apanha a todos:

São de nada tempestades
Ante a falta que me fazes

Ainda a patinagem


O ainda do título não é um ainda de resignação, nem tampouco de cansaço. Antes, é um ainda de agrado, porque é com muito prazer que continuo a manter contacto com todos aqueles que proporcionaram ao nosso país – por muito que tal não tenha sido divulgado – e a mim em particular momentos únicos. E nestes posso incluir, sem dúvida, o jantar convívio da quinta-feira passada. Mesmo que um campeonato como o Porto 2007 se repita, e eu tenho a firme convicção que haverá condições para tal, este será sempre aquele que me introduziu neste novo mundo que, agora, anseio por explorar a meu bel-prazer.
Por isso, como forma de agradecimento a todas as pessoas que conheci nesse campeonato, que me deram valor de uma forma que, por vezes, não encontro junto de alguns que comigo trabalham diariamente - sim, um blog livre permite que critiquemos professores de vez em quando - deixo aqui uma fotografia minha. Vestido com a t-shirt do campeonato, com os papéis do programa na mão e com um sorriso que, para tamanho contentamento será sempre pequeno de mais.

Absolutamente queimado

As queimas são qualquer coisa de fascinantes. E depois de um final como o da Semana do Enterro que, pensei eu, seria irrepetível, eis que encontro um final mais do que à altura por parte da Queima das Fitas do Porto. Por causa dos Xutos e Pontapés? Não. Esses tocaram mas não foi para mim…
E, agora mais tarde, deixo só aqui umas palavras soltas como lembrança, porque são essas de que me lembro quando recordo aquela noite, a noite em que o DJ Overrule ficou marcado por mim, por ter agora um significado diferente. No fundo, foi só isto… e o toque, o cheiro, o cinto, o blazer molhado… e uma pergunta: Na pista? A resposta: Eu também.

Ovar

Ovar, o local do meu estágio de “pessoa diferente”, nome dado pelos professores que, tentando não ser preconceituosos, são-no a toda a força por nos corrigirem constantemente quanto ao vocabulário que aplicamos. E, afinal, este é comummente aplicado em contexto próprio e não é errado. Por exemplo, não será preconceito deixar de dizer “autista” para passar a dizer “pessoa que tem um problema do espectro autista”? Não, não é preconceito, é estupidez.
Mas falando de Ovar… Até ao fim da semana não é época de balanço, porque muito ficaria por dizer que agora o fizéssemos, mas fica o registo de um almoço no 100 Álcool e de um outro n’ O Chico. Muito bem frequentados por sinal…

Oportunidades

Um daqueles posts só porque apetece. E porque as oportunidades se sucedem. E é preciso não as deixar fugir, por isso fala-se delas. Esperemos... os resultados medem-se quando têm de ser medidos.

Patinagem

O Europeu de Patinagem (Show e Precisão) terminou ontem. Sim, o programa dizia 28 de Abril como data de término, mas com uma After Show Party no Maumau era impossível resisitir.
Para a memória e, se possível, para repetir, fica o contacto com todas as equipas e o nascimento de várias amizades instantâneas que nos deixam aquele sabor doce e o desejo de as manter seja qual for a distância. E porquê escrever isto apenas hoje? Porque consegui fazer a proeza de entrar às 7:00 no Pavilhão Rosa Mota e abandoná-lo às 2:00 do dia seguinte, deitando-me novamente às 7:00. Vinte e quatro horas sem parar, depois de orientar a totalidade das entradas das equipas nos treinos e nas provas, mudando constantemente de língua. Mantinha-se o sorriso, esse que fiz questão de manter para todos, independentemente da idade, país ou resposta. Esse que, no final, tanta simpatia e amizade me trouxe que, por sua vez, me levaram às lágrimas, com a ajuda do terceiro lugar de Portugal (Rolar Custóias Clube) na modalidade de Grupos Pequenos.
Por tudo isto, deixo aqui uma mensagem de agradecimento à organização do evento pelo carinho e apoio e pela oportunidade que me deram, pelos quais podem dispor sempre que necessário. A todos os amigos, desde atletas a organizadores, passando por seguranças e de mais responsáveis, um grande abraço. Um beijinho muito especial para a Giada e para a Beatrice e para as patinadoras do Sangiorgino. Parabéns pela medalha. E um tremendo até já, deste novo apreciador da patinagem artística.

Porto 2007


Começou o Europeu de Patinagem Artística, o Porto 2007. Sim, mais uma actividade, porque a vida é para ser vivida hoje.
Ao serviço da organização por intermédio do IPJ já vi, no primeiro dia do evento, muito do que nunca tinha visto: segurança apertada, coordenação motora, eficiência e, acima de tudo, um aroma a charme estrangeiro impossível de ignorar. Pena serem só mais dois dias…

Code


Quem diria que um ano depois de entrar naquela casa estaria lá a apresentar um desfile? Mas foi assim. Eu e a Sandra Marques tratamos, e segundo opinião unânime muito bem, da apresentação do desfile da Code durante a Festa de Enfermagem no Club 8 em Aveiro. E assim se junta mais uma actividade a tantas outras...

Impagável

O prazer de fazer algo e ser recompensado é impagável. Para mim, o prazer de falar e sentir o silêncio que se faz e que, profundamente, me deposita uma confiança e me atira uma responsabilidade colossais também. É isto que quase me leva a sentir-me forçado a falar, a passar de mim para os outros aquilo que possa ter de bom para lhes transmitir. Presunção? Quem o achar é porque não percebe a dimensão daquilo a que me refiro.
Além disto, o prazer de não ter de me esforçar para sentir a aprovação de uma pessoa não tem preço. Se essa aprovação advier do inesperado, mais incomensurável se torna.
E nisto ficamos, para que para a próxima o tema ainda seja bom e para não gastar as palavras que para serem ditas tem primeiramente de ser sentidas.

Três

Crime! O Fiel Depositário fez três anos e data não foi assinalada por mim. Mas, como blog bem mandado que é, não se queixou e esperou que eu, amo desnaturado, acabasse por fazer referência a tal facto histórico. Não é qualquer um que faz três anos neste mundo da blogosfera. No entanto, asseguro-vos que podem esperar pelo quarto, quinto… Porque eu e o Fiel Depositário já não somos nada um sem o outro.

Parabéns!

Não?

Querer é o primeiro passo para o sucesso. Querer implica acreditar, implica lutar, enfim, há toda uma conjuntura própria de quem deseja algo. Ainda assim, sabendo disto, há vários tipos de reacções. Existem os que querem e fazem por isso, os que não querem e os que querem mas não sabem o que fazer para que isso aconteça. E estes últimos são os que nos conduzem a mais preocupação, uma vez que podem perder algo que querem só porque realmente não fizeram aquilo que estava ao seu alcance.
Por exemplo, se os pais de Bill Gates não tivessem tido o bom senso de apoiar o filho, se lhe tivessem dito que não, ele hoje não era o homem mais rico do mundo; se Stephen Hawking tivesse dito não e tivesse desistido, hoje não seria uma das figuras mais importantes dos nossos tempos; se Nicholas Sparks tivesse dito não à sua mãe, quando esta o aconselhou a escrever, hoje não teríamos alguns dos melhores romances sentimentais algumas vez escritos; se Che Guevara tivesse dito não à revolução, hoje não seria o símbolo que é; se D. Afonso Henriques tivesse dito não a todas as batalhas que teve de travar, hoje Portugal não existiria; se os navegadores tivessem dito não à aventura e ouvissem o velho do Restelo, hoje não teríamos o passado glorioso que temos; se…
O problema está na vontade e no medo. Há sempre dois caminhos pelos quais podemos optar. E ambos conduzem a fins aceitáveis, mais cedo ou mais tarde. Contudo, a audácia dos vencedores é sempre, repito, sempre recompensada. Por isso, podemos optar pelo não e seguir uma vida sem sal, ou optar pelo sim e, passando por imensas dificuldades, atingir a aura com que todos sonham.
Afinal, do emprego à vida familiar, passando pela amizade e pelas relações amorosas, é como dizia o outro: o não parece estar sempre certo, o não é o caminho mais fácil. Haja coragem para não o dizer.

Arrependimento: o dilema do passo atrás

Quando fazemos algo, seja o que for, e duvidamos do que realmente era a nossa intenção, logo vem alguém que nos grita: «Nunca te arrependas do que fizeste; arrepende-te do que não fizeste!». Não há dúvida, tem lógica. A confiança em nós é o primeiro passo para o sucesso. No entanto, nem tudo que tem lógica está certo. E esta teoria, que há tantos anos me faz pensar, levou-me, ela mesma, a concluir que está errada. Sim, errada.
Senão, vejamos. Imaginemos um homem qualquer. Esse homem tem duas opções: dar um passo em frente ou ficar quieto. Ele decide tomar o passo em frente e duvida, o que despoleta a chegada de alguém que lhe grita: «Nunca te arrependas do que fizeste; arrepende-te do que não fizeste!». Vendo a situação pelo olhar comum, se ele seguir o conselho, então não se arrependerá do passo tomado. Ainda assim, esta não é a única visão possível do acontecimento, porque há algo que ele fez – dar um passo – e algo que não fez – ficar quieto. Por isso, segundo o conselho, ele não pode arrepender-se do que fez, ou seja, do passo que deu, mas pode arrepender-se do que não fez, ou seja, ter ficado exactamente no mesmo local.
Um leitor atento terá reparado que, com o mínimo de percepção da abrangência desta frase tão usual, voltamos ao dilema inicial. Mas a questão fulcral deste exemplo não é saber se devemos seguir o conselho linear ou rebuscadamente, nem tampouco se o devemos ou não seguir. A moral da história resume-se numa máxima sem interpretações dúbias: digam os outros o que disserem, todos temos o direito do arrependimento, basta querermos. E dar-mos um passo atrás…

Estágio de obstetrícia

Estagiar é, por si , uma experiência única e, portanto, irrepetível. Viver quase um mês numa casa com nove rapazes é, também, uma aventura cheia de atritos, escorregadelas e algum, senão muito, desleixo. Fata-nos a mão feminina, a tão sonhada fada do lar.
Mesmo assim, e apesar de todas as dificuldades que surgem, estejam elas relacionadas directamente com o estágio ou não, não deixa de ser muito agradável e surpreendente a forma como fomos recebidos no Centro Hospitalar do Alto Minho, EPE. As utentes não demonstram qualquer tipo de constrangimento, as enfermeiras tratam-nos como colegas que seremos e os bebés...bem, a esses passamos despercebidos. Ou, pelo menos, por esses não seremos recordados. Este post poderia, portanto, ser um simples sorriso. Um sorriso alegre de quem estagia num serviço hospitalar que emana esperança por (quase) todas as enfermarias.

Três meses: o cor-de-rosa vence o negro

Por muito que pareça incrível, há dias em que escrever no Fiel Depositário não é propriamente a minha vontade. Com o passar do tempo e o meu blog prestes a fazer três anos o que, dentro deste pequeno grande mundo, é exorbitante, acresce a responsabilidade de o manter, o desejo de nunca o ver partir. E se de mim depender, assim será.
Pois bem o meu primeiro post de 2007, um ano que augura, sem dúvida, grandes acontecimentos a todos os níveis vai para a data marcante que é hoje. Três meses. Em três meses é possível estabelecer uma enormidade de coisas, de participar numa infinidade de projectos, que é, afinal, o que tenho feito a minha vida toda. Mas nunca um como este. Deste, a relação afectiva mais séria, mais emocionante e mais reconfortante alguma vez vivida, depende a minha sanidade mental, dependo eu. Alguns diriam que exagero. Pois bem, é evidente que não morreria se algo acontecesse, mas todos os que alguma vez passaram por isto, todos os que viveram esta experiência ou mesmo não a vivendo sonharam com ela, percebem que é incrivelmente satisfatório viver assim. Por muitas angústias que tenham de ser vividas em algumas situações, vale a pena, porque são essas que nos conduzem ao vale encantado dos grandes momentos. Que seria da luz sem a escuridão? Que seria do doce sem o amargo? Como costumo dizer o mundo não é cor-de-rosa, mas também não é negro. É esse equilíbrio que, diariamente, temos de procurar e encontrar. E eu encontrei o meu. Alguém que contrapõe o meu esporádico mau feitio, alguém que me ouve, alguém que está ao meu lado mesmo quando não está presente, enfim, alguém que me faz ser mais do que o que sempre fui.

Chama-se Filipa e hoje completam-se três meses.


Fernando Miguel Santos 11 de Janeiro de 2007

Orgulho

A noite nunca é escura de mais para pensar. Os pensamentos podem ser escuros de mais para a noite. Assim como as manhãs cobertas de nevoeir...