Óculos, cabelo lambido e mochila vermelha

Lembram-se daquele menino de óculos, cabelo lambido com gel para trás, que chegou à Universidade ainda de mochila vermelha às costas?
Lembram-se daquele rapaz a quem muitas dariam crédito intelectual mas a quem poucos tratariam como parte integrante de algo comum?
Alguns, os meus mais chegados amigos, lembrar-se-ão até de um menino religioso, que sonhava casar virgem e acertar à primeira na mulher que amaria para sempre. Lembram-se, de certeza, de um menino que não tocava determinantemente em álcool ou tabaco. Recordam facilmente as recusas dele em sair à noite.
Que é feito desse rapaz tão sério? Há quem afirme tê-lo visto ir-se embora, ter partido. Há quem pense até que morreu para sempre e no seu lugar deixou outro ser. Mas tudo isto é mentira!
Este menino de óculos, sóbrio e saudável, pudico e religioso, fui eu. Aliás, sou eu! Mas as pessoas crescem...
Quem hoje me conhece e não tomou contacto com aquela figura que descrevo acima terá dificuldade em imaginar. Contudo, em essência, tudo está lá. Deixei para trás dogmas religiosos, é certo, mas sei reconhecer o lado positivo de os ter vivido. Deixei para trás restrições, também dogmáticas, e passei a ver o mundo.
Mas continua a ser o menino de óculos que vos escreve (tenho-os postos, por exemplo). Já não puxa o cabelo para trás, não só por ter deixado de gostar como por este ter começado a cair...
Continua a ser o menino de cabelo lambido para trás que entra em qualquer projecto com um entusiasmo de bambu.
É esse menino que diariamente se veste de branco, entra na Unidade de Cuidados Intensivos Neurocríticos do Hospital de São João - que nome! - e trata dos doentes com todo empenho. É ele também que todas as semanas se dedica ao estudo tutorado da música na Escola de Música de Canidelo, ao piano, e que desempenha as performances possíveis. É ele que entra, alegre, no Só Danças, para aprender a dançar. É ele que treina com alguns dos PT's do ginásio que frequenta, por estes lhe notarem um entusiasmo sóbrio, sem exageros.
Na Tuna "A Vencedora" de Vilar de Andorinho é ele que entra para desempenhar os papeis teatrais que o encenador assim destine. Leva consigo a mochila vermelha, não às costas, mas dentro do peito, onde vibra aquela criança que nunca se importou com nada a não ser com aprender e ser feliz.
E agora? Quem será este homem de barba que me olha do espelho?
Depois de tantas páginas escritas, de tantos dogmas rejeitados, de algumas mulheres sentidas, de tantos lugares visitados, de vários cursos e experiências profissionais, de algumas perdas e muitas mais vitórias, depois de dois livros, de várias mortes presenciadas, de vários vícios consumados, este que me olha do espelho é apenas o menino de outrora. Mudou de visual, mudou de opinião várias vezes, mudou talvez tudo o que é acessório... Mas a essência é a origem. E as origens, sejam elas quais forem, são para guardar.

2 comentários:

Anónimo disse...

Não o vi, não o conheci, mas mantenho-o como amigo. Só assim poderia descrever as conversas com o Nando bebado, voltando às raízes de Fernando Miguel Santos, para me elogiar a crença na descrença, porque não deixava de ser crença. Não a "dogmática" religião, a crença de ter fé, porque essa é a que realmente importa!
Quem te conhece, conhece o lambido, disso não duvides :)

Grande abraço, do teu amigo Ral!

Anónimo disse...

Um dos textos que mais prazer me deu ler.
Foi bom relembrar esse menino de óculos e mochila vermelha! :)

Beijinho, Filipa.

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