O meu acidente




A sensação de impotência, quase como se fosse a conduzir uma mota feita de sabão graças ao óleo das estradas, a dor do impacto e as dores de vários dias que se seguem (e ainda se mantêm), as feridas de abrasão feitas pelo deslizar desprotegido no alcatrão... Consequências de quem anda à chuva e, neste caso, não se molha mas cai.
Tudo se passa num milésimo de segundo. O carro que me precede talvez nem se aperceba do erro que comete. E eu caio.
Caio em plena cidade do Porto e quem pára para me ajudar? Um brasileiro preto. Perguntou-me tudo o que devia ter perguntado, esperou que me recompusesse e tentou reconfortar-me. Ainda me ajudou a erguer a mota e viu-me as feridas. Depois, esperou que eu telefonasse a alguém e deixou-me. Nesse dia, talvez tenha chegado atrasado ao trabalho.
Não sou de fazer contas ao que se passa depois, mas esperava contactos de outras pessoas. Os "inevitáveis" fizeram-no, duma forma ou doutra, mas alguns deixaram passar ao lado. Talvez seja por ninguém lhes ter contado, espero...
Escrevo isto ainda com dores, embora já me levante da cama com mais destreza. O Zaldiar ajuda a aguentar estes dias.
Na cabeça lateja o desconforto de não ter posição para o meu corpo e as frases daqueles que me dizem que as duas rodas não são para mim.
É normal cair. Aliás, neste texto, cair é um dos poucos factos normais relatados. Quem anda de mota cai e ganha experiência. Assim também acontece nas bicicletas.
Valha-nos isso e...o apoio de quem está ao nosso lado.


A Scooter Literária




Sábado, após uma noite de serviço, a minha Besbi 125 marcou presença na Scooter Parade, a maior concentração de scooters do país, transportando-me e à Filipa.
Na semana em que atingiu os 2000 kms, soube-me bem saber que há várias pessoas (mais de quatrocentas, pelo menos) que partilham do prazer de viajar neste veículo tão divertido.
É também com prazer que recordo a forma como a Besbi chegou até mim e que faz dela a única Scooter Literária do Mundo! Sim, a Besbi teve o preço de um poema. Um poema escrito por mim que, após votação quase unânime dos professores do ginásio onde os poemas foram a concurso, se tornou o vencedor do primeiro prémio.
Como é libertador não ter de me cingir aos horários do metro, às agruras do trânsito e dos lugares de estacionamento... Como é refrescante sentir a liberdade na cara (às vezes ao ponto de nos enregelar) e ir descobrindo, sempre com extrema atenção, a maneira de pensar dos outros condutores, praticar a arte da adivinhação em relação ao que os outros pretendem e seguir até ao destino...
Com o número de inscrição 276, a Besbi não se envergonhou ao lado de todas as Vespas, Lambrettas, Maxi Scooters... Tem a sua beleza e a sua performance que nem precisa de ser comparada. Gostou, por certo, do convívio com estas no agradável passeio pela cidade, como eu gostei de sentir que as pessoas com um objectivo em comum são, afinal, capazes de tudo.
Talvez até se tenha sentido orgulhosa. Afinal, era a Scooter Literária, um título que a acompanhará sempre e que fará dela, aos olhos do dono, o ex-líbris dos veículos.


Política e fraqueza




Aproximam-se as eleições autárquicas mais estranhas da história do nosso país. Talvez seja porque os candidatos corruptos continuam a insistir, talvez seja porque o tribunal constitucional decidiu a más horas o que seria feito dos candidatos " repetentes", talvez seja da conjuntura.
O certo é que nunca nada foi tão confuso nas eleições do poder local, as mais precisas na mente dos eleitores. Afinal, conhecem-se os candidatos, sabe-se do seu trabalho em prol das freguesias e dos municípios e não há aparelho partidário que vença a força do conhecimento.
A culpa é da fraqueza de todos. A forma como tratamos os políticos, deixando-os ficar com os lugares que deviam ser de alguém que promovesse a cidadania activa e de qualidade, é a origem da classe política que nos representa.
Tecnocratas uns, imbecis outros, levam a sua vida à nossa custa e nós a nossa à sua mercê e eis o resultado.
Compreende-se que o peso não é igual dos dois lados da balança, que a corda pode partir do lado mais frágil, mas muitos pesos de poucos quilos pesam tanto (ou mais!) do que um peso com vários quilos.
Começa em cada um e eu, reivindicativo por natureza e resmungados por adaptação, também fraquejo. Hoje, mesmo hoje, isso aconteceu.
No entanto, a aprendizagem só o é se se der de uma forma contínua. Tudo se aprende quando se quer aprender. O importante é não repetir os mesmos erros.
Caso contrário, lá estarão sempre os mesmos a usufruir do prazer de servir o país como se o país fosse quem os deve servir.
Amanhã, terá de deixar de ser assim...


Orgulho

A noite nunca é escura de mais para pensar. Os pensamentos podem ser escuros de mais para a noite. Assim como as manhãs cobertas de nevoeir...