Macy Gray e o Chile em Lisboa

Faz hoje uma semana que assisti sozinho ao concerto de Macy Gray no Coliseu do Porto. Quase tudo nessa noite foi peculiar. Desde o pedinte a quem paguei um pão com três bolinhos de bacalhau e que mesmo assim continuava a pedir para comer, até ao facto de o bilhete dizer “Plateia em Pé” e haver cadeiras. Ocupei, por isso, um lugar na primeira fila e acabei por trazer duas recordações: uma nota de um bilião de dólares com a face da cantora americana e um cartaz com um pedaço de uma das letras das suas músicas escrito.
Hoje, enquanto esta televisão aqui ao lado me mostra Portugal a jogar um futebol que não é o nosso, relembro as boas notícias que recebi da editora. O livro está mesmo a aquecer.
Imagino-me, também, já em Lisboa para mais uma das minhas experiências solitárias. Assistirei a um congresso organizado pela Ordem dos Enfermeiros e ficarei a dormir na capital, num local cujo nome inclui a palavra Chile. Nunca pensei ser possível visitar a América Latina por tão poucos quilómetros. Veremos se o Chile vale a pena…

O bom caminho

No fim-de-semana transacto visitei a Corte Nova da Preguiça, agroturismo perto de Vila Nova de Milfontes. Não é a ilusão criada pelas caras conhecidas, mas sim o lado incógnito destas e o desconhecido total das amizades que se constroem assim, vindas do nada. Mas nós, pessoas, não somos nada.

A minha recordação da Preguiça nunca será vaga. É algo premente de mais para se ter passado apenas no espaço de dois dias. É aquela alegria permanente de ter ido e a saudade suada por dois corações apaixonados que gostariam de ter ficado mais tempo.

Na Preguiça não há defeitos. Os erros, encarados pelo passar do tempo mais calmo, mais lento, porque nada é feito com pressa, são naturais. E, sendo assim, não são marcas defeituosas. A passagem do Homem ali é uma marca indelével, mas é por meio dela que se retorna ao espírito primordial da calma para que fomos construídos. A mesma calma a que desejamos voltar quase diariamente.

A Preguiça é longe. Se o longe traz toda esta simplicidade então vale a pena. Aliás, podia ser ainda mais longe que desejaria da mesma forma rever José Falcão em sua casa. O longe simples, afinal, faz-se em bom caminho.

O regresso, em alguém nostálgico como me considero, que guarda as recordações de forma marcada e a elas volta de modo recorrente, é doloroso. Mais doloroso se torna se chegarmos à conclusão que a simplicidade dos momentos deixados não se encontrará no porvir. Ou, se forem achados, será por meio da dificuldade imensa da procura, que nunca devemos abandonar, mas que não corresponde à facilidade espontânea da simplicidade.

Eis-me pois na encruzilhada saudável que é querer e por meio da impossibilidade aumentar o desejo. E se na encruzilhada vier a incompreensão? Sim, é nestes caminhos do quotidiano, os mesmos que nos fazem perder, que a incompreensão se torna mais viva. Não há espaço para ela na simplicidade. A simplicidade é tolerância. Se ela vier, a incompreensão, fará com que nos sintamos como peça de um jogo de damas entre um bispo e um rei. É assim que a voz de quase todos chega até nós. Até mim. Ou talvez não seja assim. Talvez sejam apenas momentos em que o som é este, mas logo muda. Assim seja, pelo menos.

Quero a Preguiça novamente. A preguiça é bom caminho. E, na Preguiça, a preguiça é algo que se encontra com naturalidade e sem culpa. Se vivemos numa época em que todos os serviços estão à nossa disposição sem sair de casa, então enviarei todos esses e-mails e farei todos esses telefonemas.

Que me tragam a paz que a Preguiça traz.

Preenchendo-me

A semana passada foi dura. Ainda sinto os resquícios de uma alegada gripe A e das noites consecutivas, que culminaram com um concerto fantástico de José Cid. Foi assim na Festa das Latas em Coimbra, uma festa longa de mais para ser relata desta forma, quase impunemente, como se nada tivesse sido o que foi. Mas aconteceu, acabou e deixou-me mergulhado num mar de tosse e fraqueza, com menos três quilos e um batalhão de pessoas a perguntar-me qual é o segredo para emagrecer tão rápido. Equilíbrio! É esse o segredo. E talvez comer só Estrelitas ao almoço e tomar Ben-ur-ron e o seu paracetamol, ou o ibuprofeno do Brufen, para combater os sintomas da gripe. Seja ela qual for.
Agora, melhorado da tosse, mas com as horas de sono por acertar, fico até tarde a observar o brilhante trabalho de vários argumentistas americanos. Grandes séries no AXN e até na Fox Life! É daqueles trabalhos de sonho poder escrever imagens, poder usar o poder da palavra para transmitir sensações vívidas a ponto de serem vividas.
Na noite passada, neste estado insone, terminei a leitura de O Amante, de Marguerite Duras. Levantei-me sem hesitação e procurei outro livro. Desta feita, hesitei. Crónica de uma Morte Anunciada de García Márquez e A Tia Júlia e o Escrevedor de Vargas Llosa aliciavam-me. Decidi-me pelo primeiro. Iniciei a leitura depois da chamada de sempre, aquela que alimenta os sentimentos mais profundos, como se eles não fossem já auto-suficientes, e terminei por volta das 5 h. Três horas de leitura consecutiva, quase febril, mas deliciosa. A leitura, desde há muito tempo, que me fez recorrer mais vezes ao dicionário tentanto absorver ainda mais o ambiente caribenho, numa história simples e profunda, mas plena de descrições à antiga e com palavras de uso tropical e velho. Um sabor que se sente facilmente e vicia, uma tradução espantosa e, acima de tudo, uma história que é como a nossa vida, cheia de enganos e desencontros e preconceitos. Hoje começo a ler Llosa. Só para me preencher ainda mais.

Orgulho

A noite nunca é escura de mais para pensar. Os pensamentos podem ser escuros de mais para a noite. Assim como as manhãs cobertas de nevoeir...