Garota de aeroporto

Os olhos desenhados com traços felinos incomparáveis. A face pousada num lago cristalino com nomes de fadas que, ás costas, suportam a penitência do que é belo.
Troca-se o olhar, insiste na resistência estúpida do orgulho, fecham-se as comportas das barragens de palavras que forçam a liberdade da vontade.
Espelham-se comentários em portas fechadas, mas de vidro, para manter a tentação. A de Ipanema era mais fácil, mais despida, daí a canção. Está mais longe, mais tarde, tarde de mais, talvez.
Por isso, frustra sentir na pela a queimadura do sorriso distante, no último momento do último olhar. Amanhã, como sempre, é tarde. Amanhã, como sempre, é tarde de mais.

Prenda de Natal

Eram cerca de 4:00 h. Veio silenciosamente, ao som de uma derrapagem. Transforma, porque agora prova-se o sabor acre do limite final e sente-se o comovente doce que se teria perdido. Perdeu-se apenas dois painéis e uma óptica, talvez um capot e, por horas e dias, talvez, o prazer de conduzir. Nem em jogos se tolera. No serviço, entram vários acidentados, politraumatizados que podiam ter o meu nome na pulseira da triagem. Valha a sorte e uma mão pousada sobre o carro, seja ela qual for.
A visão disto muda. O arrepio ao recordar volta sempre. É triste, mas escrever sabe melhor que antes. Sem um arranhão. O carro pode não valer mais a pena, embora ande.
Dois Natais. Deve ser prenda.
Esperemos que não aumente o valor absoluto da intensidade.

Fernando Miguel Santos
Hospital Infante D.Pedro, 4 de Dezembro de 2008, 20:04

O sabor amargo da vitória abandonada

Todos aprendemos que na vida nem sempre se ganha. Há derrotas, tristezas e desventuras a que temos de reagir. A questão que, contudo, se coloca é terminológica. Temos de reagir, não de nos habituar a elas.
Olhados de lado pela sociedade em que se inserem, os mais reactivos são aqueles que transformam a sua vida numa perseguição de vitórias, não pelo simples prazer de vencer, mas porque têm confiança nas capacidades que possuem, conhecendo-se bem e, acima de tudo, tendo plena noção das suas limitações. Sabendo disso podem, frequentemente, conseguir ultrapassar handicaps que de outra forma nem reconheceriam como tal. E vencem.
Hoje é mais um dia sem tempo para mim. Mas há sempre tempo para vencer.

O rei do tempo

Em tempos longínquos, os desejos de todos os monarcas eram satisfeitos por pajens que, como que por intermédio de mágicos poderes, apareciam por detrás das cortinas com travessas de perdizes recheadas e porcos engordados para o efeito.
Não sendo eu monarca, tenho de lutar para ter aquilo que quero. E o que quero tenho, pelo menos por agora, pelo preço caro que é não ter tempo.
Levanto-me às 5.30, apanho o comboio das 6.25, chego a Aveiro as 7.13 e percorro a pé o caminho até o hospital durante vinte a vinte e cinco minutos. O calo que surgiu na planta do meu pé esquerdo transforma-se, por esta altura, num silício secreto que me lembra que o meu sofrimento tem uma razão válida. Ou várias.
Fardo-me e entro no serviço de Urgências do Hospital Infante D. Pedro a tempo do início da passagem de turno: às 8.00. Saio às 15, apanho um táxi para me levar ao comboio que parte às 15.19, chego às 16.06 a Valadares e parto para o Porto. Entro ao serviço da GameStop entre as 16.20 e as 16.30 e completo as minhas horas até um pouco depois das 24.00. Chegou a casa já na primeira hora do dia seguinte e durmo o tempo que posso… Dali a três horas e meia estarei acordado novamente.

O tempo urge

Parece uma mensagem de desespero, mas não é. Aliás, podia ser de qualquer coisa, menos de desespero. Aquilo que neste momento sinto é uma grande sorte e, sobretudo, uma enorme confiança na minha capacidade de gerir o tempo, da qual cheguei a duvidar.
Estar a trabalhar na Gamestop e a estudar Enfermagem, gostando de escrever e pretendendo fazer disso um hábito diário é complicado. Mas, como disse, a vontade é mais forte do que qualquer entrave seja ele temporal, físico ou psicológico.
Por outro lado, acresce à minha vontade a lembrança de muitos que não têm oportunidades como esta, alguns dos quais até por estupidez própria.
E assim o meu futuro será diferente.

21 anos

Hoje é dia do meu aniversário. Há vinte e um anos atrás nascia eu, se calhar já com estas ideias desvairadas de escrever também elas redigidas no meu código genético. Talvez até com esta ânsia de consumir a minha vida sem deixar que ela se consuma a ela mesma. E, ainda, com o desejo de ter todos quanto tenho ao redor de mim.
Passei uma noite em claro a dançar com os amigos, um almoço de família brilhante e uma tarde cinematográfica ao som dos Abba. É caso para dizer Mamma Mia! E recebi a minha primeira proposta de emprego naquela loja que já nas férias me tinha dado o prazer de me iniciar no mercado de trabalho. Coincidência? Sorte? Macumba? Seja o que quiser quem vê. Para mim basta que saiba bem. É só mais um. E que bom que este foi!

Levitando sobre um espaço prestes a implodir

Fechando-se porta atrás de porta, confiança atrás de confiança, nada nos resta a não ser levitar. Percebemos que cada vez mais coisas têm um duplo significado e uma interpretação alternativa que nos induz no erro de aceitar as mesmas opiniões de sempre, confusas e, por si mesmas, desorientadas. Levitamos, mas o contacto inevitável, ainda que breve, com o solo pode ser doloroso e levar-nos, ainda mais, ao cúmulo da reflexão, quando se pensa sobre o que se deve ou não pensar.
E que dizer dos momentos em que não podemos firmar a nossa posição porque não temos suporte? Que acrescentar das alturas em que a vertigem de não poder falar é mais forte do que a presunção de o poder fazer sempre? E se as acções não bastarem para isto corrigir?
Não bastam. E aí levita-se, a fuga suprema de quem não pode voar.

Matrioskas

Carolina Patrocínio disse: " O que mais gosto em mim é a auto-estima". Que fique claro que os pais merecem todo o mérito por terem filhas que se destacam pela sua beleza. No entanto, cedo se percebe que declarações como estas são como o brilho das supernovas: é o mais forte mas é o que se extingue mais rápido. Por isso, e porque gostaria de poder ver alguém com tanto potencial (porque tem 20 anos tem, inevitavelmente, muito potencial) nos ecrãs e nas passerelles aconselho à desconstrução desta boneca russa de palavras que está dentro de outra que, por sua vez, se encontra no interior de uma terceira. Narciso foi assim e caiu no poço. Podia ter sido assim e não ter caído caso, na última espreitadela, se lembrasse que já estava a exagerar.

A guitarra

A minha última aquisição foi uma guitarra. O primeiro presente que eu mesmo me ofereci com o meu primeiro salário. E, diga-se de passagem, dói-me os dedos enquanto escrevo isto. A sensação de estar sentado ao piano com uma guitarra no colo e poder alternar os dois instrumentos fazendo de mim o único elemento que os une e que, simultaneamente, os separa nas suas idiossincrasias é fantástica. Talvez nasçam em mim outro tipo de talentos...

Um pequeno passo para Saylor um grande passo para Santos



Acompanho, como é óbvio, o website do Steven Saylor, mantendo-me actualizado sobre tudo o que o rodeia. Por isso foi com enorme contentamento que pude constatar a presença de uma foto minha na companhia do referido autor na primeira página do seu site www.stevensaylor.com. Como a próxima actualização irá, com certeza e por fruto da necessidade, retirar-me este pequeno momento de fama, copio para este post a imagem que lá se apresenta. Mais uma vez, obrigado Steven.

Steven Saylor


Sexta-feira decidi, na primeira hora do dia, viajar para Lisboa no Alfa das 7.50. Esperava-me um almoço de negócios, como mais tarde viria a ser chamado por aquele que encetou o convite: Steven Saylor. Sim, posso congratular-me pelo facto do meu almoço ter sido pago por um dos escritores mais talentosos à face da Terra. Ou posso congratular-me pelo facto de ter tido a oportunidade de conversar com ele durante horas a fio sobre aquilo de que ambos mais gostamos. Há algo no Steven que faz com que a timidez que ele alega se transforme em conversas amáveis e descomprometidas e, calculo, o amor aos livros tem um papel fundamental nesse processo. Afinal, a pequena multidão de leitores que esteve presente na Bertrand Chiado, já por si de uma beleza incalculável, é o principal indicador da quantidade de seguidores que Gordiano tem.
A única foram de vos expressar o prazer que senti ao ter na minha presença e a dedicar-me tanta atenção alguém tão estimado por mim é fazer-vos imaginar que estão no meu papel, ou seja, perante alguém com quem sonharam estar um dia. E, como prova do meu apreço e da minha pequena participação na “Triumph Tour”, eis a fotografia . Obrigado, Steven.

Verão

O Verão está aí. Chegou de uma forma tão premente quanto o permanente incumprimento da Papiro Editora para comigo ou a minha iniciação no mundo do trabalho. A Gamestop é, por isso, a segunda profissão que abraço, sendo a literatura a primeira e, espero eu, a enfermagem a terceira.
No futuro se poderá assistir a uma das maiores vergonhas que o nosso país oferece que é a renúncia diante da necessidade. Daí a insegurança que o meu curso oferece. E o futuro também a nós pertence.

Futebol intelectual

Maldita intelectualidade! Todos sabem que o país enfrenta problema de enormes dimensões ilustrados perfeitamente pelas greves que atrasam o seu desenvolvimento e impede o desenrolar das vidas comuns. Perante tal cenário, os portugueses refugiam-se no futebol. E que mal tem isso? Pergunto-o, porque vejo que a selecção é, além de um passaporte para a promoção do turismo, em termos pragmáticos, um elevador da auto-estima dos portugueses que, uma vez campeões europeus, se sentiram mais motivados. E agora que a intelectualidade de alguns, por muito verdadeira que seja, tente apagar isto das intenções deste povo quente.

ENEE Ericeira 2008

Mais um ano, mais um ENEE. É assim que se resume a vida anual dos estudantes de Enfermagem. Quando é perguntado quantos anos demora o curso poder-se-ia até responder: “Quatro ENEE’s, sensivelmente”. E é verdade. Se há pedra basilar no curso a par dos princípios que regem a nossa profissão é o ENEE. Ninguém vê, mas toda a gente sabe; todos bebem, mas nem todos cambaleiam; alguns cambaleiam, mas desses nem todos caem. No fundo todos se apaixonam por aquele que será o festival mais familiar do país, onde só precisamos de gritar o nome da terra de proveniência. O resto já quase toda a gente sabe…

O casamento

Ontem, dia 18 de Maio de 2008, casou a minha prima, com quem brinquei anos e anos em pequeno, com estabeleci laços e também as normais rivalidades típicas da infância. È um pouco estranho vê-la dar este passo, pois ele torna-me no último reduto dos solteiros da família nesta geração. Mais cedo ou mais tarde, dada a diferença de idade para a geração seguinte, eu serei, provavelmente, o próximo.
O casamento foi uma experiência brilhante. Muita música, muita dança, muita alegria fez dele um dos melhores, senão o melhor casamento em que já estive presente. Por isso, comentei que estas festas, que tanto prazer nos dão e das quais eu nunca quero sair, deviam ser como os casamentos de algumas etnias: durariam semanas.
Hoje, extenuado pelos movimentos a que todas as músicas mexidas me impulsionaram, recordo com imenso prazer o dia de ontem.
Aproveito para enviar as maiores felicidades à Rafaela e ao Daniel, o casal que nos proporcionou e, mais do que ninguém, viveu a festa com intensidade.
Muitos beijinhos e parabéns, por terem casado e por serem quem são!

O caminho

Acabo de ler um e-mail de alguém que prezo que contém uma opinião em relação ao meu romance Aldeia de Luz. São críticas fortes e específicas dirigidas a personagens, condução da narrativa, entre outros. Como não podia deixar de ser, na minha noção optimista da questão, servem-me de incentivo e conselho para o desenvolvimento da minha escrita e, acima de tudo, para a forma como guio as histórias que tenho o prazer de criar. Embora sejam algo cruas, estas críticas, servindo de íman para a realidade, permitem uma noção mais consciente daquilo que é a verdadeira excelência e, se possível, de como esta há-de ser atingida.

Um prato que se serve frio

Meses depois, a revelação do texto anunciado:

Agora que há história para contar seria desleal relatá-la. Resta-me este pequeno post para esvaziar aquilo que podia ser esvaziado com dois punhos na parede. Não o faço porque os meus punhos merecem melhor sorte e a causa não merece a sua dor.
Don Corleone, após lhe ter sido morto o filho mais velho, fez a paz com as outras famílias sicilianas que controlavam o submundo de Nova Iorque. O seu consiglieri que esperava uma retaliação vingativa contra os culpados, membros de algumas dessas famílias, ficou estupefacto. O líder disse-lhe que Michael, o seu filho mais novo, tinha de voltar são e salvo da Sicília onde se tinha escondido. Para isso era necessário um requisito indispensável: paz. Sem paz, Michael seria presa fácil. Com Michael em segurança, aí sim, tratariam da vendetta.
Em suma, Don Corleone precisava dos homens que tinham morto o seu filho. Quando isso deixasse de acontecer, que Deus protegesse as suas almas…
Fernando Miguel Santos
Viseu, 1 de Fevereiro de 2008

E fez-se luz...

Há um processo mental que gosto de construir com quem lê aquilo que escrevo. É um processo revelador, algo intimista, que mostra aquilo que quero dizer de uma forma mais ou menos velada, como se eu não pudesse – e às vezes não devo, apesar de poder – referir-me ao assunto directamente.
É isso que faço quando guio a imaginação de alguém, para que nomes, pessoas, presenças, não adulterem o objectivo ou a conclusão a que quero levar a quem me lê e quem me ouve.

Eis que o faço também agora:

Imaginem-se dentro de um quarto escuro. Sabem, de memória, a disposição de tudo o que está no quarto, o sítio das mobílias, as arestas das paredes… Já houve luz neste quarto e durante tempo suficiente para se poder, agora, reconfigurar mentalmente tudo o que foi engolido pela escuridão. É isto dia após dia, sabendo que há uma luz que aparece, uma vez por outra, em locais diferentes. Antes, todos tinham luz, mas foram-se apagando gradualmente, como se um tivesse de ser melhor que o outro. Tentaram levar a sua luz alto, o que por si só não é censurável. Mas quando uma luz é esforçada por motivos que não são os mais correctos tem tendência a fundir. E o quarto ficou escuro…
Um dia podem sair. Houve mais, há-os quase regularmente, e a vossa disposição é sempre boa. Há mais quartos, portanto, e com mais luz, mas é mais raro poder estar neles. Nesse dia, podem sair. Viajam, com memória na máquina fotográfica e no dedo que carrega na tecla para escrever e na mão que pega na caneta e na cabeça que grava para rever… E na voz, sobretudo na voz, que grita inaudível que quer mais luz do que aquela que lhe é dada a ver diariamente.
Chegam. Um novo quarto, mas por tempo limitado. Um monte de conversas novas, uma exacerbação de luz espectacular, uma visão que, se fosse possível gravar seria o filme de sempre. Não o maior de sempre, mas sim o de sempre. Não um filme, mas sim o filme.
O quarto mostra-se. Gente que brilha encontra-se sentada nele. Um aqui, outros ali, todos para o mesmo. Luz.

Foi assim, para mim, em Vila Real. Ninguém me conhecia verdadeiramente, mas senti-me bem. Afinal é fácil. Basta carregar no interruptor. Mas porque não fazem todos isto diariamente. Eu, por mim, acordo e digo:

- Faça-se luz!

Sobre patins

O Europeu de Show e Precisão de 2007, no Porto (aquele mesmo europeu de patinagem de que ainda tanto falo) deixou algumas lembranças que um ano mais tarde consegui manter. Continuo a falar com alguns atletas que, ao lembrarem o Europeu da Alemanha que se aproxima, despertaram em mim um desejo de os visitar, de ver aquelas caras de novo, de assistir ao ascender de um submundo que felizmente o é, porque se não fosse todo o sentimento que o envolve poder-se-ia perder...
Por enquanto, fico-me pelo desejo de grande sucesso para esses amigos instantâneos como as Polaroid, por serem de grande qualidade, mas que nunca acabam, ao contrário destas máquinas.
Que se lembrem que, antes da competição está o riso e antes da medalha está a diversão. Pensando assim, o regresso com a vitória no bolso talvez se torne mais fácil.

Fujo logo existo

É quando nascem as questões que nós notamos que elas existem, embora já saibamos, de antemão, que elas estão ali.
Desde há alguns anos a esta parte tenho vindo a manifestar o meu desagrado contra as opiniões que não divergem, contra os rebanhos que se criam entre as pessoas, contra aqueles que optam irreflectidamente só porque o do lado optou assim.
É nesta altura que sinto, mais do que nunca, que muito pouca gente percebe isso. Limitação ou não, querem fazer crer que nada as preocupa e levam aquele tipo de vida que todos nós censuramos mas à qual a maior parte cede.
Sinto que cada vez menos gente entende o que quero dizer. O meu tom jocoso e as minhas brincadeiras cada vez são menos tolerados. Há mais olhares transviados, mais sensações de hipocrisia latente, mais desvios inconsequentes, mais tentativas de molde…
Às vezes penso do que seria de mim sem este ego, aquele que todos conhecem. Sem aquela forma de enfrentar as coisas disposta a combater, sempre. Aliás, disposta a fazer valer convicções das quais não prescindo.
Tendo a encarar isto com alguma presunção. Entendo-o como um sinal de afastamento do rebanho. Talvez tenha chegado a hora de tentarem iludir-me que o caminho melhor é ao lado dos outros membros, obedecendo ao ladrar do cão pastor, tendo de partilhar as mesmas ideias, os mesmos comportamentos. Ter os mesmos gostos, ver o mesmo quando se olha…
E, por outro lado, sinto a admiração de algumas pessoas ser cada vez mais intensa. Pessoas que conheci de outra forma, outras que estão longe, até fora de Portugal, expressarem conhecimentos de mim que não sabia ser possível terem. Vejo que admitem erros, admitem falhas, sem procederem àqueles olhares mesquinhos…
E aqueles que sempre aqui estiveram, que criticam quando lhes compete e se aplica, que levam as minhas críticas nas mesmas circunstâncias, mas que acompanham. Aqueles que se privam para eu ter e me levam a desejar fazer o mesmo. Aqueles que não precisam de falar para eu ouvir e para os quais basta um olhar meu para fazerem a pergunta certa. São menos, mas mesmo assim não são poucos.
Admito alguns enganos. Fui, até, ingénuo em algumas esperanças, fruto do optimismo. A avaliação correcta do carácter já a tinha feito, o desvio, ou a percepção deste, é que esperava que não se traduzisse na realidade.
Nada lamento, contudo. Tenho a noção que é assim que se aprende. E quando eu chegar lá, onde quero, talvez o rebanho já cá não esteja e não possa, também, aprender.

Chuva de Primavera: o mensageiro real

A Primavera começou com chuva. Quem ler isto vai pensar que, como não tenho mais nada que fazer, escrevo sobre o tempo assim como as pessoas fazem com as conversas cujas engrenagens rangem num limbo de silêncio.
A verdade é que, realmente, a Primavera não começou com o despontar de flores, as aflições dos pólenes em voar para longe, nem a presença de andorinhas irrequietas. Começou com chuva.
O chão está molhado lá fora e eu, eu preferia ficar aqui a ver o que quisesse a fazer o que quisesse, a escrever o que me apetecesse. Mas tenho de ir para a Universidade, quanto mais não seja para marcar presença quando muitos dos professores mais não fazem do que isso: marcar presença lendo, coisa que eu poderia fazer em casa, a ouvir a chuva. E que isto não signifique para ninguém um estado deprimido, pois nunca foi depressão querer manter a roupa seca, querer ter tempo para aquilo que é nosso e não para o resto que nos é impingido ainda que o objectivo seja de comum acordo.
Vou sair, claro, mas a chuva, se me apanhar, vai perceber que não me devia tocar. Não vou sorrir para ela, hoje não. Hoje só sorrio se o sol aparecer.
É Primavera, o sol está a chegar, e este ano escolheu a chuva como mensageiro.

Os nossos «nunca» e os nossos «sempre»

Não há dia em que não estejamos presos. A nossa liberdade consiste em escolher esse tipo de prisão, quando tal nos é proporcionado. Pior são os dias em que vemos que não podemos escolher, a nossa prisão está predestinada por outros e temos de lhe obedecer.
Um dia haverá em que temos necessidade de nos emancipar em frente desse tipo de prisões. E é aí que a nossa força, antes parada e escondida, se mostra em todo o seu fulgor e arrebata os nossos corações da sela em que se encontra.
Encare-se este texto como uma manifestação de um facto e não como uma afirmação de declínio. Não se declina quando se tem noção que para voar mais alto é preciso arrancar num plano horizontal, baixo, para ganhar lanço, espaço e poder necessário aos motores para esse arranque final.
Claro que há pessoa que nunca descolam. Preferem manter-se, não arriscando, no aeroporto das suas vidas, a observar, desde a janela, as sensações que as descolagens alheias lhes proporcionam.
Esses não podem dizer como nós, os que decolam:
- Até amanhã, no ar!

Paris


A minha viagem a Paris, entre 6 e 11 de Março, marca um ponto de viragem. O facto de me ter apercebido que aquela cidade vai de encontro a muito daquilo que sempre esperei de uma, torna-a, aos meus olhos, ainda mais especial do que pretende ser turisticamente.
Daí que tenha nascido em mim uma vontade enorme de procurar conteúdos que a contenham, música, filmes, ou até mesmo de rever alguns que já conhecia. Trata-se, não de um amor à primeira vista, mas de um sentimento consumado por um conhecimento prévio, que culmina na presença dentro dela e acaba por ser assimilado por mim como algo de transcendente. As luzes, os monumentos, as pessoas? Talvez seja só a essência de tudo isso, não a forma.
Quanto a mim, a minha própria essência metamorfoseia-se. Um dia, enquanto ela me espera, surpreendê-la-ei, mas só eu sei como.

And the Oscar goes to...

Fiz questão de ver a cerimónia dos Oscares em directo. Fiz questão, até, de escrever num papel os vencedores de cada categoria. Estive atento às piadas políticas e aos jogos de palavras. Enfim, passei uma noite diferente mas nem por isso estranha. Afinal, aquelas figuras são quase como nossos familiares.
Ao fazer a lista dos vencedores a minha intenção era expô-la aqui, como porta-estandarte da minha veia cinéfila. Por esta altura, já não se justifica, se é que se justificava antes. Mesmo assim, pareceu-me que as questões estéticas estiveram muito presentes na atribuição dos prémios, o que muito me satisfaz (assim como a publicação do meu post Não Amor no Arcadia XXI com o mesmo tema). Daí que, cada vez mais, a sétima arte seja um dos domínios em que gostava de fazer entrar um dos tentáculos do polvo que sonho possuir.

Não amor

Há um estigma ligado ao romantismo. Negá-lo é negar a existência deste último. Se é que podemos dizer que ele existe.
A verdade é que o romantismo é quase tão diletante como a paixão pura e dura. Talvez nem exista como estilo de vida, tratando-se apenas de uma opção temporária. Não podemos nós ser românticos hoje e amanhã não?
É difícil enfrentar essa responsabilidade e cumpri-la de forma satisfatória. Há sempre um jantar, um ramo de flores, um sonho, há sempre algo que se interpõe no caminho fácil de quem não se subjuga às algemas do romance. No dia que elas se encaixam, é como se a chave fosse deitada fora, como se a liberdade estivesse presa por um pé a uma corda. Na outra ponta, uma pedra. E eis a nossa liberdade a sufocar depois de cair nas águas do tempo imenso, presa.
Na verdade, não há um único amor. Cada um tem o seu, e cada pessoa que o partilha tem dele uma versão e uma visão diferentes. Por isso, não pode existir romantismo como identidade unificada. Existe, sim, uma tentativa de corresponder a alguém, de suprir uma necessidade maior que se traduz em algo incorpóreo. Para quê tentar definir o indefinível? Porque não conseguimos deixar o importante indefinido. Simples.
E, de repente, vemos um rosto. Um cheiro e uma voz fazem-lhe companhia. Um corpo aparece. Olhos, lábios, contacto. Juntam-se, entram numa fase de banho-maria, transformam-se, unem-se e criam uma sensação. Apenas essa sensação existe, agora. Já não há indivíduo, há conjunto e parceria. Nem que seja por uma noite. Como os homens não se medem aos palmos, também as sensações não se medem ao minuto. Não há tarifa que as pague.
Então, esse não amor que insiste em catalogar estilos de vida e decidir quem é ou não valioso, cujos olhos são mais do que dois, mas olham todos só numa direcção, esvai-se. Sobra, nessa altura, o livre arbítrio. Temos espaço. Deixamos o não cair. O restante, usamos como nos aprouver, pelo tempo que for, na complacência rara da partilha com um outro e não com a sociedade. Só existem dois ali. Por mim, saio, em silêncio e deixo-os em paz. O seu não amor rejeita o amor que lhes querem impingir. Que assim seja até que a morte (do seu não amor) os separe.


Fernando Miguel Santos
16 de Fevereiro de 2008

Arcadia XXI

Faz parte do dever do convidado agradecer, mesmo que não queira participar. Faz parte do dever de quem convida insistir perante um não. Neste caso não será preciso. Aceito de bom grado o convite que me foi endereçado pelos criadores do projecto que mora em http://www.arcadia21.blogspot.com/. De resto, penso que este projecto tem tanto de aliciante como de promissor. Daí que não haja justificação para o seu desaparecimento.

Pontes

O meu último post afirma que voltaria a referir-me ao estágio, ao hospital, a Viseu. Vou remeter-me ao silêncio a muitas coisas, embora tenha um texto, que um dia postarei, que fala de Don Corleone e se relaciona com o tema.
Viseu é uma cidade bonita, bem mais do que na hora da chegada, agora que a vejo à distância. Tem pessoas que valem o esforço do frio e isso, acima de qualquer coisa, é mais do que aquilo que podemos esperar.
Já em Gaia e já de volta ao rebuliço do comboio, terminei a leitura de "As pontes de Madison County" no Dia dos Namorados. Robert Kincaid e Francesca Johnson viveram um amor verídico que muito poucas vezes se repercute. Conseguiram vivê-lo em quatro dias e suportar a separação durante o resto da vida de Robert, sem poderem trocar uma carta ou um telefonema. E, no fim dos dias de ambos, a sua felicidade continuava ali, dando graças por se terem conhecido e não praguejando contra o infortúnio do afastamente.
Perante isto, não resta muito. Resta, apenas, dar valor ao pequeno, às pequenas coisas.
Quando vemos uma paisagem, basta um raio de luz para a tornar idílica. E a luz por si só é invisível.

Aos seus lugares...

Podia começar por falar do estágio no serviço de Neurocirurgia do São Teotónio, em Viseu. Mas isso era falar de coisas que não interessam a ninguém. As histórias que depois ficarem, só depois, depois de me livrar deste frio e da convivência instável com alguns, essas serão contadas. Até lá...
Agora, falar do II Meeting Internacional da Póvoa de Varzim, no qual exerci funções de voluntário, já é falar de algo que devia interessar a toda a gente. O desporto dá saúde que se torna visível em muitos corpos dos praticantes e dá alegria e dinheiro a quem ganha. A mim apura-me a observação, as histórias que nascem e crescem, o saber dos saberes que é saber observar em vez de ver. Depois, sem este frio, talvez conte o resto... Disto e de muito mais.

Orgulho

A noite nunca é escura de mais para pensar. Os pensamentos podem ser escuros de mais para a noite. Assim como as manhãs cobertas de nevoeir...