A herança impagável






Hoje, faz anos um verdadeiro herói. Não por ser um distinguido atirador contra a Guiné do Ultramar, não por ser um trabalhador nato e um gestor de excelência, nem sequer por ser meu pai, o que me faz amá-lo descomunalmente... É um herói pela pessoa que está lá dentro, pelo coração mole que só não se desfaz em nome do orgulho masculino, mas que esboça sempre as suas reacções; é um herói por ter construído com as suas mãos e o seu saber uma realidade próxima daquilo que todos desejamos.
Dele herdei este vício de não dizer que não a qualquer desafio, o tom elevado com que discuto os meus argumentos, a vontade com que compro pequenas guerras. Mas também foi dele que herdei o poder argumentativo, a garra de ir mais além e a capacidade de me fazer notar, de ter "olho em terra de cegos".
Se nada disto bastasse, terias ainda o meu amor por ti, inabalável, imbatível e inigualável, como só um filho, o primeiro filho homem, pode amar um pai.
Se fosses rei, eu seria o herdeiro do teu trono. Serás sempre o meu rei, por isso, mesmo não havendo trono, herdo de ti a riqueza de carácter digna de linhagens nobres.
Parabéns, um beijo grande e prepara-te! Daqui a cinco anos chegas aos 69!

Ignorantes vs. impacientes




Tenho um colega de trabalho que, em plena preparação para um novo turno, me chamou ignorante com todas as letras, sem qualquer pudor e apenas por eu não ter identificado uma marca de moda nuns brincos, sobre a forma dos quais usei o meu sentido de humor. Na verdade, repetiu-o quando o questionei, temendo eu que a obstrução nasal de que tenho sofrido me estivesse a afectar também a audição.
Não é a primeira vez que, em contexto laboral, ouço palavras descabidas, é certo, mas o que mais me chocou nesta abordagem foi o peso gratuito do insulto numa temática tão pouco consistente. Chegamos, como se vê, a um período de completa desconsideração, onde a crise e os seus sucedâneos são desculpa para a irritabilidade crónica de alguns, somada à frustração de outros.
Os resultados são estes que se fazem sentir. Uma crise sem precedentes, mas que se refere não aos bolsos e às contas bancárias, mas aos comportamentos e à perda de bom senso.
Orgulho-me de ter assassinado parte dos meus hábitos de procrastinação. Só isso explica todas as actividades em que tenho tomado parte, bem como o sucesso que nestas tenho alcançado. Sou, porém, forçado a concluir que nem todos se sentem agradados com isso.
Em boa verdade, poucos serão os verdadeiramente empáticos, o que me preocupa dado o facto da minha profissão ter a empatia como um dos pilares da sua existência.
Para quem trabalha de sol a sol e ainda acumula funções, sem que tal surta frutos que não sejam os monetários correspondentes à perda de qualidade de vida, não será fácil ver o colega do lado ganhar motas com poemas, lançar livros, ser convidado a apresentar eventos, ter uma actividade cultural activa e reconhecida nos meios em questão...
Descansem! Tudo isto acontece sem recorrer a fórmulas mágicas. É apenas fruto de dedicação e trabalho. Um trabalho que vai mais além e não se limita à repetição das mesmas funções incessantemente até ao (quase) inevitável automatismo irracional.
É resultado da dedicação de anos, de estudo, da observação do comportamento dos que se envolvem e fazem com que outros se envolvam. Deve-se a uma impaciência crónica. Por isso, deixem de ser pacientes e mexam-se.
No Brasil, a impaciência deu lugar a revoltas inimagináveis. Um país de economia emergente, mas que sai à rua para reivindicar os seus direitos e apresentar as suas convicções perante as assimetrias sociais, os discursos vazios da corrupção e a demagogia política.
Serão eles ignorantes? Não. São impacientes, porque esta é uma característica dos que não se conformam.
Afinal, diz o ditado que "quem não se sente..."

As bestas




A vida é bonita. Tem as suas dificuldades, imensas vicissitudes, problemas a resolver, mas também tem a beleza do sentir, do amar, o prazer, as palavras, as pessoas que nos fazem felizes. Tem a felicidade, como estado efémero que, por isso, se torna tão procurada e nos faz prosseguir como a torrente de um rio.
Contudo, o quotidiano tem trazido até mim mais uma parecença com os primórdios, o renascimento de um Éden pouco idílico: a existência das bestas.
Se outrora as bestas se devoravam entre si e engoliam as presas, agora falam. O veneno é, por isso, mas visível, mais quantificável, não sendo menos letal.
A razão do estado deprimente que este nosso jardim apresenta às bestas se deve. Umas querem dinheiro, outras querem poder, todas praticam a arte do atropelo.
E todas caem. Não é uma verdade duvidosa que, mais cedo ou mais tarde, o jardim se oferece para resolver estas existências.
Hoje temos bestas que minam a reputação do próximo, temos bestam que chefiam em vez de liderarem, temos bestas que mimetizam as habilidades que não têm, temos bestas que se escondem atrás de troncos de árvore podres.
No fim, isto continua a ser um jardim. Continua a haver a beleza do sentir, o amar, o prazer, as palavras...E as palavras das bestas que nos escusaremos a ouvir e nos esforçaremos por negar, mesmo que isso lhes expluda a cabeça de orgulho ferido.


Orgulho

A noite nunca é escura de mais para pensar. Os pensamentos podem ser escuros de mais para a noite. Assim como as manhãs cobertas de nevoeir...