Dom Porto, um caso exemplar




O nosso governo defende, alegadamente, a iniciativa privada. Até aí, nada contra, uma vez que é direito de cada um dos cidadãos poder promover o seu próprio emprego e o de terceiros. No entanto, subverte-se a lógica da intervenção privada na economia nacional quando se preferenciam os grandes grupos económicos.
Decidi, pela injustiça que este retrata, relatar um caso que me fez reflectir acerca de um pequeno pormenor, rodeado de tantos outros.
O restaurante Dom Porto, sito no famigerado Cais de Gaia, fez fama pela sua gastronomia. Em tempos de ouro teve enchentes, ganhou prémios, mas a crise é como o sol e também nasce para todos.
No entanto, a crise é, por vezes, criada por alguns, vivida por muitos e, pasme-se, usufruída até por uns poucos. Daí que as decisões tomadas em sede governativa não tenham amiúde a consciência do que se passa no plano social, no rés-do-cão do país.
E, então, para auxiliar um meio em perigo e para revitalizar a restauração, um dos sectores para onde tende o know-how nacional, o que faz o nosso governo? Aumenta o IVA.
Ora, pode-se argumentar que fazer refeições fora de casa é luxuoso, que pode ser facilmente contornado e tudo isso é legítimo. Mas, na verdade, não são os clientes que suportam esta diferença de impostos.
Por detrás da imagem de um restaurante, também estão pessoas que comem, que pagam luz, água e telefone e que o fazem tanto em sua casa como no restaurante. Por detrás de qualquer negócio está alguém que se rege pelo princípio por que todos nos regemos: ganhar dinheiro, para poder ter dinheiro e poder usar esse dinheiro para pagar contas e investir.
Eis que chega o governo e diz que a tributação de valor acrescentado aumenta drasticamente. Os proprietários defendem-se mantendo os preços e suportando a brutal diferença. Os clientes, por sua vez, desaparecem. Estão inundados de notícias sobre o aumento dos preços da restauração e evitam-na como se de uma doença contagiosa se tratasse.
No Dom Porto é também assim, com uma pequena diferença: lá, dói mais. Porquê? Porque o que nos servem é tão bem criado e tão cuidado que não há forma de não nos sentirmos agradecidos e ainda pagarmos no fim com um sorriso nos lábios. Aliás, de bom grado deveríamos pagar também a diferença do IVA, mas eles preferem suportá-la por nós e deixar-nos abandonados aos prazeres da língua.
Dói mais porque o melhor dos bifes folhados, o bacalhau com broa, o polvo terno e suculento, a posta macia, as gambas ao alho, enfim, os segredos que emanam daquela cozinha deveriam vencer qualquer adversidade.
Vencem o cepticismo do nosso palato, vencem as contingências típicas do pagamento, mas podem não vencer as atrocidades que o nosso governo pratica.
E hoje, mais do que nunca, precisamos de lugares como o Dom Porto, para que o nosso ânimo, que ainda não é tributado, possa manter-se em boa forma.


Sem gasóleo no aniversário





Há histórias que são impagáveis. Ao fazer vinte e seis anos, percorro a minha memória com mais calma do que amiúde se faz e revejo alguns momentos passados entre amigos. Que livros poderiam nascer de memórias tão boas!
Não pensem que deitei alguma dessas gavetas fora. Apesar de existirem amigos diferentes, relações diversas entre as pessoas e até uma certa hierarquia nas amizades por uns serem mais próximos, nada é desperdício. Todos os momentos são parte integrante do caminho que me trouxe até aqui.
Ontem, sem querer, nasceu mais uma história para contar. Bastou uma distração no caminho, mais trinta quilómetros do que se devia e eis que ficamos sem gasóleo!
Linda prenda de anos...
Fica a Filipa no carro a tratar de colocar o triângulo e eu, o aniversariante, largo em corrida pelos dois quilómetros que nos separavam da estação de serviço da Mealhada.
A uns escassos trezentos metros um carro salva-me. Um casal e um cão, desconhecidos. Entro logo no automóvel, sem hesitar, após a corrida sobre sol intenso. Resolvo o assunto do combustível com os responsáveis da bomba e volto à corrida, desta feita com cinco litros de gasóleo dentro de um recipiente dissimulado num saco de jornais. Preocupado com a possível multa sou abordado por outro carro, logo à saída da estação de serviço. A GNR!
Primeiro, faço um ar de desilusão, mas logo começo a rir-me. Que aventura!
Confirmo aos agentes a história da Filipa, com quem já tinham falado, e eles aconselham-me a ter cuidado ao ir pela berma. Agradeço, pensando na multa de que me livrei, e continuo.
Depois de mais uma corrida, abasteço o carro e ele não pega. Tento outra e outra vez e nada. Há que telefonar à assistência em viagem.
A companhia de seguros engana-se a transmitir as informações ao táxi e ao reboque e eles procuram-me na A1, sem sucesso durante mais de uma hora. Por fim, contactam-me e quando o reboque chega até ao local onde estávamos estou a falar com o taxista ao telefone. Diz que eu tenho um Renault preto e eu tenho um Hyundai cinzento; diz que eu estou no quilómetro 216 e eu no 206; afirma categoricamente que eu estou no sentido Sul-Norte e eu corrijo, sem ele aceitar, que estou no sentido inverso.
Posteriormente, o taxista alucinado tenta culpar-me da sua incompetência e das informações erróneas da companhia e trata-me mal. Exalto-me, digo-lhe com todas as letras para não me falar assim, grito com ele e mais tarde, tenho de o aturar durante mais de quarenta quilómetros a conduzir conforme nem um inexperiente deve.
No fim da viagem, revejo os amigos da universidade, recordo momentos como os que acima citei e ataco o leitão que me espera há quase três horas. E estou feliz! Muito feliz ao lado dos meus amigos e da mulher que amo.
Citando o Simão Vela, num desejo para o futuro: "que nunca te falte o combustível noutras ocasiões, apenas no carro". Rimo-nos e isso dá-me a certeza de que o combustível da minha vida são as pessoas de quem gosto, que gostam de mim e com quem partilhei momentos inolvidáveis!
Obrigado a todos, perdoem algum esquecimento e sorriam! Guardar-vos-ei sempre comigo!


O meu acidente




A sensação de impotência, quase como se fosse a conduzir uma mota feita de sabão graças ao óleo das estradas, a dor do impacto e as dores de vários dias que se seguem (e ainda se mantêm), as feridas de abrasão feitas pelo deslizar desprotegido no alcatrão... Consequências de quem anda à chuva e, neste caso, não se molha mas cai.
Tudo se passa num milésimo de segundo. O carro que me precede talvez nem se aperceba do erro que comete. E eu caio.
Caio em plena cidade do Porto e quem pára para me ajudar? Um brasileiro preto. Perguntou-me tudo o que devia ter perguntado, esperou que me recompusesse e tentou reconfortar-me. Ainda me ajudou a erguer a mota e viu-me as feridas. Depois, esperou que eu telefonasse a alguém e deixou-me. Nesse dia, talvez tenha chegado atrasado ao trabalho.
Não sou de fazer contas ao que se passa depois, mas esperava contactos de outras pessoas. Os "inevitáveis" fizeram-no, duma forma ou doutra, mas alguns deixaram passar ao lado. Talvez seja por ninguém lhes ter contado, espero...
Escrevo isto ainda com dores, embora já me levante da cama com mais destreza. O Zaldiar ajuda a aguentar estes dias.
Na cabeça lateja o desconforto de não ter posição para o meu corpo e as frases daqueles que me dizem que as duas rodas não são para mim.
É normal cair. Aliás, neste texto, cair é um dos poucos factos normais relatados. Quem anda de mota cai e ganha experiência. Assim também acontece nas bicicletas.
Valha-nos isso e...o apoio de quem está ao nosso lado.


A Scooter Literária




Sábado, após uma noite de serviço, a minha Besbi 125 marcou presença na Scooter Parade, a maior concentração de scooters do país, transportando-me e à Filipa.
Na semana em que atingiu os 2000 kms, soube-me bem saber que há várias pessoas (mais de quatrocentas, pelo menos) que partilham do prazer de viajar neste veículo tão divertido.
É também com prazer que recordo a forma como a Besbi chegou até mim e que faz dela a única Scooter Literária do Mundo! Sim, a Besbi teve o preço de um poema. Um poema escrito por mim que, após votação quase unânime dos professores do ginásio onde os poemas foram a concurso, se tornou o vencedor do primeiro prémio.
Como é libertador não ter de me cingir aos horários do metro, às agruras do trânsito e dos lugares de estacionamento... Como é refrescante sentir a liberdade na cara (às vezes ao ponto de nos enregelar) e ir descobrindo, sempre com extrema atenção, a maneira de pensar dos outros condutores, praticar a arte da adivinhação em relação ao que os outros pretendem e seguir até ao destino...
Com o número de inscrição 276, a Besbi não se envergonhou ao lado de todas as Vespas, Lambrettas, Maxi Scooters... Tem a sua beleza e a sua performance que nem precisa de ser comparada. Gostou, por certo, do convívio com estas no agradável passeio pela cidade, como eu gostei de sentir que as pessoas com um objectivo em comum são, afinal, capazes de tudo.
Talvez até se tenha sentido orgulhosa. Afinal, era a Scooter Literária, um título que a acompanhará sempre e que fará dela, aos olhos do dono, o ex-líbris dos veículos.


Política e fraqueza




Aproximam-se as eleições autárquicas mais estranhas da história do nosso país. Talvez seja porque os candidatos corruptos continuam a insistir, talvez seja porque o tribunal constitucional decidiu a más horas o que seria feito dos candidatos " repetentes", talvez seja da conjuntura.
O certo é que nunca nada foi tão confuso nas eleições do poder local, as mais precisas na mente dos eleitores. Afinal, conhecem-se os candidatos, sabe-se do seu trabalho em prol das freguesias e dos municípios e não há aparelho partidário que vença a força do conhecimento.
A culpa é da fraqueza de todos. A forma como tratamos os políticos, deixando-os ficar com os lugares que deviam ser de alguém que promovesse a cidadania activa e de qualidade, é a origem da classe política que nos representa.
Tecnocratas uns, imbecis outros, levam a sua vida à nossa custa e nós a nossa à sua mercê e eis o resultado.
Compreende-se que o peso não é igual dos dois lados da balança, que a corda pode partir do lado mais frágil, mas muitos pesos de poucos quilos pesam tanto (ou mais!) do que um peso com vários quilos.
Começa em cada um e eu, reivindicativo por natureza e resmungados por adaptação, também fraquejo. Hoje, mesmo hoje, isso aconteceu.
No entanto, a aprendizagem só o é se se der de uma forma contínua. Tudo se aprende quando se quer aprender. O importante é não repetir os mesmos erros.
Caso contrário, lá estarão sempre os mesmos a usufruir do prazer de servir o país como se o país fosse quem os deve servir.
Amanhã, terá de deixar de ser assim...


A herança impagável






Hoje, faz anos um verdadeiro herói. Não por ser um distinguido atirador contra a Guiné do Ultramar, não por ser um trabalhador nato e um gestor de excelência, nem sequer por ser meu pai, o que me faz amá-lo descomunalmente... É um herói pela pessoa que está lá dentro, pelo coração mole que só não se desfaz em nome do orgulho masculino, mas que esboça sempre as suas reacções; é um herói por ter construído com as suas mãos e o seu saber uma realidade próxima daquilo que todos desejamos.
Dele herdei este vício de não dizer que não a qualquer desafio, o tom elevado com que discuto os meus argumentos, a vontade com que compro pequenas guerras. Mas também foi dele que herdei o poder argumentativo, a garra de ir mais além e a capacidade de me fazer notar, de ter "olho em terra de cegos".
Se nada disto bastasse, terias ainda o meu amor por ti, inabalável, imbatível e inigualável, como só um filho, o primeiro filho homem, pode amar um pai.
Se fosses rei, eu seria o herdeiro do teu trono. Serás sempre o meu rei, por isso, mesmo não havendo trono, herdo de ti a riqueza de carácter digna de linhagens nobres.
Parabéns, um beijo grande e prepara-te! Daqui a cinco anos chegas aos 69!

Ignorantes vs. impacientes




Tenho um colega de trabalho que, em plena preparação para um novo turno, me chamou ignorante com todas as letras, sem qualquer pudor e apenas por eu não ter identificado uma marca de moda nuns brincos, sobre a forma dos quais usei o meu sentido de humor. Na verdade, repetiu-o quando o questionei, temendo eu que a obstrução nasal de que tenho sofrido me estivesse a afectar também a audição.
Não é a primeira vez que, em contexto laboral, ouço palavras descabidas, é certo, mas o que mais me chocou nesta abordagem foi o peso gratuito do insulto numa temática tão pouco consistente. Chegamos, como se vê, a um período de completa desconsideração, onde a crise e os seus sucedâneos são desculpa para a irritabilidade crónica de alguns, somada à frustração de outros.
Os resultados são estes que se fazem sentir. Uma crise sem precedentes, mas que se refere não aos bolsos e às contas bancárias, mas aos comportamentos e à perda de bom senso.
Orgulho-me de ter assassinado parte dos meus hábitos de procrastinação. Só isso explica todas as actividades em que tenho tomado parte, bem como o sucesso que nestas tenho alcançado. Sou, porém, forçado a concluir que nem todos se sentem agradados com isso.
Em boa verdade, poucos serão os verdadeiramente empáticos, o que me preocupa dado o facto da minha profissão ter a empatia como um dos pilares da sua existência.
Para quem trabalha de sol a sol e ainda acumula funções, sem que tal surta frutos que não sejam os monetários correspondentes à perda de qualidade de vida, não será fácil ver o colega do lado ganhar motas com poemas, lançar livros, ser convidado a apresentar eventos, ter uma actividade cultural activa e reconhecida nos meios em questão...
Descansem! Tudo isto acontece sem recorrer a fórmulas mágicas. É apenas fruto de dedicação e trabalho. Um trabalho que vai mais além e não se limita à repetição das mesmas funções incessantemente até ao (quase) inevitável automatismo irracional.
É resultado da dedicação de anos, de estudo, da observação do comportamento dos que se envolvem e fazem com que outros se envolvam. Deve-se a uma impaciência crónica. Por isso, deixem de ser pacientes e mexam-se.
No Brasil, a impaciência deu lugar a revoltas inimagináveis. Um país de economia emergente, mas que sai à rua para reivindicar os seus direitos e apresentar as suas convicções perante as assimetrias sociais, os discursos vazios da corrupção e a demagogia política.
Serão eles ignorantes? Não. São impacientes, porque esta é uma característica dos que não se conformam.
Afinal, diz o ditado que "quem não se sente..."

As bestas




A vida é bonita. Tem as suas dificuldades, imensas vicissitudes, problemas a resolver, mas também tem a beleza do sentir, do amar, o prazer, as palavras, as pessoas que nos fazem felizes. Tem a felicidade, como estado efémero que, por isso, se torna tão procurada e nos faz prosseguir como a torrente de um rio.
Contudo, o quotidiano tem trazido até mim mais uma parecença com os primórdios, o renascimento de um Éden pouco idílico: a existência das bestas.
Se outrora as bestas se devoravam entre si e engoliam as presas, agora falam. O veneno é, por isso, mas visível, mais quantificável, não sendo menos letal.
A razão do estado deprimente que este nosso jardim apresenta às bestas se deve. Umas querem dinheiro, outras querem poder, todas praticam a arte do atropelo.
E todas caem. Não é uma verdade duvidosa que, mais cedo ou mais tarde, o jardim se oferece para resolver estas existências.
Hoje temos bestas que minam a reputação do próximo, temos bestam que chefiam em vez de liderarem, temos bestas que mimetizam as habilidades que não têm, temos bestas que se escondem atrás de troncos de árvore podres.
No fim, isto continua a ser um jardim. Continua a haver a beleza do sentir, o amar, o prazer, as palavras...E as palavras das bestas que nos escusaremos a ouvir e nos esforçaremos por negar, mesmo que isso lhes expluda a cabeça de orgulho ferido.


O melhor ano




Há imensas razões para festejar a vida. Os sucessos, as vicissitudes vencidas, os problemas ultrapassados... Os porquês é que, por norma, ficam atrás dos resultados, escondidos como se fossem "a alma do negócio". Porém, há bem pouco tempo, um amigo disse-me que a razão dos meus sucessos recentes, como seja a mão cheia de concursos que venci a escrever, se deve a uma mudança de atitude e à estabilidade emocional que tenho. Se da mudança de atitude falo muitas vezes, eis que dedico todo este texto à estabilidade emocional que tu, Filipa Cardoso, me proporcionas.
Fez ontem um ano que, entre apresentações quase fortuitas, acabei por reconhecer que éramos namorados. Sem um pedido, facto que não me esquecerei de redimir no próximo passo, acabámos por nos unir numa relação que já era uma inevitabilidade das minhas intenções há vários meses.
Entraste na minha vida como ninguém, quase calada. Sem espalhafatos ou chamadas de atenção. Tu sempre no teu mundo, eu a tentar perceber o que havia de diferente. Quando descobri a pequena primeira parte, porque o resto vou descobrindo todos os dias que passam, apaixonei-me. E isso mantém-se até agora, numa força que faz de ti o que mais preenche o meu coração e o meus pensamento.
A celebração do nosso primeiro ano de namoro, ainda que adequada às exigências do momento, foi perfeita. Isto porque tivemos tudo o que podíamos desejar. Tivemo-nos um ao outro e isso é, em boa verdade, o que é preciso, o que se quer e o que sobra quando excluímos os pormenores supérfluos.
Não posso deixar de lembrar a primeira vez que pousei a minha cabeça no teu ombro, as vezes em que me assustei por más interpretações do que disseste, as vezes em que chorei à tua frente, a vez em que me impediste de atirar as sapatilhas ao rio (onde foram parar as meias...), a relação que criaste com a minha família, as vitórias que consegui graças aos teus incentivos, as derrotas em que me apoiaste e o amor que ambos dedicamos em todos estes momentos.
Posso ter escrito palavras bonitas noutros tempos, porém são palavras que tiveram outra origem. Nestas coisas que constituem a escrita, o pensar e o sentir andam de braço dado, mas a razão é bem diferente da emoção na hora de avaliar o que se pretende. É por isso que estas palavras se revestem de outro significado. Isto acontece porque antes era estritamente necessário dizer ao mundo o que sentia, como que para provar que tinha algo para sentir, como se os meus sentimentos fossem legitimados pela mostra pública. Agora, estas palavras que acontecem não são necessárias, porque basta-me ter-te e saber daquilo que partilhamos. Não é preciso que ninguém saiba, não há nada a legitimar senão entre nós. Um e o outro somos a verdadeira razão de ser do que criámos.
Por esta razão, isto que escrevo é apenas para contar. Não é para provar, porque isso fazemos diariamente. Não é para dar força, porque essa encontramos no quotidiano. Não é para ganhar apoio, porque bastamos um ao outro. Este texto serve, apenas, para contar e para que outros que não sentem o que sentimos possam ter um pequeno travo deste sabor que há entre nós.
Durante este ano, rápido mas tão preenchido, descobri muito. Fiquei a saber que é possível dar prioridade a alguém que não tem o meu sangue, fiquei a saber que há mais dentro da simplicidade, que há mistério para dar e vender e trocar e agarrar (...), que pode haver uma imensidão de mundos dentro de uma só pessoa. Tu.
Pude descobrir que há alguém que consegue aturar os meus devaneios e que há alguém que consegue provocar em mim uma remissão quase instantânea dos erros que cometo. Nada fica para amanhã. E, assim, soube que há um equilíbrio que pede de mim um esforço maior mas que o merece e que não se limita a exigir sem ceder.
Foi também durante este ano que descobri em ti a pessoa com quem quero partilhar o resto da minha vida, a pessoa com quem quero casar.
Agora, vou terminar. Não sinto que esteja a fechar esta carta de amor, daquelas como já não se escrevem, porque vou continuá-la contigo, escrevendo a nossa história passo a passo, acrescentando pormenores, aventuras, filhos, festas, beijos, choros de tristeza, mais choros de alegria e muito, muito mais.
Sabes que mais?
Amo-te muito!


Benfica




Na época do Benfica tudo trata de expectativas. A desilusão que agora sentem os seus adeptos é proporcional às ambições que tinham e ao que esperavam, fundamentadamente, de uma equipa que lutou como poucas vezes fez ao longo dos últimos anos.
Contudo, é escusado o alarido que se faz em volta das duas derrotas. E quando falo em alarido refiro-me aos insultos que atravessam as redes sociais, às faces cerradas que se encontram nas faces dos trabalhadores e até à influência que, alegadamente, poderia ter no PIB, segundo alguma iluminada estupidez.
Acontece que sou portista e, a meu ver, o Benfica merecia a Liga Europa. No entanto, se o futebol se regesse pela lei do que joga melhor os golos não serviam para nada. O Chelsea marcou mais golos e ganhou. O Benfica teve mais garra, mais vontade, mas também alguma desatenção num momento que lhes custou caro, com falhas de marcação.
Tudo isto, até os erros, são admissíveis. O que não é admissível é que se crie uma nuvem negra de insultos e outras verborreias.
Em primeiro lugar, o facto de existirem adeptos de outros clubes a festejarem os golos do Chelsea. É bonito? Não, mas também não é feio. É, simplesmente, o que é. Em qualquer país civilizado se encontram adeptos que fazem o mesmo aos seus compatriotas e tal não gera tanta exaltação. O futebol é entretenimento e cada um pode ter a sua opinião, exactamente como ir ver um filme e gostar mais do vilão do que do herói. São gostos.
Em segundo lugar, a classificação do Sporting. O que tem que ver a classificação dos verdes e brancos com as derrotas do Benfica? Um facto legitima ou justifica o outro? Então há que abandonar esses devaneios.
Em terceiro lugar, a imparcialidade. Adepto e imparcial são palavras antagónicas. Salvo raros pormenores e louváveis excepções, não é possível julgar se há sentimentos envolvidos. A vida não é justa, todos o sabemos, por isso basta passarmos à frente.
Em quarto lugar, as boas exibições. É verdade que o Benfica foi brilhante, fez uma época que merecia muito mais, mas o que ficará para recordar são os resultados e um ou outro interveniente mais destacado (como Jesus, merecidamente). O resto ficará para os outros.
Em quinto e último lugar. O que se ganha ao insultar os outros adeptos? Nada e isto deveria servir para todos.
Em suma, deve ser duro acabar assim. Como sonhador que sou consigo perceber alguma da dor que sente um treinador e uma equipa que lutam por algo e o perdem desta forma.
Porém, não se faça disso a queda do céu sobre as nossas cabeças. Para o ano há mais e, já agora, que ganhe o Porto.



Uma estação chamada Sucesso




Três de Maio ficará marcado como o dia em que descobri novos cheiros. Chegado ao Olival, procuro um estacionamento e encontro esses aromas florais tão típicos e próprios. Simples, que não coabitam com os pútridos factores olfactivos da cidade dura, proporcionam aquela perspectiva de tudo o que se tem e do nada que se vê no quotidiano.
Dão-me o gozo dos dias, o prazer do sol que volta e o sentimento daquilo que já fiz e do que fica eternamente por fazer.
Ultimamente, como se de flores falássemos, têm chegado até mim os resultados dos vários anos de entrega à literatura. Verdadeiros bouquets de sucessos que começaram no Aldeia de Luz, passaram pelo Dois Maços e pelo Quando o Natal Quiser e agora chegam aos concursos, reconhecimentos mais curtos, mas com o sabor que sempre se sonha.
O primeiro lugar da letra da Marcha de São João da freguesia da Afurada foi o primeiro impulso popular, a veia recheada de vontade, as vozes que entoam o que antes era só a minha voz.
Depois a ideia de um filme, em escassos caracteres, que vence os restantes candidatos e me proporciona a presença no IndieLisboa'13 e uma estadia de luxo na capital.
O mais recente, promovido pelo ginásio que frequento, tinha três bons prémios a entregar. E eis que o meu poema convenceu a equipa do Wellfit a deixar-me ter um verão ao sabor da minha nova scooter. O seu tom creme, a surpresa que por si só constitui e as perspectivas que ela me abre...
A vida corre e leva no seu comboio inexorável chamado Tempo todos, mesmo os que não a desfrutam, mas na dianteira, na primeira carruagem, vão os que tentam, que perseveram, que insistem e que transpiram.
Acabo de confirmar o meu lugar nesse comboio. Tenho bilhete para um lugar onde se sente o cheiro do vapor que se esfuma acima de todos. Não chegarei atrasado graças à Besbi 125, a primeira mota literária de que tenho memória. Não me deixarei distrair nem que sinta o bucólico cheiro de freguesias distantes. Nesse caso, fecharei os olhos até chegar a minha estação de destino chamada Sucesso.


Para o papá... e para a mamã!



Dezanove de Março é, para mim, o dia mais caro a seguir ao Natal. Felizmente.
Faz hoje 44 anos que nasceu a minha mãe, num dia dedicado à pessoa que há vinte e cinco anos lhe semeou a minha existência: o meu pai.
E que palavras posso ter para eles? Eu, que por norma as trato por tu, perco a capacidade de as usar quando o amor é a palavra de ordem. Mas, sem desistir, aqui vai:

Cara Mamã, caro Papá,

Parabéns por este dia, o vosso dia. Vou tentar escrever pouco, não porque as pessoas não
pudessem ler, mas para evitar lágrimas, pois os teclados não se dão bem com
secreções lacrimais.
Sabem que vos agradeço todos os dias? Não é por serem meus pais, porque isso é fruto de uma série de acontecimentos  biológicos, mas por serem aquelas pessoas a quem posso recorrer sempre que necessito. Por serem meus amigos, verdadeiros; por partilharem comigo as vontades de per correr ameias intermináveis nos castelos; por estarem ao meu lado nas vitórias; por me irem buscar ao sítios onde estou quando me sinto derrotado; por me impulsionarem a ser cada vez melhor; por me corrigirem quando persisto no erro; por anteciparem os perigos e, mais do que tudo, por me fazerem sentir protegido, aconchegado e amado.

Sem vocês, pior do que não existir, existiria sem ser.

Com muitos beijos agradecidos do filho que tanto vos ama,

Miguel


O novo Papa e um ovo a cavalo







Não sendo fã de teorias da conspiração, hipocondríaco alimentar nem um pouquinho católico sequer, fiquei bastante indeciso entre escrever sobre a carne de cavalo ou o Papa.
Entretanto, perante a minha dúvidas, os cardeais eleitores elegeram o novo Chefe de Estado do Vaticano (é mais isso que líder religioso) e saiu fumo branco da chaminé da Capela Sistina às 18h06.
Por isso, depois de "habemus papam" comemoremos com um belo bitoque porque nunca a expressão ovo a cavalo foi tão significativa como agora.




Um adeus agradecido, com amor

Foi na noite de segunda, começava ainda o dia 4 de Março de 2013, quando recebi a notícia já esperada. O meu pai, teu filho, lá estava ao teu lado e à espera que eu chegasse para o teu último banho que fiz questão de te dar.
A imagem, apesar de ter pouco tempo, é simultaneamente forte e turva. Segundo quem viu, lavei-te com água e com as minhas lágrimas, irmãs destas que agora afloram por te escrever isto.
Desculpa-me se o faço de uma forma tão pública a alguém como tu, tão cioso da sua privacidade e autonomia, mas o teu funeral mostrou-me que o teu nome era imensamente querido. As flores que te cobrem não deixam sequer ver a pedra tumular.
Sabes do que terei saudades? Além do mimo, dos carinhos e dos momentos que passamos juntos em amena convivência entre avô e neto, sentirei falta até dos momentos em que me irritavas um pouco resmungando sobre a minha barba, criticando as minhas saídas nocturnas, comparando a minha loucura com a tua idoneidade...
Agora que temos as tuas memórias para ler, onde estão reveladas algumas das tuas próprias aventuras loucas, é mais fácil perceber que essa era a tua forma de dar atenção.
Lembrar-me-ei sempre das nossas viagens com os Simples, dos vários "cinco de outubro" em que anunciavas que eu fazia anos no mesmo dia que o grupo, das papas de sarrabulho que eles avidamente comiam e nós evitávamos, das intermináveis horas matinais dos teus cuidados que me iam despertando lentamente...
Poderia escrever uma imensidão de palavras para aliar a estas, pois essa é a melhor forma que tenho de sentir que me liberto dos momentos menos felizes; mostro-as a quem as quiser ler, porque essa é a forma de me sentir aconchegado, quando me lêem. E tudo isto será pouco...
Não te preocupes com as últimas imagens que nos deixaste. A tua verdadeira imagem durou mais de oitenta e cinco anos.
Não te preocupes com a morte, pois só morre quem é esquecido e pude constatar que nunca o serás naquela freguesia, muito menos por nós, que tanto te amamos.
Não te preocupes com o teu nome. Não só o deixaste limpo como o fizeste brilhar e nós sentimos orgulho por poder tê-lo como nosso.
Não te preocupes connosco. Ficamos mais pobres sem ti, mas seremos sempre enriquecidos pelo prazer de te ter tido.
E agora, tu que sempre foste um homem preocupado com a família e outros afazeres, que sempre foste trabalhador e metódico, que sempre foste um patriarca esmerado e um homem de cultura e da cultura, descansa.
Um beijo enorme do teu neto que te chora, mas que sorri por ter aprendido contigo e sentido o teu amor, e que te amará sempre.
Obrigado, vuvu.



So Pitch Bootcamp, Elmer Letterman e a preparação

O que são oportunidades? Eis uma questão que acompanha este acordar. Após a experiência de ontem no So Pitch Bootcamp, em Braga, fica mais próxima a ideia que sempre tive de que oportunidade é tudo, desde que estejamos prontos para isso.
"A sorte é quando a preparação encontra a oportunidade", disse Elmer Letterman, o que nos faz concluir que a oportunidade está à espera da preparação, da nossa preparação, para nos brindar com uma estrela, seja ela qual for.
Por isso, e depois da vitória de ontem no concurso de Escrita para Cinema, a consciência de que o trabalho e a persistência têm de ser a pá e a picareta de quem quer alcançar sempre mais está mesmo aqui dentro, quase a fazer-se mostrar à força.
Por agora resta procurar a oportunidade, esperando que apareça de qualquer dos recantos onde se esconde, e estar preparado para tudo!


Só se ganha no fim






A última semana foi extenuante! Palavras como "campanha", "votos" e "likes" dominaram as minhas conversas. Tudo isto porque a Conception proporcionou a oportunidade de cinco autores apresentarem as suas histórias à apreciação pública, prometendo como prémio a respectiva curta-metragem.
Foi duro, foi cansativo, tirou até horas de sono a quem considera o Facebook apenas mais uma ferramenta.
E sabem uma coisa?
Ganhámos! Juntos ganhámos! Conseguimos angariar mais de 2600 votos numa semana!
Tudo começou Sábado já de tarde e com um atraso de cerca de centena e meia de votos. No fim, o local até onde chegam os persistentes, os que aguentam a pressão, os que nunca desistem - como nós!- ficamos com o prémio e veremos o texto que escrevi, mas que agora pertence a todos os que o empurraram mais além, ser filmado!
Imaginam o que isto vale? E a vossa ajuda? Imaginam que preço tem? Não tem preço, pois é incalculavelmente reconfortante.
De Norte a Sul de Portugal, pelo Mundo fora, da família a perfeitos desconhecidos, todos juntos numa só causa, num caos de votos em catadupa.
Caos e Causas deve-vos o facto de agora ser história cinematográfica. Deve isso fundamentalmente a duas pessoas: à minha mãe Cristina e à minha namorada Filipa, verdadeiras leoas do voto que não se importaram de prescindir dos seus posts e partilhas para dispor o seu mural às minhas necessidades.
Se pudessem, teriam até devorado quem se interpusesse no meu caminho, pois dei com elas em alguns momentos mais focadas no objectivo do que eu! Imaginem!
Por fim, para que não me alongue porque hoje é noite de festa, um imenso obrigado a todos! Não se esqueçam de acompanhar o que aí vem! Se para alguns as vitórias são um fim, para nós são o princípio.
Prometo estar sempre convosco, sem vos apresentar gráficos ou números frios, mas oferecendo-vos sentimentos escritos!


O Papa diz "Adeus"




Nos anais na História, registado como o último Pontífice a resignar, ficará durante muito tempo Bento XVI. Joseph Ratzinger decidiu abandonar a responsabilidade acrescida que é gerir uma instituição tão grande, tão difícil e tão dúbia.
Ocorre a alguns dizer que se deveu a questões políticas. Outros afirmam que tal se proporcionou devido a problemas de consciência. Haverá ainda quem afirme que é pela saúde ou porque Deus o orientou nesse sentido.
Ignorando conclusões e esoterismos como os de Nostradamus e São Malaquias que agora voltaram a estar em voga, apetece-me dizer que este é o momento em que mais admiro o, ainda, Papa Bento XVI.
Se até aqui o achei demasiado conservador, muito embora o seu lado académico sempre tenha sobressaído pela positiva, é no momento em que ele é mais homem e menos pontífice que mais gosto dele.
Deve ser difícil renunciar a algo que se sonhou, pelo que se trabalhou ou até a uma posição que não sendo sonhada é verdadeiramente lisonjeira.
Ratzinger atingiu o topo da carreira na Igreja e quis descer. Será o único ex-Papa de que há memória (os outros foram há demasiados anos para alguém se lembrar) e será um homem da Igreja que, pela força das circunstancias ou pela sua vontade, vira as costas ao cargo de mais poder que há na Terra a seguir ao de Presidente dos Estados Unidos da América (!).
Cabe-nos agora questionar: estará assim tão mal aquilo no Vaticano que até quem manda queira de lá sair?
"Benedicto" sejas, Joseph, pela coragem. E bendito seja aquele que para lá vai.


Problemas ferro e rodoviários: os comboios e o acidente do IC8






O póstumo é algo bem mais profícuo do que o presente. Da mesma forma que os já falecidos eram todos boas pessoas, pelo menos a julgar pelas declarações dos presentes no último adeus, a solução de problemas que já não têm por onde ser resolvidos é obra comum do ser humano.
O acidente do IC8 encaixa neste perfil. Descrever o acidente seria fazer eco das agências noticiosas, bem mais precisas do que este blog nesse tipo de descrições. Já no que toca à reflexão, este blog ficará, porventura, a ganhar.
O piso tinha um defeito já por demais explorado, o autocarro não tinha cintos de segurança e, por fim, a legislação de diferentes países dá indicações divergentes quanto à segurança.
Em primeiro lugar, se queremos operar num país diferente do nosso temos de cooperar com as autoridades do mesmo, ou seja, cumprir a lei que nesse país vigora.
Segundo, os problemas de piso e de segurança devem ser resolvidos antes das viagens.
Terceiro... Não há terceiro. Aliás, se fossem tomadas previdências atempadamente tudo seria simples.
As alegações das inúmeras razões que levaram ao acidente do IC8 e de ambos os comboios em Alfarelos, bem como daquele terceiro que chocou contra uma carrinha de um assaltante de gasóleo em Souzelas apontam para uma só razão que de razão nada tem: o erro humano.
Seja o erro de não corrigir aquilo que tem defeito, o não atentar nas regras de segurança que falam de cintos ou de linhas diferentes para comboios em sentidos opostos ou o risco que decorre de uma paragem numa linha de comboio durante uma fuga à lei há um denominador comum de falha do sistema que nos rodeia.
Entre doidos e irresponsáveis acabam por surgir feridos e mortos. E depois? Depois? Depois de morrerem umas quantas pessoas já se podem resolver os problemas ou enfrentar os flagelos sociais. E assim, a lógica fica de fora da equação.

Imagem: rtp.pt

Procrastinação: um problema maior





Ser um procrastinador está ao alcance de todos. Para quem gostar de se tornar algo cujo nome seja tamanho trava-línguas basta não se esforçar. Afinal, a procrastinação é automática. Podendo ter origem na busca do prazer que Freud apregoava é um óbvio sinal de que colocamos pequenos entraves prazenteiros àquilo que nos desafia. E está por todo o lado...
Ao acordar está naqueles cinco minutos que pedimos a mais; para sair de casa está naquela preguiça de levantar do sofá; para estudar está naquele peso que os livros têm antes de pegarmos neles; para as dietas está naquele último doce; para os fumadores está naquele café que não dispensa o cigarro; para tudo está no "daqui a pouco", no "mais tarde" e no "amanhã começo".
Exposta desta forma, a procrastinação vive em cada um de nós e cabe-nos, como sempre, lutar contra ela. Não se perde o dia por aquele cinco minutos da manhã. Talvez nem seja problemático sair apenas meia hora depois. E começar a dieta amanhã? É grave?
Bem, é só somar. Apenas com estes três exemplos estaríamos atrasados vinte e quatro horas e trinta e cinco minutos. Um atraso substancial numa vida que, todos sabem, tem fim.
Apesar deste conceito de finitude e de senso de urgência, todos temos o vício da modorra, o eterno dilema da indolência.
Tudo isto se deve ao hábito. É na força das rotinas produtivas, a nova designação para o clássico "pôr-se a mexer", que reside o segredo. Como facilmente se conclui, não há segredo. Há apenas um esforço que, se programado paulatinamente, com objectivos curtos e de forma sustentada, dá origem a resultados satisfatórios para cada um e influencia os que nos rodeiam, gerando uma onda de actividade que nunca antes se observou. Prontos para começar? Muito bem, mas tem de ser já!

Imagem: whywesuffer.com

O prazer de uma vitória criativa






O meu post de hoje é dedicado à motivação, à luta, às vitórias.
Uma vitória é, por definição, um objectivo alcançado por entre dificuldades, contratempos e gente derrotista.
Estas particularidades da vida que tantas pessoas impedem de vencer são aquilo que acaba por trazer satisfação a quem persiste.
Orgulho-me de fazer da criatividade parte integrante do meu quotidiano.
Por essa razão, dá-me muito prazer quando alguém toma um passo ou alcança uma concretização que farão o mesmo pela sua vida. Assim foi com a Filipa.
Em primeiro lugar, fazendo o esforço para não deixar transparecer os sentimentos que nutro por ela - oops, já está! - endereço-lhe os meus parabéns pela Licenciatura em Tecnologias da Comunicação Multimédia.
Como se perceberá pelo nome, esta é uma licenciatura que compete a todos aqueles que desejem ter uma vida relacionada intimamente com a produção de conteúdos multimédia, a comunicação que neles está incluída e o conhecimento das técnicas e da aplicação de uma série de competências que permitirão a efectuação dos mesmo com qualidade atestada. Em palavras correntes, baseadas na minha própria observação, são portentos da tecnologia em prol da arte.
Num país como o nosso em que que famílias de plagiadores fazem carreira - note-se a irónica utilização da palavra homónima dessa família...- e vendem o seu enganador produto como se de pães quentes se tratasse, num país que premeia o "desenrascanso" e a falta de profissionalismo, mas também num país que deu alguns dos maiores artistas de sempre ao mundo e que cultivou uma cultura muito além das suas próprias fronteiras - pena que tenha sido há centenas de anos - deposito nesta geração, de que a Filipa faz parte, a confiança num futuro melhor.
Da minha experiência decorrente da prática continuada da exploração do mais íntimo processo criativo que me sustém, pude concluir que este é fruto de uma demorada e trabalhosa sequência de acontecimentos. Da análise da realidade atística do nosso páis, pude concluir que não se pode atestar a qualidade através do filtro economicista das vendas ou dos lucros. A qualidade da generalidade do nosso público, de fraco espírito crítico, leva a que aqueles que não possuem qualquer tipo de mecha criativa possam viver muito bem.
Está nas mãos da geração de artísticas gráficos, músicos, escritores, pintores, mudar esta noção podre dos consumidores de produtos artísticos.
Apenas a qualidade poderá demonstrar que, mesmo os já conhecidos e ainda bem sucedidos engodos, nada têm a oferecer.
E a Filipa tem essa qualidade. A qualidade que aprenderá a vender, que aplicará no seu dia-a-dia e que eu já pude constatar.
Parabéns a todos os que se licenciaram em TCM, aos mais novos profissionais que agora iniciam uma nova etapa e, em particular, à Filipa pelo esforço que dispensou durante os longos e duros anos em que acumulou trabalho e estudo!
Imagem: wallsave.com

Todos podem cozinhar




Este é o lema de um filmes da era moderna da Disney que mais admiro, Ratatouille. Pude comprovar a realidade do mesmo através da minha primeira experiência séria na cozinha. Segundo os presentes à mesa, nove bem contados, tudo estava apetecível e foi, como pude confirmar no final, consumido até ao último pedaço.
Bifes de peru com presunto e salva... Até me cresce a água na boca só de pensar! O mais incrível de tudo é a vontade que me dá de cozinhar, de fazer daquela arte um novo objectivo, um novo hobbie (como se todos os outros fossem poucos), de ler de saber de poder dar a quem nos visita algo trabalhado com afinco pelas nossas mãos e que lhes proporciona um prazer que podemos ver estampado na face.
Houve quem repetisse, nada sobrou a não ser os elogios e, no final, como determinada personagem do supracitado filme, o meu ego emproou-se um pouco. Rápido conclui ser apenas um aprendiz de aprendizes, mas soube, agora por experiência, que todos podem cozinhar.

Nota: a foto é real e retrata os mesmo bifinhos que acima descrevo!

Reclamações





Quando num restaurante a carne chega crua à mesa todos me dizem: "Eu reclamava!". E eu reclamo. Quando numa loja espero mais de uma hora para comprar uma pastilha elástica todos me dizem: "Eu pedia o livro de reclamações!". E eu reclamo. Quando num hotel a cama tem cabelos dos hóspedes anteriores todos me dizem: "Eu vinha logo embora e fazia um escândalo!". E eu reclamo. Quando num bar me servem a bebida errada todos dizem: "Reclama que eles trocam". E eu reclamo. Quando o carro não pega, vai ao mecânico e volta a não pegar todos dizem: "O melhor é levares o carro lá outra vez e reclamares". E eu reclamo. Quando um produto de um hipermercado está marcado a um preço e passa na caixa a um preço mais caro eu reclamo. Quando um funcionário de qualquer estabelecimento me trata mal eu reclamo.
Então porque é que quando um músico toca mal todos me dizem: "Deixa lá!"? É por ser artista? Não pode ser essa a explicação porque, no caso, se toca mal não é artista.
E sabem o que eu faço? Reclamo! Esquisito? Não, trata-se simplesmente de coerência.
Se qualquer produto, do sector primário ao terciário, me desagrada eu reclamo. Seja o sujeito em causa um vendedor, um trolha, um picheleiro, um pintor, um escultor ou um músico.
Agora argumentem que eu na minha vida não enfrento reclamações. Já está? Pois saibam que no hospital o livro é amarelo! Não vai para a ASAE, vai para o Ministério que nos tutela, o da Saúde. Por isso, é ainda mais grave!
E na literatura? Sabem quantas pessoas me dizem, por mês, que não gostam de ler? E eu não as obrigo nem discordo delas porque têm o direito aos seus gostos e opiniões.
Mas eu não cometo erros ortográficos constantes, o que na música corresponderia a várias notas ao lado.
E será que o facto de eu tocar piano, num nível ainda iniciante, é motivo para não poder criticar ou ter de demonstrar mais capacidade do que aqueles que critico? Não, porque eu, mesmo que toque em público, não cobro. E, não cobrando, também não me aventuro a tocar músicas que não sei ou a executar técnicas que desconheço.
Tudo isto significa que vivemos entre a mediocridade onde o básico chega para desempenhar qualquer função. Hoje qualquer um lança um livro, qualquer um fotografa, qualquer um pinta, qualquer um canta, qualquer um toca um instrumento... Mas o tempo é soberano e para a história ficam as lendas. E todos os que se alimentam da mediania perdem-se na passagem do quotidiano.

Orgulho

A noite nunca é escura de mais para pensar. Os pensamentos podem ser escuros de mais para a noite. Assim como as manhãs cobertas de nevoeir...