domingo, 17 de janeiro de 2016

Cultura paga do lado certo

A cultura ser paga é a premissa de que devemos partir. Isto porque a cultura é um bem essencial e uma profissão, pelo que quem a produz e a exerce tem o direito de ver o seu trabalho recompensado. Ninguém consegue comprar um quilo de arroz com uma salva de palmas.
Se o Estado, para a proporcionar ou aproximar do cidadão, escolhe assumir parte dos custos é outra questão que, embora legítima, pertence a outro domínio. 
Partindo deste princípio, chegamos a uma encruzilhada que conheço bem e da qual são vítimas todos aqueles que, no seu ou no superior interesse cultural, pretendam criar algo que seja difundido com sucesso.
Em tempos, burlado por uma editora que ainda por aí se passeia, acabei por aceitar o pagamento dos inalienáveis direitos de autor do meu primeiro livro com os meus próprios exemplares; mais tarde, escrevendo para um estúdio, descobri que esse álbum ficaria numa gaveta à espera de ser resgatado por um inexistente discográfico benemérito ou pela avolumada quantia que o artista não tinha; no teatro amador, vi o director da colectividade pagar centenas de euros em aluguer de guarda-roupa do seu próprio bolso; no teatro profissional, assisti a convites endereçados a associações de pessoas portadoras de deficiência por serem excelentes veículos de promoção mediática; no associativismo, vi sócios salvarem associações no limite, dirigentes comprarem votos com vinho do Porto e políticos varrerem esses problemas para debaixo do gigante tapete da procrastinação. Por último, e não menos chocante, conheci polícias que usam marcas forjadas em empresas inexistentes para dar formação a incautos duma área que não é a sua, com a colaboração duma corja de cúmplices.
É certo que, pelo caminho, conheci muita gente bem sucedida em lugares que, típica e erradamente, são associados à falta de resultados e isso transmite esperança. Nestes casos, tive muita sorte.
Neste meio, como na política, se o mérito não for capaz de ocupar o lugar que é seu por direito, seja por falta de apoio, por ignorância ou estupidez de quem tem poder executivo serão os aventureiros desmiolados a ocupar as ruínas abandonadas daquilo que era um palácio.
A cultura tem de ser acessível, mas paga, valorizada e apoiada pelo consumidor para que o processo criativo seja sustentado na sua mais pura forma e deixemos o caminho do facilitismo lucrativo de fazer mais do mesmo, reiterando fórmulas que nos normalizam e nos transformam num rebanho.
Para isso, é preciso investimento sério sem imperativos imediatistas e é vital deixar de mentir. O engano com que nos convencemos, batendo no peito por fervor altruísta, esconde o lado negro desta viagem onde só importa o destino e o percurso pode ser devassado.


Fernando Miguel Santos
13 de Janeiro de 2016

quinta-feira, 24 de dezembro de 2015

Ainda assim é Natal


Ninguém devia morrer no Natal. 
Natal é momento de enterrar a poeira da tristeza debaixo do tapete do sorriso. 
Natal não não é momento de enterrar quem se ama, nem de com eles abandonar a esperança.
Quando desliguei o telefone, sabia que tinha acabado de assassinar o Natal daquele idoso. Sabia que tinha obrigado aquele pai a dizer à filha, a sua já mais do que adulta sempre eterna menina, que a mãe os tinha deixado.
Natal é boas notícias, é celebração de vida e felicidade, mas através daquele auscultador não se enviam acenos de condolências, não se dá um abraço, não se aconchega o coração petrificado que nós enegrecemos.
Natal é amor, mas isso é o que os fará chorar. 
Deixei correr a minha tristeza numas míseras e pouco profissionais lágrimas, que não serviram sequer para arredar o nó em que o peito se tinha transformado.
A imagem do seu Natal, não este, não o próximo, mas todos eles, esventrado por mim com uma adaga de más notícias.
Ainda assim, haverá bolo-rei e pão-de-ló, prendas e agradecimentos, uma vida para além das que se finam e das que choram.
Afinal, o Natal é cego. Mesmo este Natal que eu matei ainda que com dó e piedade. É época de felicidade, mesmo que esta lá não esteja; é tempo de solidariedade, mesmo que os dias a percam; é o momento da família, mesmo incompleta, mutilada, destroçada.
Com nuvens negras, passagens tenebrosas e esperanças destroçadas, ainda assim é Natal.

segunda-feira, 28 de setembro de 2015

É favor ler sem colete de forças

Numa realidade tão propícia ao engano, tendemos demasiadas vezes ao próprio prejuízo, em vez de procurarmos o equilíbrio dinâmico das diferentes opiniões construtivas e da compreensão.
Ninguém gosta de ser considerado uma fracção numérica da realidade, mas também não é menos verdade que muitos se esmeram por manter tudo desta forma.
Duma forma geral, reagimos mal aos acontecimentos que nos tocam directamente, mas não nos insurgimos sobre  factos iguais que sucedem a terceiros. 
Diz-se amiúde que temos direitos, mas vivemos cada vez mais numa sociedade que nos incentiva a prescindir deles. Alguns, infelizmente, prescindem.
"Despedia uma grávida de risco no final do seu contrato."
"Quem tem muitas baixas não serve para trabalhar."
"Os funcionários doentes têm de ser solidários com os que fazem os turnos."
Grassa, como se vê, a estupidez por todo o lado. Perdeu-se o raciocínio lógico. Abandonou-se, de vez, a visão de fundo para se dar lugar ao imediatismo egoísta.
Sobram algumas cabeças. Num mundo assim, serão as que mais sofrem, dispostas que estão a comprar uma guerra cuja vitória também o será para os seus adversários.
Afinal, as pessoas não são números.

sexta-feira, 20 de março de 2015

Dia do Pai e da Mãe





Primeiro celebra-se, depois conta-se. E, na verdade, não há muito a contar sobre o 19 de Março e de ontem, mas a história que o envolve, essa sim, é merecedora de todos os pormenores.
Neste dia, para mim, é dia do Pai, mas também o é da Mãe, pelo seu aniversário. É um dia em que aquilo que se reflecte para o pai acaba por espelhar-se no que se pensa para a mãe e a envolvência transforma-se.
Nada poderá caracterizar o amor que lhes sinto, nem tampouco minimizar em mim as dores que eles sentem. Porém, sejamos risonhos e solares, agora que a Primavera nos abraça.
Foram eles que percorreram cada pedra de castelo comigo, quando quis calcorrear a história de tudo ao mesmo tempo; foram eles que deixaram que os meus sonhos tomassem posse de mim, sem me travar; foram eles que me fizeram tal como sou e que geraram a base que me suportará; foram eles que me mostraram a diferença, o valor do trabalho, a vontade de não ficar calado, a valia e o perigo do orgulho, a estupidez da falsa modéstia, a resiliência de não desistir jamais...
E o amor. O sentimento supremo de quem tudo faz para proporcionar a um filho o melhor e de quem se engrandece com o caminho que esse possa tomar.
Os dias ficam no calendário e, por nós, apenas passam de relance. Porém, a memória da vossa influência em mim e o agradável peso do vosso amor acompanhar-me-ão sempre.
E, como sabem, também eu vos amo imenso. Obrigado ;)


sexta-feira, 13 de março de 2015

Chefe têm os índios





Ser líder não é ser chefe. Nem vice-versa. Ser líder é ser como um motor que gera energia, que gera vontade, que encaminha e participa no movimento. Chefe têm os índios.
Ser líder é ser empático e defender os direitos de quem nos dá a existência. Afinal, não há líder (nem chefe) se nada houver para liderar. Perdendo as bases, a qualidade que abaixo se pratica, qualquer líder deixa de o ser.
Tenho-me encontrado em ambos os papéis ao longo da minha vida, o de líder e o de liderado. Ambos são óptimos quando o objectivo é perseguido de forma comum, sem atropelos. Atritos, esses são inevitáveis. São, até, essenciais ao processo evolutivo.
Contudo, hoje é comum alienar direitos, esmagar virtudes, baixar as calças a quem, sedento, nos quer esmiuçar cada vez mais.
Façamos frente, por favor. É disso que são feitos os maiores, os que rezam história, os que a fazem. É disso que se trata quando falamos de convicção, de sabedoria, de força. Não é nada desmesurado, nem desprovido de sentido, mas sim a pura aplicação de vários princípios e valores que demoraram décadas, séculos, a conquistar.
Todos temos direitos e não devemos prescindir deles, praticando com brio os deveres que se apliquem. Por isso, usufrua-se do direito à greve, à liberdade de expressão, à privacidade, à autonomia, à informação...
Por último, temos direito a ser respeitados e felizes.



segunda-feira, 9 de março de 2015

Animal

O ser humano é um animal implacável que, aprendendo pela inteligência a limitar os actos de sobrevivência, consegue agir de forma civilizada.
O ser humano é um animal gregário, social e de predisposição para a paz.
O ser humano é, por princípio, bom.
Até ao dia em que queiram "tocar" no meu espaço, nos meus negócios, nas minhas pessoas, no que eu gosto...
Aí, o ser humano é uma besta biológica como outra qualquer.


sábado, 7 de março de 2015

Onze anos







Hoje é dia de festa, mas as almas não precisam de cantar. Precisam de continuar a ler.
Onze anos é o tempo que medeia a minha entrada na blogosfera e o dia de hoje. Nada fiz para festejar, é certo, a menos que enfrentar a morte apoiando algumas vidas no hospital se possa considerar celebração.
Gosto de estar aqui, de escrever para o Fiel Depositário. Mesmo assim, como poderão ver, o post do último aniversário está a muito pouca distância e sente-se o tempo que há entre as palavras.
Adianto-vos, desde já, que me encontro a enlouquecer. Ainda não sei que repercussões essas loucuras terão para mim, mas tenho a certeza que ficarei diferente.
Agora, para dar ao Fiel Depositário aquilo que ele merece tenho vários mundos. Tenho a Spoon Eyes, que nos vai proporcionando boas surpresas, tenho a SEW com os seus caps já bem badalados, tenho os meus livros, os meus doentes, os meus raros momentos de sono...
Por tudo isto, estou louco. Principalmente, louco por querer continuar a escrever aqui, neste espaço único, onde me iniciei quando tinha dezasseis anos.
Para que isso aconteça, preciso apenas de querer, mas gostava de ter a vossa participação. Mais comentários, mais discussão, mais ideias...
Comecemos por este repto! Durante uns dias escreverei sobre aquilo que me pedirem. Que tal?
Lancem a ideia e eu criarei o texto sobre esse assunto. Espero a vossa adesão
Por fim, parabéns!
O Fiel Depositário é principalmente de quem o lê.


(Toda a teoria foi demonstrada a posteriori pela forma alucinada como respondi a pessoas reais que me interpelaram durante um inusitado sono após a feitura deste texto.)


quinta-feira, 5 de março de 2015

Manifesto "Não consigo"




Grassa na sociedade um género de "não consigo" que leva as pessoas à inactividade e à falta de motivação.
Assim, criei um manifesto para contrapor esse tipo de inércia, dando liberdade a todos para dizerem "não consigo" comigo, desta feita por razões efectivamente válidas.


Não consigo...


...compreender quem diz que não consegue sem tentar.

...aceitar queixas de quem nada faz para mudar.

...aceitar a palavra impossível.

...compactuar com faltas de carácter.

...ajudar quem nunca aceita as minhas opiniões.

...auxiliar quem só aceita as minhas opiniões se forem iguais às suas.

...deixar de rir ao ver instrutores de fitness com barrigas a crescer.



...confiar em dermatologistas capilares carecas.

...perceber quem gosta mais do dinheiro do que dos valores humanísticos.

...defender quem muda de opinião com a direcção do vento.

...deixar de contrapor as falsas declarações de virtude.

...entender quem ataca outros sem razão.

...encaixar o ciúme desarrazoado.

...comer o que nutricionistas gordos aconselham.

...acreditar em gestores, mentores e directores que mentem em prol do negócio.

...deixar de retribuir a quem me faz bem.

...deixar de lembrar quem me tenta maltratar.

...compactuar com seguidores cegos.


...perceber quem trai para que outros confiem em si.

...ver vantagens no isolamento.

...deixar de desconfiar em quem nunca demonstra querer mudar.

...ficar calado.

...deixar de vos pedir para usarem este manifesto.

...dizer "não consigo" sem ser por razões como estas.

...não pensar na continuação deste manifesto.

segunda-feira, 26 de janeiro de 2015

A Cidade Sem Par


Eis a Cidade Sem Par
Terra de muitas crenças
Onde toda a gente vai dar
Apesar das suas diferenças

É um lugar bonito
Feito de hospitalidade
Qualquer habitante expedito
Mostrará boa vontade

Mas esta é uma limitada
Análise da superfície
Que quando bem aprofundada
Nos mostra toda a imundície

Nesta terra tudo é feito
E nada parece real
Mesmo os amigos do peito
Uns dos outros dizem mal

Há humildes fingidos
Que se apregoam ultrajados
E que em todos sentidos
Não passam de pobres coitados

Há corações perto da boca
Raivas latentes em cada esquina
E muita cabeça oca
Que nos fica na retina

Há crentes esperançados
E incrédulos que se espumam
E os gestores desgraçados
Cujos sucessos se esfumam

Feitos só de teoria
Mudam a sua vontade
Vivem para o dia-a-dia
Com a crise da meia idade

Há espaços inteiros
Onde podemos encontrar
Rebanhos de imensos carneiros
Prontos para concordar

Há palhaços e animais
Trapezistas em exibição
Que como os demais
Acabam sempre no chão

Há quem hoje queira ser
E amanhã mude de ideias
Quem não saiba o que dizer
E fale de vidas alheias

Há ladrões espertos
E burlões corriqueiros
Políticos ignorantes
E polícias trapaceiros

Há estrelas cadentes
Que nunca sequer brilharam
Outras bastante inocentes
Que quase se aniquilaram

Para tudo há similar
Nesta bela ficção
Cabe a cada um optar
Por viver nela ou não







quinta-feira, 8 de janeiro de 2015

Charlie Hebdo

Vou-me pronunciar sobre o Charlie Hebdo.
Vivo de perto uma realidade religiosa, sendo que na minha família há crentes de quatro religiões diferentes e um quinto grupo de desertores, no qual me incluo.
Sei, de fonte segura, por ter lido a Bíblia de ponta a ponta várias vezes, e partes de outros livros sagrados como o Corão, que a deturpação das palavras ditas sagradas é resultado de mais crimes do que a fome. Mais de metade do que as religiões veiculam não pode ser provado e depende unicamente da fé, algo que não é reprovável nem condenável mas que tem um lugar próprio: o interior de cada um.
Acontece que, quando se acredita muito, deseja-se que outros também acreditem. E isso leva a uma tentativa de influência para a conversão que gera discórdia, como em qualquer outra opinião, mas com muito mais força.
Agora vamos relativizar as coisas. A fé é importante, mas apenas para aqueles que a têm. Assim como o futebol, a praia, o jogo da sameirinha ou da malha. E não me digam, por favor, que estou a relativizar de mais porque conheço muita gente que dá mais valor ao futebol ou à malha do que à fé (que não tem).
A liberdade de expressão que tanto se discute hoje baseia-se no seguinte: todos temos direito à nossa opinião, seja ela qual for, e todos temos de arcar com as consequências legais, repito, legais, que elas possam acarretar. Vejam outro exemplo. Chamaram "paneleiro" ao Manuel Luís Goucha na televisão e ele processou-os. Ambos estão no seu direito: uns de usar de liberdade de expressão até para ofender e outros para se defenderem legalmente, repito legalmente.
Sabem quantas vezes já insultaram a minha família pelas crenças? Sabem quantas dessas vezes eu os defendi? E quantas dessas fui eu que os insultei? E, no fim, por sermos seres humanos, estamos quase todos vivos e os que morreram foi de mortes alheias ao crime.
Por isso, o que aconteceu em França é um atentado à liberdade de expressão, sim. Aqueles três indivíduos tinham o direito de desenhar os caricaturistas com cara de demónio, de os insultar, de lhes ler os versículos que entendessem aos ouvidos ou até de os processar. Ultrapassaram o limite da integridade física, levaram vidas por uma estupidez que nada tem que ver com fé.
Saramago adjectivou Deus de filho da puta no livro Caim e a Igreja insurgiu-se, dentro dos seus direitos, civilizadamente. Não o matou. Alguns insultaram-no de volta, alguns tiveram vontade de lhe bater e de o fazer desaparecer da face da terra, mas não o fizeram. Disseram, apenas. E dizer ou escrever é exercer a liberdade de expressão. Desenhar também.
Todos temos o direito de contar anedotas sobre Moisés (já fui censurado por isto), desenhar Cristo a beber Coca-Cola na cruz, escrever sobre o Buda surfista, satirizar os bigodes esquisitos do Confúcio ou dizer que Ganesha é um Deus trombudo (e é). Os que tiverem conhecimento têm o direito de devolver argumentos, insultos ou processos judiciais, nunca agressões físicas ou balas.
Liberdade de expressão, não de acção, de repressão ou de limitação. Eles exprimiram-se com desenhos; os outros não se exprimiram, mas espremeram-lhes a vida por isso.
Eles desenhavam papéis que podiam ser ignorados pelos crentes, como eu já ignorei muitos ultrajes na minha vida.
Já as famílias, a França e o Mundo não poderão ignorar jamais o que lhes fizeram. Por isso, o Charlie Hebdo está nas bancas, já na próxima quarta-feira.