Domingo, 6 de Maio de 2012

Questões de perspectiva

As perspectivas de vida que temos mudam. Sim, afinal, os objectivos não são estanques. São voláteis, esvaem-se, esgotam-se, perdem-se no tempo.
Há coisas, por exemplo, que tendemos a valorizar que não passam de meros pedaços de um vazio que, arbitrariamente ou não, nos rodeia. É estranho que percamos tempo com esses factos, mas eles, por serem parte integrante da nossa realidade, estão diante de nós, sem misericórdia.
Todos já devem ter notado a descaracterização de algumas prioridades, valores que se deveriam manter interminavelmente. Mas, como os valores também têm tempo, acabam por ser ora ultrapassados, ora hipervalorizados, ora ignorados. Tudo isto quase ciclicamente.
O melhor exemplo disso é o sexo. O sexo, como partilha do prazer, tem vindo a perder o secretismo e a tornar-se um tema menos silencioso do que antes. Democratizou-se, no fundo, e acabou por ser impelido à compreensão da sua semântica. O seu significado, antes singular, agora ter-se-á transformado numa multiplicidade de factores.
Contudo, o sexo encontra-se sobrevalorizado. Quererei com isto dizer que o sexo não é algo extremamente agradável? Pelo contrário! O sexo reveste-se de uma importância determinante na vida das pessoas. É fundamental que exista, que seja bom, que seja feito com vontade, que seja bem praticado, que seja tudo e mais o que a imaginação nos puder dar... Mas não é tudo.
Os objectivos de vida que hoje em dia tanto se apregoam são outro dos factores confundidos ad eternum com aquilo a que chamamos qualidade de vida. A qualidade de vida de um soldador suíço que ganha um salário líquido de 2500 € é melhor ou pior do que a de um médico português que receba o mesmo valor? Creio que se perceberá facilmente que a profissão, e o estatuto social que a ela é mal associado, não é um significante directo para a boa vida que todos sonhamos. O soldador trabalha com maquinaria pesada, mas o médico passa noites em claro. O médico passa horas infinitas no hospital sem ver a família, mas o soldador passa os fins-de-semana a descansar do peso laboral de uma semana inteira.
Estas generalizações são perigosas, mas ajudam-nos a provar a incongruência das declarações que ouvimos no metro, no autocarro, no café e, incrivelmente, lemos em alguns jornais. No fim de tudo, benditos o médico que se lembra que a folga também existe e o soldador que vai jantar fora e divertir-se ao fim-de-semana. Questões de perspectiva, portanto…
Por meu lado, as horas estão contadas criteriosamente para uma multiplicidade de actividades. Não dá para ser diferente, porque é assim que gosto de viver. E há tempo para tudo. Até para escrever textos como este e para perceber que as prioridades também mudam, frequente e bilateralmente, queo prazer de ontem ter saído pode ser o de hoje ficar em casa, que o prazer de ontem ter lido pode ser hoje o prazer de usar um gadget, que o prazer de ter um corpo novo a explorar pode hoje ser o prazer de ter alguém que ouça e ocupe o vazio ao nosso lado e que também pode ter um corpo novo a explorar, o que mostra que pouco nesta vida é exclusivo…
Porquê? Há quem chame prisma, visão, orientação, escolha… Eu, aqui, preferi chamar-lhe perspectiva.

Quarta-feira, 2 de Maio de 2012

Para ti

Sabes esses espelhos da alma
Que tuas pálpebras aconchegam?
Sonhei guardá-los na palma
Porque os dedos todos não chegam

E esse teu tão calmo jeito
Feito de um mistério silencioso
Onde amiúde me deleito
E me faz tão curioso

Sabes dos lábios desenhados
Que a tua face encaixilha?
Imagino-os em beijos apaixonados
Do mundo nova maravilha

Sabes desse pleno poder
Que a dançar enfeitiça?
Quase me faz não conter
Todo o fogo que me atiça

E se não tiveres defeitos?
Arranjar-te-ei um altar
Para, em momentos perfeitos
Te poder, somente, contemplar.

Terça-feira, 24 de Abril de 2012

As difíceis despedidas do que é fácil

Sei de alguém que vai partir. Por problemas conjugais deixará o marido de há décadas e partirá. Outro país a espera e, consequentemente, uma vida mais activa e, assim desejo, mais feliz.
Do ponto de vista de quem com ela conviveu durante mais de dez anos, tudo se torna estranho. A presença daquela pessoa era-me algo garantido, daqueles factos a que pouco ligamos por nos parecerem marcados em pedra. São dados assegurados, no fim de contas.
A vida muda, contudo. O que outrora estava garantido poderá hoje não ser mais do que uma recordação, seja de que teor for.
Que o diga o marido, quando descobrir. Saberá que todos os erros que cometeu mudaram a sua existência? Ou teimará em culpar a fugitiva esposa pela conduta desenfreada e quase leviana de desaparecer da sua vida?
Apenas sei responder à questão que em mim se coloca. Se aquela mulher, que nunca significou nada para mim a não ser uma constante presença se transforma numa despedida difícil, tomara que os erros de hoje não os obriguem a ser "maridos abandonados" de amanhã.

Quarta-feira, 4 de Abril de 2012

Valência e o meu "até já"


Valerá sempre um até já! Deixou saudades, como se notará pelas parcas palavras que escreverei. Custa escrever sobre estas coisas. Barcelona também foi assim, para pior, tendo em conta que o que escrevi à mão nunca tive coragem de passar. Reler aquilo requer mais tempo...


Nesta viagem, além da comida, das pessoas, das simpatias, dos sorrisos anónimos, do hotel, dos italianos barulhentos, enfim, do bom e do mau que acaba por ser bom por ser diferente, há uma ressalva determinante: a companhia.


É a viajar que a essência das pessoas vem à tona. E eu adorei navegar nesse imenso mar, feito de um feitio difícil (porém, mais fácil do que o meu), uma enigmática beleza e um companharismo surpreendente...


E como a vida é curta, deixo-vos com a música que mais se ouviu por lá, nessas noites de memórias eternas e turvas pelos líquidos sorvidos...














Sábado, 31 de Março de 2012

Passear, visitar, tapear, treinar

Hoje foi dia de ver a Ciudad de las Artes y las Ciencias. Alguns quilómetros a pé foram-nos mostrando uma cidade jovem e pronta para o turismo, edifícios que tanto lembravam o barco do Capitão Nemo de Júlio Verne como naves vindas de filmes de ficção científica.
Tapeamos ao lanche. No fundo, uma visita ao sabor mediterrâneo...
No Medium Conqueridor aproveitei para treinar um pouco. O ginásio não é grande, mas tem tudo o que uma sala de treino de um hotel deve ter como indispensável.
E que tal um jantar, sem repetir a Paella Valenciana de ontem? Estão convidados...

Valência II

Uma cama jaz neste quarto, desfeita já por sonhos e outras travessuras. Valência tem o sabor catalão desta costa mediterrânea. Os copos fluem facilmente, os corpos cruzam-se agilmente e a noite cai com sons que noutro sítio seriam música só para alguns. Aqui tudo é para todos e todos estão por tudo!




Sexta-feira, 30 de Março de 2012

Valência

Este banco do Aeroporto sabe bem. Começa mais uma daquelas aventuras desmedidas. Ou bem medidas. A vontade de levantar voo, a vontade de aterrar de conhecer, enfim, de viver. E tudo isto com companhias inesperadas, vontades unidas, aquelas acima citadas... É assim que tudo começa na vida: com um inesperado sim a uma ideia inicialmente improvável. Até já...

Quinta-feira, 29 de Março de 2012

As fieis tempestades onde depositamos ideias

Oito anos se passaram, se fecharam no dia sete do mês corrente. Oito anos a escrever para estas páginas virtuais, oito anos de paixões, de mágoas, de desencanto e muito encanto.
O Fiel Depositário está ao meu lado há um terço da minha vida. Tendo em conta que os primeiros anos são vividos sem a escrita, sobra ainda menos tempo para me lembrar do que era escrever e não o ter.
Lembro-me de o ter criado antes da minha primeira viagem. Li algo num livro sobre espaços na web que permitiam que se escrevesse e se lesse e, no fundo, se deixasse o Mundo ver o pensamento que transportamos individualmente. A globalização do pensamento personalizado, portanto, que soa a paradoxo, mas tem um lado muito bonito.
É aqui que tenho alguns dos poemas mais bonitos que já escrevi. Li um deles ontem, numa noite especial de poesia. E soube-me bem recordar o imenso prazer que é alimentar este velho amigo.
O FD viu nascer outros blogs, filhos da sua vontade, e da minha, que acabaram por influenciar outros. Com o tempo, o cansaço venceu essas páginas, derrotou a vontade de quem as escrevia.
De todos estes "descendentes" já não há memória.
No entanto, agora o FD tem um irmão. Não é um filho, porque não é descendência directa, e nasceu antes de ter sido criado. Afinal, já vivia dentro do seu criador, que agora diariamente o alimenta. Foi necessário apenas o estímulo, vindo de várias partes, e eis que nos surgiu o http://tempestadideias.wordpress.com.
Da autoria de Ricardo Alves Lopes (RAL), é um blog que marca principalmente pelo toque pessoal que é dado a cada texto e pela universalidade que cada um destes apresenta. Confuso? Leiam e descubram se a sensação não se aproxima a uma familiaridade incomum.
Sou, há vários anos, amigos do RAL. Sei ter sido protagonista de um dos vários estímulos que foram necessários para a criação do seu blog, mas isso perde importância quando a evolução que notamos, já autónoma e livre, nos agrada ao ponto de nos pagar da forma ideal: sendo bom.
É também esta qualidade notória que, hoje, me incentiva a escrever ainda mais, a não deixar o Fiel Depositário muito tempo sozinho.
Leiam! E caso vos dê vontade ofereçam-nos outro irmão. A família nunca está fechada...


Quarta-feira, 28 de Março de 2012

Sacrifício ao sol

Mais um dia de puro ócio, com uma perspectiva cultural sem par. As noites de poesia de quarta-feira, provadas por fotografia e ao sabor de textos de qualidade superior, no Olimpo, aquecem esta tarde mais do que o calor que se faz sentir.
É este calor e este mar que me observa desde o horizonte até beijar a areia que me fazem sentir que esta vida não tem igual. Também, é certo, não haverá mais nenhuma para nos fazer sentir algo do género.
Por estas razões, o valor que têm momentos destes, de descanso mental e extenuação física, porque o calor também cansa, acaba por nos valorizar enquanto pessoas. É verdade, tornam-nos pessoas diferentes, gente que vive, deixam-nos sentir o autodomínio dos nossos passos e fazem com que a necessidade de realização pessoal deixe de ser medida por méritos e esforços. Bastam o sol, o mar e tudo o que com eles se conota para que nos sintamos plenos.
E escrevo. Como não podia deixar de ser. Escrevo à velocidade que me permite o tempo que o sol me deixa, mas não se pode lamentar. Sem ele estaria, provavelmente, a escrever um poema negro ou uma prosa ressentida. O sol deixa que a escrita flua, leve, como a brisa que ele mesmo acaricia. Ou será que nós, seres conscientes e pensantes, acariciamos, por meio dele, aquilo que vale a pena? Alguns o farão, outro deixam a oportunidade perder-se... Contudo, o sol nasce também para esses e proporciona-lhes várias oportunidades, como se lhes chama-se a atenção para a premência que existe no usufruto deste ambiente.
Assim será, se tudo prosseguir segundo os cânones sazonais, durante os próximos meses. Eu cá estarei para, de férias ou não, me oferecer em sacrifício ao veranear próprio destes momentos. Tudo o resto, como sempre, virá por acréscimo.

Terça-feira, 27 de Março de 2012

A praia, o tempo e o outro tempo

Há neste tempo, o climático, algo de novo. Sempre novo a cada ano que surge. Há aquela saudade do calor que se faz sentir nesta esplanada onde escrevo. Onde vim, propositadamente, escrever. Há a renovada vontade de criar.
Mas não se chama inspiração. Por favor, não lhe dêem esse nome. Cansa-me que se ofereça sempre ao que é externo o mérito de algo que vem, invariavelmente, de dentro. Não é inspiração, trata-se de pura transpiração, trabalho, persistência, vontade e a força que dela advém...
Vejam o trabalho que dá acordar, almoçar, saber que as férias estão a ser óptimas e ter de fazer o esforço de sair, pegar no gadget que servirá de meio e optar pela esplanada que mais nos aprouver só para praticar o prazer maior de poder criar, de poder deixar estas palavras fluírem até vocês, que agora as lêem.
Imaginem que que o ócio, aquele outro de ficar em casa sem mais nem porquê, me assalta? Já não dá. Já aqui estou, a aproveitar o calor deste Março estranho e novo, novo a cada ano que surge.
Mas é difícil ser assim. É difícil saber observar, é difícil escolher a esplanada, é difícil saber porque palavra começar para deixar o resto de inveja em todos aqueles que agora estão a trabalhar. Esses que sabem que pelo tempo, o cronológico, perderão este tempo, o climático, para não mais o recuperar.
Rejubilem no pensamento de que tal me acontece amiúde. Mas hoje o tempo, este e o outro, são meus. Por isso, invejem-me. É um orgulho que me oferecem.