Para o papá... e para a mamã!



Dezanove de Março é, para mim, o dia mais caro a seguir ao Natal. Felizmente.
Faz hoje 44 anos que nasceu a minha mãe, num dia dedicado à pessoa que há vinte e cinco anos lhe semeou a minha existência: o meu pai.
E que palavras posso ter para eles? Eu, que por norma as trato por tu, perco a capacidade de as usar quando o amor é a palavra de ordem. Mas, sem desistir, aqui vai:

Cara Mamã, caro Papá,

Parabéns por este dia, o vosso dia. Vou tentar escrever pouco, não porque as pessoas não
pudessem ler, mas para evitar lágrimas, pois os teclados não se dão bem com
secreções lacrimais.
Sabem que vos agradeço todos os dias? Não é por serem meus pais, porque isso é fruto de uma série de acontecimentos  biológicos, mas por serem aquelas pessoas a quem posso recorrer sempre que necessito. Por serem meus amigos, verdadeiros; por partilharem comigo as vontades de per correr ameias intermináveis nos castelos; por estarem ao meu lado nas vitórias; por me irem buscar ao sítios onde estou quando me sinto derrotado; por me impulsionarem a ser cada vez melhor; por me corrigirem quando persisto no erro; por anteciparem os perigos e, mais do que tudo, por me fazerem sentir protegido, aconchegado e amado.

Sem vocês, pior do que não existir, existiria sem ser.

Com muitos beijos agradecidos do filho que tanto vos ama,

Miguel


O novo Papa e um ovo a cavalo







Não sendo fã de teorias da conspiração, hipocondríaco alimentar nem um pouquinho católico sequer, fiquei bastante indeciso entre escrever sobre a carne de cavalo ou o Papa.
Entretanto, perante a minha dúvidas, os cardeais eleitores elegeram o novo Chefe de Estado do Vaticano (é mais isso que líder religioso) e saiu fumo branco da chaminé da Capela Sistina às 18h06.
Por isso, depois de "habemus papam" comemoremos com um belo bitoque porque nunca a expressão ovo a cavalo foi tão significativa como agora.




Um adeus agradecido, com amor

Foi na noite de segunda, começava ainda o dia 4 de Março de 2013, quando recebi a notícia já esperada. O meu pai, teu filho, lá estava ao teu lado e à espera que eu chegasse para o teu último banho que fiz questão de te dar.
A imagem, apesar de ter pouco tempo, é simultaneamente forte e turva. Segundo quem viu, lavei-te com água e com as minhas lágrimas, irmãs destas que agora afloram por te escrever isto.
Desculpa-me se o faço de uma forma tão pública a alguém como tu, tão cioso da sua privacidade e autonomia, mas o teu funeral mostrou-me que o teu nome era imensamente querido. As flores que te cobrem não deixam sequer ver a pedra tumular.
Sabes do que terei saudades? Além do mimo, dos carinhos e dos momentos que passamos juntos em amena convivência entre avô e neto, sentirei falta até dos momentos em que me irritavas um pouco resmungando sobre a minha barba, criticando as minhas saídas nocturnas, comparando a minha loucura com a tua idoneidade...
Agora que temos as tuas memórias para ler, onde estão reveladas algumas das tuas próprias aventuras loucas, é mais fácil perceber que essa era a tua forma de dar atenção.
Lembrar-me-ei sempre das nossas viagens com os Simples, dos vários "cinco de outubro" em que anunciavas que eu fazia anos no mesmo dia que o grupo, das papas de sarrabulho que eles avidamente comiam e nós evitávamos, das intermináveis horas matinais dos teus cuidados que me iam despertando lentamente...
Poderia escrever uma imensidão de palavras para aliar a estas, pois essa é a melhor forma que tenho de sentir que me liberto dos momentos menos felizes; mostro-as a quem as quiser ler, porque essa é a forma de me sentir aconchegado, quando me lêem. E tudo isto será pouco...
Não te preocupes com as últimas imagens que nos deixaste. A tua verdadeira imagem durou mais de oitenta e cinco anos.
Não te preocupes com a morte, pois só morre quem é esquecido e pude constatar que nunca o serás naquela freguesia, muito menos por nós, que tanto te amamos.
Não te preocupes com o teu nome. Não só o deixaste limpo como o fizeste brilhar e nós sentimos orgulho por poder tê-lo como nosso.
Não te preocupes connosco. Ficamos mais pobres sem ti, mas seremos sempre enriquecidos pelo prazer de te ter tido.
E agora, tu que sempre foste um homem preocupado com a família e outros afazeres, que sempre foste trabalhador e metódico, que sempre foste um patriarca esmerado e um homem de cultura e da cultura, descansa.
Um beijo enorme do teu neto que te chora, mas que sorri por ter aprendido contigo e sentido o teu amor, e que te amará sempre.
Obrigado, vuvu.



Orgulho

A noite nunca é escura de mais para pensar. Os pensamentos podem ser escuros de mais para a noite. Assim como as manhãs cobertas de nevoeir...