Guilherme e os Duendes



Decidi escrever um novo conto de Natal. Comecei por libertar aquelas amarras com que, por vezes, tentamos recriar o realismo. Baptizei as personagens com os primeiros nomes que me surgiram e alguns são bem estranhos. Fledik, Yordik, Taldik e Uldrik. Quatro duendes, ajudantes do Pai Natal, que compõem o coro mais bonito que possam imaginar. Neste conto, cantam para Guilherme, o menino que é a estrela da história.
A capa, muito mais bonita do que aquela que eu teria idealizado, foi criada pela Filipa Cardoso. 

Como o Natal não se faz sem amor ao próximo, decidi oferecer metade do valor de capa para o Instituto Português de Oncologia. Faço uso das novas tecnologias e das suas vantagens. Não há intermediários. Há apenas a vontade de ser lido e de dar.
O preço do ebook (livro em formato electrónico) é de 2€, mas o pagamento é decidido pelos leitores. Independentemente do valor que escolheres, apenas 1€ é retido para registo da obra, ISBN e para promover outras actividades relacionadas com a iniciativa.

É uma história pequenina que me deu muito gosto criar. Relê-la, aquando da revisão do texto, foi para mim uma experiência sentimental, apesar de ter sido eu a criá-la e a dar-lhe o fim que tem. 

O Natal também é isto: criar e sentir. 

Para vocês e para o IPO, Guilherme e os Duendes.

Keith Richards e o rock sentimental


O documentário Keith Richards: Under the Influence da Netflix está recheado de segredos e de positividade. Quem diria que a personagem dura que imaginamos está rodeada de amor e que vê o mundo como um lugar mais cor-de-rosa do que o seu consumo compulsivo de tabaco deixaria perceber.
Keith confessa-se às câmeras abertamente. A sua casa deixa de ter segredos, a relação com os restantes Rolling Stones é abordada, mas são sempre os sentimentos a ressaltar. Richards ama o processo criativo. Gosta de ir para estúdio fazer experiências, reutilizar temas, explorar possibilidades. Esta é a massa de que os génios são feitos. Os génios são assim não porque não errem, mas porque sabem errar mais vezes e melhor. 
Acabei o documentário comprando o seu álbum de originais, Crosseyed Heart. A voz dura consegue ser melodiosa. Os gritos da sua guitarra são sussurros e afagos. Arriscaria a dizer que está ali um avô guitarrista de que gostaríamos, não fossem os relatos dos episódios com os Rolling Stones e a fama estratosférica. 

Este documentário foi o primeiro da Netflix a surpreender-me através da vida de um músico. A segunda vez está relatada no artigo Anitta e a ética de trabalho. Aproveitem os dois textos para ter um prenúncio daquilo que podem encontrar e cujas surpresas tão bem nos fazem sentir. Como se pedras rolassem nas nossas costas, aquecidas e relaxantes, ao ponto de nos renovar a esperança no Homem. 

Palavra de uma gravata



Conheço gente boa que cometei erros e cumpriu pena de prisão. Conheço muita gente de fato ou farda que não é boa companhia nem para o cão. Conheço pessoas inteligentes que fumam droga. Conheço vegetarianos que são autênticos imbecis. Conheço escritores a quem custa escrever. Conheço gente que escreve que acha que é escritor. Conheço músicos com carreiras estagnadas que não se sujeitam a nenhum desafio. Conheço músicos de renome que comem frango a tour toda e já fizeram concertos em cima de grades de cerveja.
Criticar é sempre mais fácil do que fazer e, quando se faz, a imitação continua a ser a opção para todos aqueles que preferem o facilitismo à originalidade.

Os gostos vão para além da atestação da competência. Gostar ou não do que alguém faz é completamente diferente de reconhecer se o que faz é bem feito. Temos ainda a possibilidade de não gostar e não perceber por que razão muitos outros gostam, mas nesse caso, como acima, veremos que há algo que temos de reconhecer como sendo bem trabalhado.
É assim no caso de músicos, escritores, apresentadores de televisão, cineastas… Também é assim em profissões menos artísticas. Podemos detestar a abordagem de um qualquer advogado, mas se ele cumpre os prazos, evita litígios e ganha processos em tribunal é competente. 
É muito frequente vermos este tipo de atitude nos cirurgiões. Alguns têm um complexo de Deus demasiado engrandecido por lidarem directamente com vidas humanas. Não nos esqueçamos, contudo, que os há tanto excelentes como péssimos. Em ambos os casos, a percepção dos que os rodeiam é, não raras vezes, de assombro pelo mau feitio e pelo ego desregulado. Apesar dessa semelhança, os excelentes cumprem os preceitos da competência como poucos.
Da mesma forma que a maioria apregoa que não se deve julgar um livro pela capa - apesar de ser a capa que mais incentiva os debutantes às leituras mainstream - também não se deve julgar as pessoas. 

Neste preciso momento, escrevo no avião. Faço vários voos por mês por razões profissionais e costumo viajar ora de cap ora de gorro SEW, a nossa marca de headwear. Desde 2015 que uso este tipo de acessórios. Servem de protecção ao frio a que a minha calvície me expõe e aproveito para fazer publicidade ao que é nosso. 
Há momentos em que o uso de cap, mais do que o gorro, me traz algumas dificuldades. Há bares onde não se entra de cap e há mais probabilidade de ser controlado no aeroporto. Noutros momentos as vantagens são notórias. Menos pessoas me pedem dinheiro na rua e quando tenho de me impor sou ouvido com outro cuidado. 
Qualquer das situações apresentada consiste num estereótipo que não se combate facilmente. Pior, com a habituação acabamos por não combatê-lo de todo. De outra forma estaria a explicar a toda a hora que estou longe de ser um indigente e que tenho mais trabalho do que alguns dos senhores de fato que recebem sorrisos. 

Não me interpretem mal. Também adoro usar fato. Sou tão eclético na roupa como em qualquer das minhas experiências. Só acho estranho que a sociedade esteja pronta a impingir-nos um conceito baseado num acessório.
Quando ainda tenho o cap na cabeça e me levanto para ir buscar o computador à bagagem apercebo-me de alguns olhares de admiração. De repente, sou outro apenas porque escrevo num MacBook Pro. 
Perceba-se que quem o faz é quem vota. É quem desconfia de um cap mas aceita passivamente todas as palavras de uma gravata - ultimamente prefiro laço - que acaba por eleger populistas desbocados pelo mundo todo ou deputados de extrema-direita na Andaluzia.

Orgulho

A noite nunca é escura de mais para pensar. Os pensamentos podem ser escuros de mais para a noite. Assim como as manhãs cobertas de nevoeir...