O desencanto após o benefício da dúvida

O que fazer quando alguém é estúpido? Vale sempre a pena dar o benefício da dúvida. E se a estupidez persistir? Há que controlar o ímpeto de falar, aquele poder explosivo que reside em cada um de nós. E se mesmo assim continuarem as provocação? A esta cada um responde por si...
O que é certo é que a sociedade tende a vaticinar resultados de acordo com a postura das pessoas. E não pode, como tenho verificado, ser assim. Após ter provado por mérito que o desempenho profissional não se encontra directamente relacionado com a aparência ou com escolhas de teor pessoal - que só a mim pertencem, portanto - esperava ver reacções diferentes. Notei-as, é certo. Algumas com um valor de falsidade tão notório que não merecem a mais pequena inclinação para as abordar.
Acrescente-se um factor determinante. Tendencialmente, as mulheres são mais dissimuladas neste capítulo. Conseguem explorar factores, propositadamente, pelos quais alguém pragmático nunca optaria. Há mulheres pragmáticas? Claro. Como há homens com um sentido emotivo desenvolvido. No entanto, fugindo do estereótipo encontram-se na base características genéticas que condicionam esses comportamentos.
Vejamos um exemplo. Qual dos géneros elogia mais frequentemente o sexo oposto? O masculino. Mas em algumas situações, embora menos frequentemente, o género feminino consegue usar uma brutalidade tal nas suas descrições que, para quem se proclama mais sano, acaba por roçar a incoerência.
Conseguiria, porém, dar uso às palavras de outra forma se, deixando a generalidade, apostasse na aplicação de nomes próprios. Isso acontece, e aconteceu no Fiel Depositário, em situações de mérito ou reconhecimento.
Quanto à estupidez... valha-nos o benefício da dúvida!

A dignidade ao som de alarmes de monitorização

Saio de fazer noite no hospital. Ainda sinto os sons intermitentes dos monitores. Parece longínqua a altura em que me espartilhava entre part-time e desemprego, sem compromisso com nenhuma carreira. Ainda assim, sempre com o mesmo empenho, não reconhecido porventura, mas necessário àquilo que são os meus próprios padrões de excelência. Afinal, o meu objectivo é sempre o meu melhor. E, valha a verdade, costuma chegar para um bom desempenho.
Todos nós, de uma forma ou de outra, somos incitados a tratarmo-nos e expormo-nos como um produto. As nossas qualidades são apresentadas, somos procurados pelo nosso trabalho, enfim, somos requisitados por aquilo que melhor desempenhamos. Isso não me aconteceu durante um curto mas desesperante período de tempo, e esse facto é o sal que tempera as vitórias diárias.
Contudo, apesar de um produto somos, fundamentalmente, pessoas. Há valores e princípios a salvaguardar e há, acima de qualquer promoção na carreira ou aumento de salário, uma dignidade a preservar.
Para quem a tem, conservem-na! Quem não a tem… Bem, desenrasquem uma, porque faz imensa falta.

Carta Aberta: um obrigado sentido!

Escrevo estas palavras como se de uma carta aberta se tratassem. Escrevo-a sem destinatário, como um cheque ao portador, podendo os fundos que as palavras escondem ou mostram ser depositados sob qualquer forma.
Durante a minha vida tive a perspectiva de que é nos momentos altos que devemos olhar para trás e vislumbrar as dificuldades que até este momento nos trouxeram. Sempre sorrindo. E é perante esta retrospectiva que sinto a necessidade de apresentar estas palavras a quem as queira ler, independentemente da proximidade que entre nós exista.
Tenho plena noção de que este é um dos textos mais íntimos e reveladores da minha natureza que alguma vez escrevi. Mais directo, ainda, porque escrito como se de uma carta se tratasse e usando uma oralidade própria da tradução escrita de uma conversa cara a cara.
Durante dias que se tornaram semanas, que por sua vez se tornaram meses, vivi sem um rumo profissional que me agradasse. Durante muitos meses vi serem-me apresentados caminhos que não eram os meus. Durante imenso tempo, vi serem-me oferecidas propostas que em nada me satisfaziam ou realizavam. Nada se disso me marca com profundidade. É a natureza do nosso sistema económico e da conjuntura da maioria dos países, sendo que o nosso pequeno cantinho persiste em ficar na cauda de todas as listas dos melhores indicadores.
Contudo, durante todo este moroso processo de adaptação a uma realidade a que não estava habituado, plantou-se a dúvida. Em mim, ela aparecia com alguma regularidade. Nunca foi expressada com veemência – excepto aos mais próximos – por força do meu ego, que acabava por, com a ajuda de todas as restantes actividades a que me proponho, conseguir debelar a erva daninha que começava a brotar.
Existiram, no entanto, vozes que se insurgiram: umas alertando-me, algo que agradeço de facto e com toda a sinceridade; outras apontando dedos e defeitos, algo que não deixo de agradecer com igual sinceridade.
Senão, vejamos: é do senso comum que a diversidade é algo de que nos podemos orgulhar. Para determinado potencial atingir o seu real valor, é necessário existir algo que o contraponha. O branco tem o preto, a terra tem o céu, a mulher tem o homem, os estúpidos têm os inteligentes, os parvos têm os sãos… No fundo, é assim que o equilíbrio que procuramos diariamente acontece.
Daí que, da minha parte, surja um agradecimento sentido a todos aqueles que, das mais variadas formas, tentaram entorpecer ou travar o meu desenvolvimento, ou até mesmo injuriar as minhas opções de vida. Duma vida que é minha, note-se.
Houve quem trocasse as palmadas fortes e sentidas por ligeiros toques semelhantes a esmolas, quem trocasse abraços por ligeiros acenos, quem trocasse momentos ansiados com protagonistas especiais por momentos fúteis com pessoas que antes suscitavam insultos da mesma boca, quem me acusasse directamente de não ter ambição e objectivos a não ser permanecer naquele limbo...
Valha a verdade que houve quem mais tarde se redimisse. Mas para haver redenção, tem de haver pecado.
Não me cabe redigir aqui a lista daquilo que mantenho como actividades regulares, dos objectivos a que me propus já cumpridos ou das minhas (imensas e fortes) ambições futuras. Apelo apenas em honra à dignidade daqueles que a perderam no momento em que atentaram contra a minha.
Em suma, o meu agradecimento é dirigido a todos, sem excepção, quer pelo apoio quer pelas contrariedades. O apoio por ser mais do que uma necessidade e porque, agora, sei de cor onde o encontrar. As contrariedades porque sem elas, sem alguém que deseje ver-nos escorregar, tudo tem um sabor mais ténue.
Afinal, todos os pecados são perdoáveis. “Perdoai-os Senhor, pois eles não sabem o que falam”, disse Cristo. E mesmo que soubessem, pediria o mesmo perdão com a mesma intensidade…
Por isso, muito obrigado!

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O Pista de Aterragem, blog e canal de YouTube, foi transformado temporariamente numa plataforma de partilha de informações sobre o Covid-19....