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A mostrar mensagens de Dezembro, 2008

Garota de aeroporto

Os olhos desenhados com traços felinos incomparáveis. A face pousada num lago cristalino com nomes de fadas que, ás costas, suportam a penitência do que é belo.
Troca-se o olhar, insiste na resistência estúpida do orgulho, fecham-se as comportas das barragens de palavras que forçam a liberdade da vontade.
Espelham-se comentários em portas fechadas, mas de vidro, para manter a tentação. A de Ipanema era mais fácil, mais despida, daí a canção. Está mais longe, mais tarde, tarde de mais, talvez.
Por isso, frustra sentir na pela a queimadura do sorriso distante, no último momento do último olhar. Amanhã, como sempre, é tarde. Amanhã, como sempre, é tarde de mais.

Prenda de Natal

Eram cerca de 4:00 h. Veio silenciosamente, ao som de uma derrapagem. Transforma, porque agora prova-se o sabor acre do limite final e sente-se o comovente doce que se teria perdido. Perdeu-se apenas dois painéis e uma óptica, talvez um capot e, por horas e dias, talvez, o prazer de conduzir. Nem em jogos se tolera. No serviço, entram vários acidentados, politraumatizados que podiam ter o meu nome na pulseira da triagem. Valha a sorte e uma mão pousada sobre o carro, seja ela qual for.
A visão disto muda. O arrepio ao recordar volta sempre. É triste, mas escrever sabe melhor que antes. Sem um arranhão. O carro pode não valer mais a pena, embora ande.
Dois Natais. Deve ser prenda.
Esperemos que não aumente o valor absoluto da intensidade.

Fernando Miguel Santos
Hospital Infante D.Pedro, 4 de Dezembro de 2008, 20:04