Não amor

Há um estigma ligado ao romantismo. Negá-lo é negar a existência deste último. Se é que podemos dizer que ele existe.
A verdade é que o romantismo é quase tão diletante como a paixão pura e dura. Talvez nem exista como estilo de vida, tratando-se apenas de uma opção temporária. Não podemos nós ser românticos hoje e amanhã não?
É difícil enfrentar essa responsabilidade e cumpri-la de forma satisfatória. Há sempre um jantar, um ramo de flores, um sonho, há sempre algo que se interpõe no caminho fácil de quem não se subjuga às algemas do romance. No dia que elas se encaixam, é como se a chave fosse deitada fora, como se a liberdade estivesse presa por um pé a uma corda. Na outra ponta, uma pedra. E eis a nossa liberdade a sufocar depois de cair nas águas do tempo imenso, presa.
Na verdade, não há um único amor. Cada um tem o seu, e cada pessoa que o partilha tem dele uma versão e uma visão diferentes. Por isso, não pode existir romantismo como identidade unificada. Existe, sim, uma tentativa de corresponder a alguém, de suprir uma necessidade maior que se traduz em algo incorpóreo. Para quê tentar definir o indefinível? Porque não conseguimos deixar o importante indefinido. Simples.
E, de repente, vemos um rosto. Um cheiro e uma voz fazem-lhe companhia. Um corpo aparece. Olhos, lábios, contacto. Juntam-se, entram numa fase de banho-maria, transformam-se, unem-se e criam uma sensação. Apenas essa sensação existe, agora. Já não há indivíduo, há conjunto e parceria. Nem que seja por uma noite. Como os homens não se medem aos palmos, também as sensações não se medem ao minuto. Não há tarifa que as pague.
Então, esse não amor que insiste em catalogar estilos de vida e decidir quem é ou não valioso, cujos olhos são mais do que dois, mas olham todos só numa direcção, esvai-se. Sobra, nessa altura, o livre arbítrio. Temos espaço. Deixamos o não cair. O restante, usamos como nos aprouver, pelo tempo que for, na complacência rara da partilha com um outro e não com a sociedade. Só existem dois ali. Por mim, saio, em silêncio e deixo-os em paz. O seu não amor rejeita o amor que lhes querem impingir. Que assim seja até que a morte (do seu não amor) os separe.


Fernando Miguel Santos
16 de Fevereiro de 2008

Arcadia XXI

Faz parte do dever do convidado agradecer, mesmo que não queira participar. Faz parte do dever de quem convida insistir perante um não. Neste caso não será preciso. Aceito de bom grado o convite que me foi endereçado pelos criadores do projecto que mora em http://www.arcadia21.blogspot.com/. De resto, penso que este projecto tem tanto de aliciante como de promissor. Daí que não haja justificação para o seu desaparecimento.

Pontes

O meu último post afirma que voltaria a referir-me ao estágio, ao hospital, a Viseu. Vou remeter-me ao silêncio a muitas coisas, embora tenha um texto, que um dia postarei, que fala de Don Corleone e se relaciona com o tema.
Viseu é uma cidade bonita, bem mais do que na hora da chegada, agora que a vejo à distância. Tem pessoas que valem o esforço do frio e isso, acima de qualquer coisa, é mais do que aquilo que podemos esperar.
Já em Gaia e já de volta ao rebuliço do comboio, terminei a leitura de "As pontes de Madison County" no Dia dos Namorados. Robert Kincaid e Francesca Johnson viveram um amor verídico que muito poucas vezes se repercute. Conseguiram vivê-lo em quatro dias e suportar a separação durante o resto da vida de Robert, sem poderem trocar uma carta ou um telefonema. E, no fim dos dias de ambos, a sua felicidade continuava ali, dando graças por se terem conhecido e não praguejando contra o infortúnio do afastamente.
Perante isto, não resta muito. Resta, apenas, dar valor ao pequeno, às pequenas coisas.
Quando vemos uma paisagem, basta um raio de luz para a tornar idílica. E a luz por si só é invisível.

Orgulho

A noite nunca é escura de mais para pensar. Os pensamentos podem ser escuros de mais para a noite. Assim como as manhãs cobertas de nevoeir...