A musculada pobreza de espírito

A ironia com que a vida nos brinda é brilhante. Brinca connosco como crianças que somos num mar de experiências por cumprir e, os mais desatentos – ou mais estúpidos, por sinal -, tendem a observar a vida dos outros mais do que a sua. E, num mundo pejado de críticas, é mesmo a crítica que vence. E os outros, por delicadeza para alguém que não merece, agradecem o elogio.
Durante um ano e meio esperei por uma oportunidade de ingressar no mundo do trabalho na minha área de formação. Esperei trabalhando na Gamestop enquanto terminava o curso (trabalhando cerca de dezasseis horas por dia !) e na Fnac, imediatamente antes da chamada que me trouxe até ao meu presente lugar.
Durante este longo período de tempo, fui acusado da forma mais ridícula que pode haver. Eu, aos olhos de alguns outros, nada queria fazer.
E eis que chega a oportunidade e a maior parte me felicita. Mas, como nos filmes, há sempre uma personagem em que músculos exacerbados significam actividade neuronal reduzida. E, desta feita, ouço que alcancei este lugar, pelo qual esperei tanto, através de cunha.
Rio-me. Seria uma cunha extremamente eficaz esta que me fez esperar tanto tempo. E seria uma cunha contra mais de quatro mil pessoas (!), o que é um risco imenso.
Não conta o mérito, não se soma as características pessoais, não se adiciona o esforço. Se o Fernando, que antes nada fazia, agora trabalha num serviço considerado de topo é porque tem cunha.
É óbvio que tamanha estupidez, felizmente, só grassa em alguns infelizes cérebros que, desconhecendo a realidade generalizada e a minha realidade específica, como sejam o meu percurso de vida, a minha capacidade oratória ou a minha desenvoltura social, despejam dejectos ao ritmo de cada palavra. Ou, em português corrente, só dizem merda.
Sendo a entrevista o único método de selecção da bolsa de recrutamento do Hospital de São João é normal que quem me conheça compreenda esta chamada. E perceba que peca por tardia.
Ainda assim, congratulo-me com o facto de existirem pessoas que se debruçam sobre a minha vida profissional, admirando o serviço em que trabalho e dando voz a uma frustração – vulgo “dor de cotovelo” – que magoa. Mas, garanto-vos, só eles sentem essa dor.
Refugio-me novamente na tão badalada diversidade. Talvez seja no estúpido que se encontra a força do inteligente. E é no invejoso que o diligente se regozija.
Afinal, a pobreza de espírito é o azeite do carácter. Por muito musculada que ela seja…

Orgulho

A noite nunca é escura de mais para pensar. Os pensamentos podem ser escuros de mais para a noite. Assim como as manhãs cobertas de nevoeir...