Vídeos sobre Covid-19 no canal Pista de Aterragem

O Pista de Aterragem, blog e canal de YouTube, foi transformado temporariamente numa plataforma de partilha de informações sobre o Covid-19. Aqui seguem os links dos vídeos publicados até à data, ordenados do mais recente para o mais antigo:

Link para a totalidade dos vídeos: https://linktr.ee/info.covid19

















Positividade em pandemia


Positividade em pandemia





Publicado originalmente em www.fernandomiguelsantos.com a 8 de Abril de 2020
É difícil ser positivo quando tudo o que nos rodeia é um mundo transformado e uma escuridão que desconhecíamos. A impotência de não poder salvar toda a gente, de ver a forma negativa como evoluem alguns doentes, de não poder viver como antes….
Manter a força para continuar pode ser duro, mas temos de abrir os olhos para procurar aquilo que estamos a fazer bem, para as aprendizagens às quais estamos a ser expostos.
Não vai ficar tudo bem imediatamente. O mundo mudou e, muito provavelmente, essas mudanças serão duradouras, algumas das quais permanentes. Depois de tudo isto, precisaremos de todos para levantar uma realidade diferente daquela que tínhamos, com novos desafios e novas premissas. 
Há um dos meus textos anteriores que fala de algumas reacções negativas que tive às minhas intervenções na SIC e no Pista de Aterragem, o meu canal de YouTube. Hoje, para cumprir o conselho do directo que fiz no passado domingo, quero sublinhar aquilo que de bom me aconteceu nesta nova jornada.
As mensagens de apoio, com selfies ao lado da televisão onde apareço, são incontáveis. Família, amigos, amigos de amigos, desconhecidos… As mensagens foram sendo recebidas em catadupa, sem que eu me apercebesse da dimensão que isto tinha tomado.
Enfermeiros portugueses aqui na Suíça começaram a partilhar os meus vídeos. Um deles, de Rennaz, adicionou-me num grupo de discussão sobre temas de saúde. Um enfermeiro com cargo de chefia de Berna enviou-me algumas mensagens de apoio e partilhou alguns dos vídeos. Hoje, falamos duas vezes por vídeo chamada para trocar ideias sobre a prática clínica.
Fui apoiado por vários colegas do hospital: enfermeiros, médicos, auxiliares, secretárias, pessoal da limpeza… Recebi leite e chocolate à minha porta, mensagens a oferecer ajuda para tratar da roupa vindas de cantões distantes, chamadas de amigos que já não vejo há alguns anos e que decidiram dar-me força sem teres de passar pelas redes sociais.
Tudo isto não tem preço. Apesar de todos termos uma pequena tendência a olhar para os problemas em vez de procurar soluções, tudo isto suplanta largamente o lado negativo da exposição. 
Os agradecimentos dos familiares dos doentes que apenas recebem notícias pelo telefone é outra das sensações que me aquecem o coração. As boas acções da vizinhança do hospital, que nos aplaude todos os dias pelas 21h e se organiza para nos oferecer comida, snacks e bebidas energéticas, são uma lufada de ar fresco no meio desta abafada realidade.
Sabemos que nem todo o ser humano tem um coração decente. Apesar de devermos lutar para que todos sejam respeitados, é garantido que alguém que aproveite esse benefício o vai renunciar na hora de devolver. A justiça é uma ambição tão legítima como utópica que, deixando-se influenciar pelo medo e pela falta de inteligência, pode desvanecer-se até mínimos históricos. 
Mesmo assim, enquanto houver luz é dia. Enquanto houver união, humanismo, respeito e compaixão, somos humanos. Enquanto houver palavras de amor e admiração, palmas sentidas, ofertas dignas e agradecimentos sentidos também há espaço para sorrir.
Enquanto existirem pessoas como vocês, que fazem pender o fiel da balança para o lado mais brilhante e digno de ser pessoa, em vez de ser só gente, vale a pena lutar.
E vale a pena lutar para vos poder devolver uma palavra: obrigado.

Covid-19: preparados para a batalha



Covid-19: preparados para a batalha


Publicado originalmente em www.fernandomiguelsantos.com a 4 de Abril de 2020
Na Suíça, como tenho escrito e comunicado nos meus vídeos, os recursos são enormes. Nos Hospitais Universitários de Genebra, o número de camas de Cuidados Intensivos aumentou de trinta e duas para sessenta e mais tarde para oitenta. O número de intubados por Covid-19 ronda os sessenta pacientes. No Hospital de Nyon aumentamos também o número de camas para mais do dobro. Sem contar com o novo serviço que foi criado para receber doentes ventilados, onde antes havia lugar para sete doentes há agora mais uma box disponível. Todas as oitos estão ocupadas com casos de Covid-19.
Antes do surto, dependendo da carga de trabalho, podíamos ser três ou quatro enfermeiros por turno. Agora chegamos a ser seis ou sete. 
Continuamos a ter de ser comedidos no uso de material, porque a utilização multiplicou-se de forma alucinante. A Suíça tem poder económico para fazer face a estes desafios, no entanto, é a carga de trabalho aumentada que implica que se esgotem os stocks disponíveis, não apenas no hospital, que tudo faz para ter o material necessário, mas também junto dos fornecedores.
Não é por se ser um hospital regional, mais pequeno, que os desafios são diferentes. Da mesma forma que há menos camas e menos doentes, também há mais dificuldades logísticas de espaço e recrutamento, por exemplo. 
Com a antecipação da reorganização dos serviços e com a transformação de espaços ambulatórios em locais apropriados para ventilar doentes que estejam infectados com o coronavírus (ou que tenham outra patologia que necessite de ventilação mecânica), estamos preparados. 
Não é, contudo, motivo para baixar os braços e achar que tudo está feito. 
Metaforicamente, imagine-se alguém que descobre que tem de apanhar o comboio dentro de quarenta minutos. Estando ainda em casa, pode perder o comboio e sofrer as consequências do seu atraso. Assim sendo, arranja-se o mais depressa possível, acelera até à estação e acaba por chegar dez minutos antes do comboio passar. Está preparado, é certo, mas ainda tem de esperar que o comboio chegue e continua a não poder perdê-lo. 
É nessa fase que nos encontramos. Podemos esperar por uma vaga, desejando que ela não aconteça, mas sabendo que lhe podemos fazer frente dentro das nossas possibilidades. 
Nas Unidades de Cuidados Intensivos o cenário é impactante. Muitos doentes necessitam de vigilância ainda mais apertada do que aquilo que é comum. A evolução rápida da doença leva-nos a redobrar a atenção, a gerir a ventilação com mais vigilância e a posicionar muitos doentes em decúbito ventral (para podermos melhorar a relação entre a ventilação e a perfusão dos pulmões).
O pico da curva de evolução da epidemia ainda pode estar longe. As medidas para a população vão sendo tomadas de forma diferente, mais lenta do que em outros países, porque a capacidade de resposta dos serviços de saúde assim o permite.
As palmas que se ouvem diariamente, pelas quais somos agradecidos, devem continuar a ser acompanhadas pela consciência de que o afastamento social é determinante no controlo da pandemia. Aplicam-se multas de sensibilização que, segundo responsáveis políticos, têm a intenção de consciencializar os mais jovens. São multas mais baixas do que em França, por exemplo, mas é provável que venham a ser aplicadas com mais frequência. Servem, maioritariamente, para mostrar que a situação é real. 
Os horários que praticamos nos Cuidados Intensivos são mais duros. Mais horas mensais, mais colegas novos para integrar, mais cansaço ao final de cada turno. A nossa estabilidade física depende também da estabilidade dos doentes. Se eles pioram, nós pioramos. 
Tratando-se de uma guerra ingrata e cega nem sempre sabemos como o inimigo se comporta. Por isso, temos o nosso exército de profissionais de saúde preparado para as batalhas que se avizinham. 
Sabemos que não se trata de um sprint, mas sim de uma maratona. Temos de ter as forças todas unidas para que as batalhas se resolvam a nosso favor. 
O inimigo não mostrou até agora a sua máxima força, mas mesmo assim consegue tomar algumas vidas e desgastar aqueles que o combatem. Bom seria que esse momento nunca chegasse, mas quando chegar, estamos preparados. 
Talvez este seja aquele momento de silêncio que antecede uma investida, mas aqui estamos nós, de armadura esterilizada e conhecimento científico em punho, para combater esta ameaça. 
Link directo para os vídeos: https://linktr.ee/info.covid19

Quem dera que tudo fosse mentira

Quem dera que tudo fosse mentira

Publicado originalmente em www.fernandomiguelsantos.com a 1 de Abril de 2020
Hoje, mais do que nunca, gostava que fosse tudo mentira, que tudo não passasse de uma partida típica deste dia.
Esta pandemia roubou-nos as coisas mais simples, provavelmente as mais valiosas que tínhamos. Não foi apenas a mim que o fez, foi a todos. A mim, levou-me a vida que tinha até há um mês atrás, a quietude, as inquietações corriqueiras… Mais do que isso, levou-me um amigo. 
Muito embora a nossa convivência fosse esporádica tinha-se recentemente acentuado. Era daquelas presenças que damos como garantidas ao longo dos quinze anos de conhecimento. Era daquelas pessoas que consideramos um exemplo de sucesso pela forma digna e esforçada como conduziu a sua existência.
Estes são danos irreparáveis, mas temos algo a fazer contra esta enormidade pandémica que ameaça destruir os nossos laços. Temos um combate a travar, seja pela paciência, seja pela memória.
Presencio com muita regularidade a maior herança que este meu amigo podia ter deixado: os valores que transmitiu aos seus. Vejo o seu espelho no filho, de quem sou ainda mais próximo, e em quem sei que esses valores nunca se esgotarão. 
Nenhuma palavra é suficiente num momento como este. Sei que a minha vida voltará a ser parecida ao que era, mas nunca será igual. Nesse dia, em que possamos deixar de preencher as nossas cabeças com este pesadelo, teremos de levantar a cabeça e tornar-nos ainda mais fortes. Olharemos estas cicatrizes de tantas batalhas e saberemos que estamos mais profundos. Talvez possamos até deixar de ligar àquelas inquietações corriqueiras de antigamente, que agora parecem tão fúteis. 
Nesse dia, podemos ficar perdidos, sem saber o que fazer. É, então, que podemos voltar-nos para os valores que nos foram deixados, aos modelos dignos que nos foram tirados de repente e tentar fazer com que o seu exemplo seja honrado a partir da nossa memória. Sim, memória. Onde ficarão sempre o sorriso e o abraço.

Uma pandemia de estupidez



Uma pandemia de estupidez


Publicado originalmente em www.fernandomiguelsantos.com a 31 de Março de 2020
Pensei que a participação em dois programas da SIC iria facilitar as coisas. Ajudaria mais gente com mais exposição daquilo que se está a passar no país onde desempenho a minha profissão e onde há mais recursos financeiros e humanos do que em Portugal.
Contudo, não foi só isso que aconteceu. Em alguns plataformas de redes sociais começaram a surgir as críticas. 
Estava preparado para que alguém me dissesse que o meu objectivo era o protagonismo. Todos somos protagonistas da nossa vida, mas sabia que essa acusação poderia surgir. Antecipei-a até em conversa com alguns amigos. Porém, não esperava os insultos.
A incredulidade de alguns em relação aos meus alertas, somados à falta de compreensão, à falta de inteligência e à falta de bom senso deram origem a esta estranha e negativa surpresa. 
O objectivo de ajudar aqueles que falam português, seja em Portugal seja na Suíça, acabou por ficar enevoado com indecências, falta de decoro, ignorância e muita, mesmo muita, estupidez. 
Na vida, todos somos ignorantes sobre algo. Ninguém sabe tudo, nem ninguém nunca saberá tudo. Ou seja, ignorantes somos todos; estúpido só é quem quer. 
Este tipo de atitudes não me limitará nos objectivos nem nas minhas práticas. A melhor forma de responder à estupidez é lutar contra ela em silêncio, deixando que o nosso trabalho grite o que nós não dizemos. 
Este texto é uma dessas tentativas. Faz parte do alerta que tenho vindo a partilhar, pois é notório que são o medo, a ignorância e a estupidez os responsáveis por uma parte substancial do crescimento desta pandemia. 
Não quero que este texto seja partilhado. Não quero que este texto dê motivo de satisfação a quem tenta desestabilizar uma luta já de si tão ingrata. Quero que este texto seja lido por aqueles que normalmente me lêem, por aqueles que querem ser ajudados. Do resto se encarregará o tempo, porque o resto é resto e disso não passa.
Obrigado a todos pelas mensagens de apoio. Têm para mim um valor inestimável e são o combustível ideal para quem está longe daqueles que ama. 
Continuarei sempre disponível para aqueles que precisarem de mim, seja numa cama de hospital, seja pela necessidade de esclarecimento. 
Os valores que os meus pais me transmitiram e todos os livros que até hoje li ensinaram-me algo sobre as correntes contrárias: quanto maior é a oposição, mais fortes temos de ser a remar. No fim a corrente contrária passa, mas a força que entretanto desenvolvemos fica para sempre.

Covid-19: Tempo de esperar e cumprir


Covid-19: Tempo de esperar e cumprir


Publicado originalmente em www.fernandomiguelsantos.com a 28 de Março de 2020.
Agora pouco importam as estatísticas, as análises, as origens da pandemia, as análises sistemáticas. Deixemos isso para quem faz ciência, para quem tem o objectivo de tirar as conclusões devidas desta inusitada e revoltante situação. 
Agora é tempo de agir. Tratar aqueles que precisam, tentar minimizar o impacto comunitário da pandemia, tentar que o Mundo possa ser de novo aquilo que gostamos o mais cedo possível…
Será pedir muito que se gaste um pouco de tempo para se ganhar em qualidade? Será que podemos prescindir de alguma qualidade de vida para dar tempo aos serviços de saúde?
Começam a aparecer nomes conhecidos nas nossas unidades, porque o Covid-19 não escolhe apenas desconhecidos. Se o deixarmos percorrer o seu caminho sem acatar os conselhos daqueles que conhecem a realidade do terreno e as provas científicas da evolução desta doença todos teremos alguém conhecido infectado. Um amigo, um pai, uma mãe, um irmão, um filho… Nesse momento, iremos lamentar o facilitismo. Aquela saída desnecessária, a corrida que é uma novidade na nossa vida, uma ida ao supermercado quando não precisamos de comprar nada ou até o aluguer de um cão para poder passear (!). 
Já não somos apenas um país. A globalização transformou o planeta numa superfície única e, neste caso, numa amostra ímpar de quão rápido pode viajar uma epidemia. 
É tempo de ter paciência, de não festejar cedo de mais as pequenas conquistas, de não fazer experiências ou demonstrar aquele rebelde latente que vive em cada um de nós. 
É tempo de esperar, cumprir e ter esperança. 
Para mim, agora, é tempo de dormir. Daqui a pouco há mais. 
Fernando Miguel Santos
Enfermeiro de Cuidados Intensivos
Suíça

Covid-19: um outro Mundo

Covid-19: um outro Mundo







Publicado originalmente em www.fernandomiguelsantos.com a 26 de Março de 2020

Nunca imaginei uma situação assim. Digna de ficção, sem dúvida, mas ultrapassando todos os conceitos pré-adquiridos que temos, aquilo que damos como garantido e aquilo que, eventualmente, ignoramos enquanto benefícios reais nas nossas vidas.
Estava em formação no Hospital Universitário de Genebra quando a má notícia se abateu sobre nós. As projecções indicavam que a Suíça seria atingida pela pandemia de uma forma que não tínhamos podido antecipar. 
O mundo deu várias voltas na minha cabeça. Os planos estabelecidos para os próximos meses, a intenção de me aperfeiçoar enquanto profissional através de treino intensivo, as aulas, as simulações, tudo isso tinha sido cancelado. Necessitavam de todo o pessoal disponível para combater um inimigo silencioso, rápido e forte.
Voltamos todos a ser integrados nos nossos hospitais e nas nossas equipas. Estabeleceram-se planos de contingência, horários cujas planificações possíveis se aproximam da loucura e contratações apressadas de novos enfermeiros.
Um outro Mundo
Hoje, duas semanas depois, o meu serviço está completamente transfigurado. Como o Mundo. Todas as nossas camas estão ocupadas por doentes infectados com o Covid-19, intubados, a desenvolver ARDS (acute respiratory distress syndrome, ou seja, uma inflamação generalizada do pulmão consequente à infecção e à pneumonia bilateral associada) a uma velocidade estonteante. Alguns são obesos e temos de os posicionar em decúbito ventral, ou seja, de barriga para baixo. 
Cinco ou seis pessoas são solicitadas a fazer esse trabalho, mas a força nem sempre chega. Demorámos cerca de uma hora em todo o procedimento.
A ventilação dos doentes é extremamente difícil. A acumulação de líquido nos pulmões e o aumento drástico da resistência associado à diminuição da compliance (medidas físicas que demonstram a incapacidade do pulmão de se distender) impedem o volume de ar pretendido de entrar. A fracção de oxigénio tem de ser aumentada e as trocas gasosas entre o pulmão e a corrente sanguínea diminuem. 
É verdade que isto acontece com algumas gripes. Acontece com vários tipos de pneumonia. E continua a acontecer. Esse é o problema. O Covid-19 não veio substituir as outras doenças, veio acrescentar um problema de gestão de camas de Cuidados Intensivos através dos seus inexoráveis avanços e da rapidez de deterioração dos estados clínicos dos doentes. 
O nosso serviço é hoje considerado zona contaminada. Não entra ninguém externo ao serviço e para entrarmos na mesma porta de sempre temos de mudar de farda e acrescentar batas descartáveis, touca, óculos de protecção estanques e máscaras de altura filtração (FFP2, pelo menos).
Senti necessidade de ajudar para além do meu trabalho com os doentes. A população tem de ser alertada por vozes que estão no terreno, não apenas por analistas distanciados da realidade ou pelos habituais responsáveis que ocupam um gabinete. 
Decidi usar o meu canal de Youtube, outrora destinado a falar sobre viagens, empreendedorismo e a combater a falta de literacia financeira, decorado com alguns momentos de humor e actividades lúdicas, ao combate às fake news e à circulação de falsos testemunhos e inacreditáveis panaceias universais.
Recursos limitados
Penso muito na análise comparativa entre Portugal e a Suíça que fiz no primeiro vídeo. Estava extremamente cansado e irritado, mas sabia que, ainda assim, estava num meio privilegiado em relação ao meu país. 
Em Portugal há imensas falhas de material no quotidiano, mesmo sem que haja ameaças de pandemia. Algumas histórias são públicas, outras circulam apenas nos corredores de cada hospital. O que é certo é que nem todos os portugueses vivem ao lado do São João ou do Santa Maria. Muitos portugueses não vivem próximos de hospitais que tenham condições logísticas para combater este desafio. Imensos enfermeiros e restantes profissionais de saúde são expostos à pandemia sem condições de se defenderem adequadamente. 
A Suíça é um país rico. Tem reservas de emergência e planos de contingência próprios de quem viveu ao lado das duas Grandes Guerras. Mesmo assim, temos de racionar o material e esperar encomendas inimagináveis que nunca chegam na hora que mais gostaríamos. 
Temos as equipas de ética a decidir quem será intubado. Os protocolos de medicina de catástrofe foram assumidos pelo director geral e pelo director clínico, ficando claro que há doentes que não terão a oportunidade que antes teriam. 
Isto acontece devido à enorme quantidade de casos que aparecem todos os dias. Os hospitais cantonais, mais expostos mas com mais recursos, quase triplicaram as camas de terapia intensiva. Os hospitais mais periféricos duplicaram. Ainda assim, todas essas camas não chegam. Os ventiladores disponíveis não são suficientes. Os recursos humanos estão a esgotar-se, quer pelo contágio, quer pelo cansaço extremo, sendo este o maior do problemas que vamos enfrentar. Sem cuidadores não há capacidade de tratamento. Os ventiladores não ventilam sozinhos.
Tudo isto, num país que tem capacidade de subir o rácio enfermeiro/doente de 1:1 com grande reactividade. Em Portugal isso será extremamente difícil.
E se dedicados a um doente que tem de fazer decúbito ventral, com exigência de vigilância permanente, com colegas novos para integrar na equipa, acabamos os nossos turnos desfeitos entre o cansaço e a sensação de que o fim de tudo isto está longe, que será dos profissionais em Portugal?
Fiquem em casa. A vossa protecção é a nossa protecção. A vossa consciência no isolamento social é parte fundamental na atenuação da curva de contágio. Só assim será possível tratar os doentes críticos, voltar a tratar os doentes de todas as outras patologias sem risco de contágio e voltar à vida normal que todos ansiamos e que agora parece digna de um sonho.
Obrigado a todos os que são cumpridores. Vamos vencer, mas antes vamos ter de lutar muito.
Fernando Miguel Santos
Enfermeiro de Cuidados Intensivos
Suíça

Orgulho

A noite nunca é escura de mais para pensar. Os pensamentos podem ser escuros de mais para a noite. Assim como as manhãs cobertas de nevoeiro que todos, receosos, enfrentamos com coragem, assim é cada passo no desconhecido.
Se por um lado o nosso cérebro nos diz que temos de segurar a intenção e ficar, o mundo grita-nos que temos de ir. Quem fica, fica para trás. O nosso mote é andar.
Ficar parado não é só não sair do sítio. É não estudar, é não ler, é não ser cada dia um pouco mais do que na véspera.
Podemos ser piores amanhã desde que sejamos outros. 
Hoje, ao procurar alguns dos posts que o Fiel Depositário me guardou ao longo destes anos, percebi que no meio de alguma anarquia vive a minha memória. 
Quem desejar perceber um pouco mais quem sou, para além daquilo que sou, pode ler este blog. 
Percorri algumas linhas. Não há uma única palavra que me pareça ridícula. Há algumas que são mais jovens, outras mais maduras, mas todas são um peito aberto à realidade. A minha realidade.
Há palavras que me surpreendem até. Talvez para meu próprio bem não devesse tê-las escrito tão cedo, mas as palavras são necessidades. São forças universais que nos usam para se movimentar entre si, que nos convocam para algo que tem tão pouco de esotérico como de terreno.
Somos todos parte da química e da física que nos fazem seres unívocos, mas há algo de divino nestas leis. O divino somos nós e as magias que criamos dentro das nossas limitações. 
Tenho explorado imensos caminhos na minha vida. Por vezes, há um ligeiro cansaço que desperta e me diz que não há problema em ficar quieto. EIs que o ímpeto se revolta e reafirma que quem fica, fica para trás.
Podia mudar algumas formas que delineei nos meus dias passados. Não mudaria conteúdos. Isso sera alterar tudo o que me trouxe até aqui. Como as pausas num texto, as vírgulas, os pontos finais, a gramática, sou o produto de erros, fissuras, hesitações. Para além disso, há o outro lado. As palavras. Sou, definitivamente, o resultado das palavras.
Das palavras que proferi a um doente, das palavras que escrevi num caderno, das palavras que gritei, das palavras que sussurrei, das palavras que gemi…
Aquilo que li mostrou-me um rapaz que às vezes esqueço. Um homem que às vezes esquece que olhar para trás não é necessariamente ficar. Quem fica, fica para trás, mas quem olha para trás tem direito a orgulhar-se do que fez.


Hoje, ao ler-me, senti orgulho. Estou orgulhoso deste homem que fica orgulhoso com aquele rapaz.

A Ode Triunfal "sublinhada" a azul



Passamos grande parte do nosso tempo expostos a desgraças e amostragens gratuitas de violência. Os telejornais são o catálogo perfeito das atrocidades a que o mundo nos sujeita, mesmo que criminalidade seja uma estatística em diminuição ao longo dos séculos. Em horário nobre são transmitidos programas que exibem casais feitos à pressa, relações sexuais separadas do nosso olhar por um simples lençol ou comentadores desportivos que insultam os praticantes da modalidade.

Nada disto é um problema, mas a Ode Triunfal de Álvaro de Campos (Fernando Pessoa) sim. Hesitei em comentar uma estupidez desta dimensão, mas hoje, ao passear numa livraria suíça, comovi-me ao ver estampada na parede a seguinte frase: ““La littérature est la preuve que la vie ne suffit pas” - Fernando Pessoa”. 

Para alguém na Porto Editora não é assim. A literatura tem de ser censurada, porque Álvaro de Campos se deu à desfaçatez de escrever “ linguagem explícita e que se relaciona com a prática de pedofilia”. 

Claramente isto é gravíssimo, principalmente porque sabemos que nenhum dos miúdos ouviu os pais fazer piadas com o Carlos Cruz e o Bibi. É ainda mais graves, porque todos os miúdos em idade escolar têm pais que não chamam “filho da puta” ao árbitro quando este prejudica o seu clube. Além disso, as mães também não vêem os reality shows que mostram as donzelas a trocar de cama e de pénis à velocidade da irreflexão. 
Creio que têm razão. O problema da sociedade, e em particular dos alunos do 12º ano, é a literatura. Ler “Ó automóveis apinhados de pândegos e de putas" e "E cujas filhas aos oito anos - e eu acho isto belo e amo-o! - / Masturbam homens de aspeto decente nos vãos de escada” traumatiza qualquer adolescente. 

Que se refugiem na internet, essa sim é a solução. Até porque todos sabemos que encontrar pornografia é extremamente complicado. Deixem-nos vaguear pelo Instagram, porque lá não se encontra uma única miúda menor a oferecer fotografias sensuais em troca de seguidores, nem sequer pândegos e putas a propagandear uma vida de luxo que não têm, seja com ou sem automóvel.

O importante é proteger os meninos dos perigos das letras e das palavras doutas, deixar ao critério dos professores ler os versos perigosos e defraudar a cultura portuguesa. Como diz a Porto Editora no seu comunicado em que nega a censura, cabe aos docentes decidir ”se têm ou não condições para abordarem os referidos versos com o tempo e o cuidado necessários, uma vez que podem, obviamente, constituir fator de desestabilização ou de desvio da atenção dos alunos.”

Devem estar certos, porque a última coisa de que me lembro de quando andava na escola é de ver os meus amigos a abandonar as bolas de futebol e os telemóveis para poderem ser os primeiros a usufruir dos prazeres da literatura. Voavam papéis na sala e nunca encontrei um único com caricaturas do professor ou versos obscenos para as colegas; era tudo literatura. Em vez de droga, todos sabemos, não há uma escola que não tente combater o flagelo do tráfico da poesia erudita.

Melhor seria queimar todos os livros que falam de ditadura e vê-los eleger déspotas quando adultos. Ou então rasgar todos os textos que falem de violência, acabar com os filmes do mesmo teor e dizer aos meninos que a guerra não existe, que as criancinhas em África têm comida à discrição e deixá-los todos os sábados na catequese para eles saberem que na vida o que é preciso é ser bom. 


Esta última ideia pode ser especialmente produtiva. No seio sagrado da Igreja, pode ser que eles aprendam o que é pedofilia sem terem sequer de ler a Ode Triunfal. 

Guilherme e os Duendes



Decidi escrever um novo conto de Natal. Comecei por libertar aquelas amarras com que, por vezes, tentamos recriar o realismo. Baptizei as personagens com os primeiros nomes que me surgiram e alguns são bem estranhos. Fledik, Yordik, Taldik e Uldrik. Quatro duendes, ajudantes do Pai Natal, que compõem o coro mais bonito que possam imaginar. Neste conto, cantam para Guilherme, o menino que é a estrela da história.
A capa, muito mais bonita do que aquela que eu teria idealizado, foi criada pela Filipa Cardoso. 

Como o Natal não se faz sem amor ao próximo, decidi oferecer metade do valor de capa para o Instituto Português de Oncologia. Faço uso das novas tecnologias e das suas vantagens. Não há intermediários. Há apenas a vontade de ser lido e de dar.
O preço do ebook (livro em formato electrónico) é de 2€, mas o pagamento é decidido pelos leitores. Independentemente do valor que escolheres, apenas 1€ é retido para registo da obra, ISBN e para promover outras actividades relacionadas com a iniciativa.

É uma história pequenina que me deu muito gosto criar. Relê-la, aquando da revisão do texto, foi para mim uma experiência sentimental, apesar de ter sido eu a criá-la e a dar-lhe o fim que tem. 

O Natal também é isto: criar e sentir. 

Para vocês e para o IPO, Guilherme e os Duendes.

Keith Richards e o rock sentimental


O documentário Keith Richards: Under the Influence da Netflix está recheado de segredos e de positividade. Quem diria que a personagem dura que imaginamos está rodeada de amor e que vê o mundo como um lugar mais cor-de-rosa do que o seu consumo compulsivo de tabaco deixaria perceber.
Keith confessa-se às câmeras abertamente. A sua casa deixa de ter segredos, a relação com os restantes Rolling Stones é abordada, mas são sempre os sentimentos a ressaltar. Richards ama o processo criativo. Gosta de ir para estúdio fazer experiências, reutilizar temas, explorar possibilidades. Esta é a massa de que os génios são feitos. Os génios são assim não porque não errem, mas porque sabem errar mais vezes e melhor. 
Acabei o documentário comprando o seu álbum de originais, Crosseyed Heart. A voz dura consegue ser melodiosa. Os gritos da sua guitarra são sussurros e afagos. Arriscaria a dizer que está ali um avô guitarrista de que gostaríamos, não fossem os relatos dos episódios com os Rolling Stones e a fama estratosférica. 

Este documentário foi o primeiro da Netflix a surpreender-me através da vida de um músico. A segunda vez está relatada no artigo Anitta e a ética de trabalho. Aproveitem os dois textos para ter um prenúncio daquilo que podem encontrar e cujas surpresas tão bem nos fazem sentir. Como se pedras rolassem nas nossas costas, aquecidas e relaxantes, ao ponto de nos renovar a esperança no Homem. 

Palavra de uma gravata



Conheço gente boa que cometei erros e cumpriu pena de prisão. Conheço muita gente de fato ou farda que não é boa companhia nem para o cão. Conheço pessoas inteligentes que fumam droga. Conheço vegetarianos que são autênticos imbecis. Conheço escritores a quem custa escrever. Conheço gente que escreve que acha que é escritor. Conheço músicos com carreiras estagnadas que não se sujeitam a nenhum desafio. Conheço músicos de renome que comem frango a tour toda e já fizeram concertos em cima de grades de cerveja.
Criticar é sempre mais fácil do que fazer e, quando se faz, a imitação continua a ser a opção para todos aqueles que preferem o facilitismo à originalidade.

Os gostos vão para além da atestação da competência. Gostar ou não do que alguém faz é completamente diferente de reconhecer se o que faz é bem feito. Temos ainda a possibilidade de não gostar e não perceber por que razão muitos outros gostam, mas nesse caso, como acima, veremos que há algo que temos de reconhecer como sendo bem trabalhado.
É assim no caso de músicos, escritores, apresentadores de televisão, cineastas… Também é assim em profissões menos artísticas. Podemos detestar a abordagem de um qualquer advogado, mas se ele cumpre os prazos, evita litígios e ganha processos em tribunal é competente. 
É muito frequente vermos este tipo de atitude nos cirurgiões. Alguns têm um complexo de Deus demasiado engrandecido por lidarem directamente com vidas humanas. Não nos esqueçamos, contudo, que os há tanto excelentes como péssimos. Em ambos os casos, a percepção dos que os rodeiam é, não raras vezes, de assombro pelo mau feitio e pelo ego desregulado. Apesar dessa semelhança, os excelentes cumprem os preceitos da competência como poucos.
Da mesma forma que a maioria apregoa que não se deve julgar um livro pela capa - apesar de ser a capa que mais incentiva os debutantes às leituras mainstream - também não se deve julgar as pessoas. 

Neste preciso momento, escrevo no avião. Faço vários voos por mês por razões profissionais e costumo viajar ora de cap ora de gorro SEW, a nossa marca de headwear. Desde 2015 que uso este tipo de acessórios. Servem de protecção ao frio a que a minha calvície me expõe e aproveito para fazer publicidade ao que é nosso. 
Há momentos em que o uso de cap, mais do que o gorro, me traz algumas dificuldades. Há bares onde não se entra de cap e há mais probabilidade de ser controlado no aeroporto. Noutros momentos as vantagens são notórias. Menos pessoas me pedem dinheiro na rua e quando tenho de me impor sou ouvido com outro cuidado. 
Qualquer das situações apresentada consiste num estereótipo que não se combate facilmente. Pior, com a habituação acabamos por não combatê-lo de todo. De outra forma estaria a explicar a toda a hora que estou longe de ser um indigente e que tenho mais trabalho do que alguns dos senhores de fato que recebem sorrisos. 

Não me interpretem mal. Também adoro usar fato. Sou tão eclético na roupa como em qualquer das minhas experiências. Só acho estranho que a sociedade esteja pronta a impingir-nos um conceito baseado num acessório.
Quando ainda tenho o cap na cabeça e me levanto para ir buscar o computador à bagagem apercebo-me de alguns olhares de admiração. De repente, sou outro apenas porque escrevo num MacBook Pro. 
Perceba-se que quem o faz é quem vota. É quem desconfia de um cap mas aceita passivamente todas as palavras de uma gravata - ultimamente prefiro laço - que acaba por eleger populistas desbocados pelo mundo todo ou deputados de extrema-direita na Andaluzia.

O perigo de ser um homem heterossexual



Ser um homem heterossexual está a ficar cada vez mais perigoso. Temos de ter cuidado com as auto-declaradas minorias, cujos membros mais exaltados querem ser respeitados da forma que acham que devem ser respeitados. Digo auto-declaradas pois, apesar de não ter estatísticas suficientes para falar de números sobre a comunidade LGBT, todos sabemos que há mais mulheres do que homens neste planeta. Em caso de dúvida, consultem a definição de minoria.
A questão do assédio sexual está por todo o lado como se fosse uma bandeira nacional e as vozes que apregoam este problema transformaram-se num hino de incentivo ao combate à discriminação. Não há uma réstia de misoginia neste texto. Trata-se apenas de uma constatação de princípios.
O problema da discriminação existe, tanto nas questões de género como nas raciais, mas tem de ser tratado com a seriedade que exige. O folclore que se criou apenas desvaloriza o papel das minorias e das mulheres quando analisamos os contornos do assunto. 
Convido-vos a analisar comigo algumas situações. Cito nomes de figuras públicas e escondo os nomes dos envolvidos em outros casos. Pouco importa. O politicamente correcto transformou-se numa seita fundamentalista tão poderosa quanto qualquer outra.

Park Dae Sung

Park Dae Sung, lutador de MMA, foi acusado de assédio sexual pelo que fez neste vídeo . Os factos não mentem. O que podemos ver é um lutador vitorioso que abraça pela cintura uma promotora que está no ringue para ser fotografada com ele. 
Não posso censurar a sua reacção numa outra ocasião . Evitou o contacto e boicotou a fotografia. Pode, eventualmente, ter sido excessivamente zeloso das duas vezes, mas uma mulher que aceita ser paga para ser fotografada em roupas reduzidas ao lado de lutadores carregados de testosterona depois da sua vitória tem de saber que a sua opção inclui algumas contingências. Dirão os fundamentalistas que ele não lhe devia ter tocado. Talvez. Daí até ao assédio sexual vai um longo caminho.

Cristiano Ronaldo

Cristiano Ronaldo foi acusado de violar Kahtryn Mayorga. Não precisamos de vídeos neste caso. Há uma mulher que aceita o jogo de sedução, que aceita ir ao seu quarto, que pratica vários actos sexuais consensuais, que sabia da existência de outras pessoas no quarto e que, alegadamente, volta para a discoteca. Volta a ter problemas psicológicos quase uma década depois, apesar de ter assinado um acordo financeiramente vantajoso. Não há mais nada que possa dizer sobre isto.

Algumas figuras públicas dos movimentos contra o assédio sexual têm um comportamento semelhante. Quase como no caso de Renato Seabra e Carlos Castro, deixaram que a situação evoluísse até um momento incomportável, mas durante o processo beneficiaram com isso.
Não nego a existência do assédio, nem os casos de importância maior, mas há um nítido efeito de aproveitamento que me leva a pensar que é possível subir na horizontal para depois, do alto da notoriedade, dizer que não era assim que devia ter sido. 

Redes Sociais

Tenho imensos amigos que trabalham com as redes sociais. Os seus contactos multiplicam-se com o objectivo de aumentar o alcance das suas publicações. Eu mesmo o faço. Fá-lo-ei até com este texto. Com a disseminação do politicamente correcto, alguns profissionais vêem-se condicionados aos pedidos de amizade sob pena de lhes serem apontados comportamentos inadequados. Se convidam uma mulher para gostar duma página isto consiste, na opinião delas, um interesse e um desrespeito em relação às suas esposas. No meu caso, como no deles, o que queremos é que elas abram a carteira, não as pernas. 

Por outro lado, as redes sociais deram origem a uma nova profissão: as mulheres que vendem a imagem do seu corpo. Até aqui tudo perfeito. Estamos no domínio do interesse pessoal. Cada um faz o que bem entende. Entretanto, nascem posts de emancipação justificativa. “Não sou puta, só vendo a minha imagem.” Talvez seja verdade, mas todas as nossas acções têm consequências. A liberdade existe para quem se exibe, como para quem acha que isso é vender o corpo. Penso que quem se masturba na internet a troco de um carregamento de telemóvel ou quem promete fotografias explícitas em troca de um pagamento PayPal tem todo o direito de o fazer, mas tem de saber que ao fazê-lo se sujeita a comentários desagradáveis de quem também é livre para se exprimir. 

Liberdade de expressão segundo Ricardo Araújo Pereira

Quanto à liberdade de expressão, deixo-vos com esta declaração de Ricardo Araújo Pereira. Sublinho, em total concordância, que enquanto é discurso e não acção, não deve haver penalização criminal. Vejam, por favor, a parte em que o Ricardo fala de um hipotético assédio às filhas. É um pai que fala, mas é, sobretudo, um pai inteligente. 

Hormonas

Dei aulas numa escola profissional. Os meus alunos estavam em plena adolescência e fui avisado pela directora sobre uma determinada turma. Determinado (ou imbecil) que sou, escolhi logo essa para o rol de turmas que tinha atribuídas. 
Apercebi-me logo que as hormonas presentes numa sala de aulas onde só existia um rapaz seriam um problema a gerir. Um certo dia, após inúmeros comentários sobre o meu rabo a cada vez que escrevia no quadro, tive de tomar uma atitude. Primeiro tentei ignorar, depois chamar a atenção e acabei por não poder tolerar mais e expulsei a aluna da sala. 
Fui chamado à direcção no intervalo seguinte. A aluna fez queixa à directora dizendo-lhe que eu a tinha convidado a tirar fotografias nua. Não respondi sequer, não fiquei aflito, não receei perder o emprego. Fiquei apenas surpreendido pelo maquiavelismo de alguém com dezasseis anos. A directora, depois de me relatar toda a queixa disse-me: “Eu bem te avisei…”.

Hoje, ser homem heterossexual é perigoso. Ser homem heterossexual sério é ainda mais perigoso, porque não há defesa possível para quem não tenta ser diferente. Não há cartazes que se possam levantar em defesa de algo que é assim apenas porque é. 
Hoje, ser livre para expressar os seus pensamentos também é perigoso. Ironicamente, é menos perigoso para os membros histéricos das minorias que têm o apoio da comunicação social sensacionalista.

Hoje, ser apenas uma pessoa, com defeitos e virtudes, com inseguranças e ambições, com medos e sonhos, mas com liberdade para se manifestar e interagir com os outros é uma ousadia.

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O Pista de Aterragem, blog e canal de YouTube, foi transformado temporariamente numa plataforma de partilha de informações sobre o Covid-19....