Antes quebrar que torcer

Um certo enfermeiro, cujo anonimato mantenho pelo óbvio, disse-me um dia ter um tipo de postura que se diferenciava da dos outros. Respondi eu que isso só lhe traria olhares indiscretos, palavras escondidas, recantos com segredos e neles sempre o seu nome. Concordou. No entanto, provou-me mais tarde ter consciência de tudo isso e, note-se, transformar em prazer o que as mãos que tapam as bocas que falam pensam ser crítica fundada.
- Sabes o que gosto mais do que o corta-corta? O quebra-quebra!

Sem volta (a dar)

A propósito de 100 Volta, o novo filme português, repete-se a história da dependência que o nosso cinema tem de dar nas vistas pela força das imagens. Por meu lado, sendo sincero, orgulha-me que o meu país aceite filmes quase explícitos, orgulha-me que haja mulheres suficientemente bonitas para os protagonizarem e realizadores satisfatoriamente corajosos para os dirigirem. No entanto, já não é orgulho, mas sim vergonha que sinto quando olho para os argumentos, saídos, aparentemente, de um buraco negro. Sexo sim, mas não apenas isso. Corpos nus também, mas que não sejam o mais importante. Afinal, aquilo que devia ser puro prazer e acto decorativo para o espectador passa a ser razão para se deixar de gostar do cinema português ou de passar a gostar pelas razões erradas.

Jason Mraz

Marcado pela espera e pela falta de provisões, por quebras de tensão e por momentos absolutamente idílicos, o concerto de Jason Mraz no Coliseu do Porto, com uma banda norueguesa e outra britânica como brinde, superou todas as minhas expectativas.
Se se pensa que ter um preto com rastas e óculos de sol a tocar uma imensidão de instrumentos de percussão e um havainano a tocar outros tantos de sopro é incomum, então fale-se de ter sido o próprio Jason a tirar fotos numa Polaroid e a enviar para o público, de ser ele o apresentador das duas bandas que o precedem, de ser ele a alma pura e dura do espectáculo...
Falar-se-á, garanto, por muito tempo... Pelo menos, a dois.

O futuro nas efemérides

Há cinco anos atrás nascia este pequeno grande espaço onde largo pedaços de mim e momentos do tempo, como se se tratasse de uma memória, só minha e, simultaneamente, colectiva. Sete de Março. Desde esse dia, somos dois.
Desde o primeiro dia de Janeiro, somos três, contando com o novo site, discípulo do Fiel Depositário.
Sensivelmente desde as 3h10 de hoje, somos quatro. Sete de Março.

Contágio de cores

As máscaras caem, mas o Carnaval é quando um homem quiser. Há quilómetros a percorrer, há horas a passar, há tempo a dispensar e há que viver como se quer. Afinal, o Carnaval de Ovar não tem só três dias e, veremos, a vida pode não ter só dois. O ditado que nos leve a pensar assim e que nos permita que não os desperdicemos, pois isso é o mais importante.
Depois dos dias de folia volta a tempestade da vida diária e, por certo, nada será igual, porque a cada dia mudamos, a cada dia somos alguém novo, só guardando a matriz que nos constitui.
O Carnaval não é senão uma metáfora da vida onde também temos momentos em que nos sentamos na beira do passeio, como num apagão, e queremos não falar, não ouvir, não mexer, mas que descobrimos que há alguém que fica ao nosso lado o tempo todo e que quer que o façamos e acaba por nos levar a reagir. Estes são aqueles a quem um obrigado basta, mas não devia. Mais seria merecido.
É na vida, também, que queremos dar mapas para sermos descobertos, a medo, com receio da mudança e daquilo que os outros possam pensar, com ansiedade por temermos a mudança de opinião da nossa parte ou de quem nos rodeia. E é no Carnaval que temos de mergulhar numa multiplicação de cores, de cabeça, para que a nossa vida seja, por contágio, colorida pelas mesmas tonalidades que sempre vimos nesta grande festa, mas que nunca discernimos ser possível trespassarem o nosso dia-a-dia.

Orgulho

A noite nunca é escura de mais para pensar. Os pensamentos podem ser escuros de mais para a noite. Assim como as manhãs cobertas de nevoeir...