O caminho

Acabo de ler um e-mail de alguém que prezo que contém uma opinião em relação ao meu romance Aldeia de Luz. São críticas fortes e específicas dirigidas a personagens, condução da narrativa, entre outros. Como não podia deixar de ser, na minha noção optimista da questão, servem-me de incentivo e conselho para o desenvolvimento da minha escrita e, acima de tudo, para a forma como guio as histórias que tenho o prazer de criar. Embora sejam algo cruas, estas críticas, servindo de íman para a realidade, permitem uma noção mais consciente daquilo que é a verdadeira excelência e, se possível, de como esta há-de ser atingida.

Um prato que se serve frio

Meses depois, a revelação do texto anunciado:

Agora que há história para contar seria desleal relatá-la. Resta-me este pequeno post para esvaziar aquilo que podia ser esvaziado com dois punhos na parede. Não o faço porque os meus punhos merecem melhor sorte e a causa não merece a sua dor.
Don Corleone, após lhe ter sido morto o filho mais velho, fez a paz com as outras famílias sicilianas que controlavam o submundo de Nova Iorque. O seu consiglieri que esperava uma retaliação vingativa contra os culpados, membros de algumas dessas famílias, ficou estupefacto. O líder disse-lhe que Michael, o seu filho mais novo, tinha de voltar são e salvo da Sicília onde se tinha escondido. Para isso era necessário um requisito indispensável: paz. Sem paz, Michael seria presa fácil. Com Michael em segurança, aí sim, tratariam da vendetta.
Em suma, Don Corleone precisava dos homens que tinham morto o seu filho. Quando isso deixasse de acontecer, que Deus protegesse as suas almas…
Fernando Miguel Santos
Viseu, 1 de Fevereiro de 2008

E fez-se luz...

Há um processo mental que gosto de construir com quem lê aquilo que escrevo. É um processo revelador, algo intimista, que mostra aquilo que quero dizer de uma forma mais ou menos velada, como se eu não pudesse – e às vezes não devo, apesar de poder – referir-me ao assunto directamente.
É isso que faço quando guio a imaginação de alguém, para que nomes, pessoas, presenças, não adulterem o objectivo ou a conclusão a que quero levar a quem me lê e quem me ouve.

Eis que o faço também agora:

Imaginem-se dentro de um quarto escuro. Sabem, de memória, a disposição de tudo o que está no quarto, o sítio das mobílias, as arestas das paredes… Já houve luz neste quarto e durante tempo suficiente para se poder, agora, reconfigurar mentalmente tudo o que foi engolido pela escuridão. É isto dia após dia, sabendo que há uma luz que aparece, uma vez por outra, em locais diferentes. Antes, todos tinham luz, mas foram-se apagando gradualmente, como se um tivesse de ser melhor que o outro. Tentaram levar a sua luz alto, o que por si só não é censurável. Mas quando uma luz é esforçada por motivos que não são os mais correctos tem tendência a fundir. E o quarto ficou escuro…
Um dia podem sair. Houve mais, há-os quase regularmente, e a vossa disposição é sempre boa. Há mais quartos, portanto, e com mais luz, mas é mais raro poder estar neles. Nesse dia, podem sair. Viajam, com memória na máquina fotográfica e no dedo que carrega na tecla para escrever e na mão que pega na caneta e na cabeça que grava para rever… E na voz, sobretudo na voz, que grita inaudível que quer mais luz do que aquela que lhe é dada a ver diariamente.
Chegam. Um novo quarto, mas por tempo limitado. Um monte de conversas novas, uma exacerbação de luz espectacular, uma visão que, se fosse possível gravar seria o filme de sempre. Não o maior de sempre, mas sim o de sempre. Não um filme, mas sim o filme.
O quarto mostra-se. Gente que brilha encontra-se sentada nele. Um aqui, outros ali, todos para o mesmo. Luz.

Foi assim, para mim, em Vila Real. Ninguém me conhecia verdadeiramente, mas senti-me bem. Afinal é fácil. Basta carregar no interruptor. Mas porque não fazem todos isto diariamente. Eu, por mim, acordo e digo:

- Faça-se luz!

Sobre patins

O Europeu de Show e Precisão de 2007, no Porto (aquele mesmo europeu de patinagem de que ainda tanto falo) deixou algumas lembranças que um ano mais tarde consegui manter. Continuo a falar com alguns atletas que, ao lembrarem o Europeu da Alemanha que se aproxima, despertaram em mim um desejo de os visitar, de ver aquelas caras de novo, de assistir ao ascender de um submundo que felizmente o é, porque se não fosse todo o sentimento que o envolve poder-se-ia perder...
Por enquanto, fico-me pelo desejo de grande sucesso para esses amigos instantâneos como as Polaroid, por serem de grande qualidade, mas que nunca acabam, ao contrário destas máquinas.
Que se lembrem que, antes da competição está o riso e antes da medalha está a diversão. Pensando assim, o regresso com a vitória no bolso talvez se torne mais fácil.

Fujo logo existo

É quando nascem as questões que nós notamos que elas existem, embora já saibamos, de antemão, que elas estão ali.
Desde há alguns anos a esta parte tenho vindo a manifestar o meu desagrado contra as opiniões que não divergem, contra os rebanhos que se criam entre as pessoas, contra aqueles que optam irreflectidamente só porque o do lado optou assim.
É nesta altura que sinto, mais do que nunca, que muito pouca gente percebe isso. Limitação ou não, querem fazer crer que nada as preocupa e levam aquele tipo de vida que todos nós censuramos mas à qual a maior parte cede.
Sinto que cada vez menos gente entende o que quero dizer. O meu tom jocoso e as minhas brincadeiras cada vez são menos tolerados. Há mais olhares transviados, mais sensações de hipocrisia latente, mais desvios inconsequentes, mais tentativas de molde…
Às vezes penso do que seria de mim sem este ego, aquele que todos conhecem. Sem aquela forma de enfrentar as coisas disposta a combater, sempre. Aliás, disposta a fazer valer convicções das quais não prescindo.
Tendo a encarar isto com alguma presunção. Entendo-o como um sinal de afastamento do rebanho. Talvez tenha chegado a hora de tentarem iludir-me que o caminho melhor é ao lado dos outros membros, obedecendo ao ladrar do cão pastor, tendo de partilhar as mesmas ideias, os mesmos comportamentos. Ter os mesmos gostos, ver o mesmo quando se olha…
E, por outro lado, sinto a admiração de algumas pessoas ser cada vez mais intensa. Pessoas que conheci de outra forma, outras que estão longe, até fora de Portugal, expressarem conhecimentos de mim que não sabia ser possível terem. Vejo que admitem erros, admitem falhas, sem procederem àqueles olhares mesquinhos…
E aqueles que sempre aqui estiveram, que criticam quando lhes compete e se aplica, que levam as minhas críticas nas mesmas circunstâncias, mas que acompanham. Aqueles que se privam para eu ter e me levam a desejar fazer o mesmo. Aqueles que não precisam de falar para eu ouvir e para os quais basta um olhar meu para fazerem a pergunta certa. São menos, mas mesmo assim não são poucos.
Admito alguns enganos. Fui, até, ingénuo em algumas esperanças, fruto do optimismo. A avaliação correcta do carácter já a tinha feito, o desvio, ou a percepção deste, é que esperava que não se traduzisse na realidade.
Nada lamento, contudo. Tenho a noção que é assim que se aprende. E quando eu chegar lá, onde quero, talvez o rebanho já cá não esteja e não possa, também, aprender.

Orgulho

A noite nunca é escura de mais para pensar. Os pensamentos podem ser escuros de mais para a noite. Assim como as manhãs cobertas de nevoeir...