Receita Fascista

A fórmula é sempre muito semelhante. Revê-se na História e é por isso que devemos analisá-la e compará-la.

Tudo começa num movimento pequeno ou numa figura menor. Vai-se acrescentando pequenos traços carismáticos e um discurso acutilante, próprio de quem aparentemente sofre com as massas. Aqueles que guardam rancores antigos e se sentem ostracizados e revoltados pela falta de oportunidades começam a ouvir este novo líder, com voz forte, que está a dizer exactamente aquilo que eles querem ouvir e as angústias que eles também gostariam de gritar.

Juntam-se uns pós de misticismo. Deus, a Natureza, uma Força, a Fé. É o lado messiânico da fórmula. Afinal, estamos perante um Escolhido, que veio para salvar. Um Libertador. 

Depois inicia-se a propaganda. Umas camisas de cores iguais (ora castanhas, ora pretas, ora amarelas), uns panfletos, grandes manifestações populares, marchas. 

Para haver mobilização massiva dos crentes há que focar a raiva latente num inimigo público. Pode ser a elite, os ricos, os comunistas, os pretos, os imigrantes, os judeus. 

Um atentado dá muito jeito. Pode ser um tiro no nariz, um tiro de raspão numa acção militarizada que partilhamos com antigos membros do exército ou uma facada durante a campanha eleitoral. Aqui, tem de se misturar tudo muito bem com o misticismo. A resiliência de quem continua após um atentado faz fermentar o Messias. 

Como cereja final, o discurso começa a propagar-se entre os apoiantes, o tom sobe e já nem é preciso controlá-lo. Basta que se faça barulho, que mexa nas águas mais paradas, que se use a desventura dum povo, a conjuntura económica ou a corrupção do passado para justificar a dureza das palavras.

No final, elegemos um cognome.


Il Duce, Der Führer, O Mito.

Métricas


Ser trabalhador é bom. Ser consistente é óptimo. Cumprir objectivos é sensacional. Mas há perigos nas métricas.
Quando estabelecemos aquilo que queremos atingir fazemo-lo de forma fácil. A ideia pode estar já na nossa cabeça, percorrer o nosso inconsciente e a decisão acaba por ser imediata. A colocação em prática é sempre a parte mais difícil. Sabemos que temos de ter força para começar e aumentá-la para manter os nossos padrões. É por isso que nos servimos de métricas.
Para escrever um livro podemos definir o número de palavras; para vender um produto definimos o número de vendas que nos dará lucro; para viajar definimos o número de cidades que queremos ver e, nelas, os monumentos que queremos visitar.
E se tal não se der? É aí que entra a angústia. A sensação de ter falhado. Não damos espaço para o improviso, para o expontâneo. Não cedemos à novidade e podemos, por isso, perder até algumas das maiores vantagens de sairmos do sítio.
Ter métricas não é, por si só, desvantajoso. Pelo contrário, elas podem ajudar-nos a chegar onde queremos.
Ser dependente das métricas, isso sim, é péssimo. Devemos fazer o que queremos, o que gostamos, como gostamos e no tempo que nos aprouver. Podemos ter de cumprir prazos, é certo, mas devemos cumpri-los à nossa maneira.
Não há fórmula que se aplique a nós. Existem apenas os nossos meios, as nossas ideias.
É preciso concretizar, mas também é preciso ser livre.
Afinal, há sempre um destino, mas o que conta é a viagem.

Somos só isto

É a arte que nos diferencia. É a arte que nos une. Somos mais perfeitos na nossa imperfeição quando nos mesclamos com o fruto daquilo que somos e nos aumentamos pela soma daquilo que nos transcende. 

Somos mais verdadeiros, mais nocturnos mas mais solares, mais terrenos e celestes. Somos mais. Repetimos vez após vez o que ouvimos, centramo-nos nos quadrados que nos desenham no crescimento, sobrevivemos com regras que nunca chegaremos a conhecer e, então, chega a arte. 
Perde-se o horizonte e as colunatas do ringue em que somos travados e levanta-se um vento forte que desafia as estruturas. Afastamo-nos de nós quanto mais nós nos tornamos. Passamos a ser um eu menos próprio e de uma presença mais distante. Sentimos o vigor do desconhecido na segurança que nos dá sermos inseguros.

Choramos, porque o Homem não chora; sorrimos do funeral quotidiano; voamos sem asas, porque foi com as que nos deram que caímos. Renascemos e choramos de novo, festejamos a morte daquele que somos ser. Desdenhamos do objectivo, da pauta, do metrónomo, do tempo, do esquadro. Cuspimos na hipotenusa enquanto a penetramos em honra de Pitágoras. Viramos as costas a Galileo, porque o sol está cá dentro, e evitamos os que acham que têm o sol dentro de si. 

Somos só isto. 

Vídeos sobre Covid-19 no canal Pista de Aterragem

O Pista de Aterragem, blog e canal de YouTube, foi transformado temporariamente numa plataforma de partilha de informações sobre o Covid-19....