Somos só isto

É a arte que nos diferencia. É a arte que nos une. Somos mais perfeitos na nossa imperfeição quando nos mesclamos com o fruto daquilo que somos e nos aumentamos pela soma daquilo que nos transcende. 

Somos mais verdadeiros, mais nocturnos mas mais solares, mais terrenos e celestes. Somos mais. Repetimos vez após vez o que ouvimos, centramo-nos nos quadrados que nos desenham no crescimento, sobrevivemos com regras que nunca chegaremos a conhecer e, então, chega a arte. 
Perde-se o horizonte e as colunatas do ringue em que somos travados e levanta-se um vento forte que desafia as estruturas. Afastamo-nos de nós quanto mais nós nos tornamos. Passamos a ser um eu menos próprio e de uma presença mais distante. Sentimos o vigor do desconhecido na segurança que nos dá sermos inseguros.

Choramos, porque o Homem não chora; sorrimos do funeral quotidiano; voamos sem asas, porque foi com as que nos deram que caímos. Renascemos e choramos de novo, festejamos a morte daquele que somos ser. Desdenhamos do objectivo, da pauta, do metrónomo, do tempo, do esquadro. Cuspimos na hipotenusa enquanto a penetramos em honra de Pitágoras. Viramos as costas a Galileo, porque o sol está cá dentro, e evitamos os que acham que têm o sol dentro de si. 

Somos só isto. 

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