Carta Aberta: um obrigado sentido!

Escrevo estas palavras como se de uma carta aberta se tratassem. Escrevo-a sem destinatário, como um cheque ao portador, podendo os fundos que as palavras escondem ou mostram ser depositados sob qualquer forma.
Durante a minha vida tive a perspectiva de que é nos momentos altos que devemos olhar para trás e vislumbrar as dificuldades que até este momento nos trouxeram. Sempre sorrindo. E é perante esta retrospectiva que sinto a necessidade de apresentar estas palavras a quem as queira ler, independentemente da proximidade que entre nós exista.
Tenho plena noção de que este é um dos textos mais íntimos e reveladores da minha natureza que alguma vez escrevi. Mais directo, ainda, porque escrito como se de uma carta se tratasse e usando uma oralidade própria da tradução escrita de uma conversa cara a cara.
Durante dias que se tornaram semanas, que por sua vez se tornaram meses, vivi sem um rumo profissional que me agradasse. Durante muitos meses vi serem-me apresentados caminhos que não eram os meus. Durante imenso tempo, vi serem-me oferecidas propostas que em nada me satisfaziam ou realizavam. Nada se disso me marca com profundidade. É a natureza do nosso sistema económico e da conjuntura da maioria dos países, sendo que o nosso pequeno cantinho persiste em ficar na cauda de todas as listas dos melhores indicadores.
Contudo, durante todo este moroso processo de adaptação a uma realidade a que não estava habituado, plantou-se a dúvida. Em mim, ela aparecia com alguma regularidade. Nunca foi expressada com veemência – excepto aos mais próximos – por força do meu ego, que acabava por, com a ajuda de todas as restantes actividades a que me proponho, conseguir debelar a erva daninha que começava a brotar.
Existiram, no entanto, vozes que se insurgiram: umas alertando-me, algo que agradeço de facto e com toda a sinceridade; outras apontando dedos e defeitos, algo que não deixo de agradecer com igual sinceridade.
Senão, vejamos: é do senso comum que a diversidade é algo de que nos podemos orgulhar. Para determinado potencial atingir o seu real valor, é necessário existir algo que o contraponha. O branco tem o preto, a terra tem o céu, a mulher tem o homem, os estúpidos têm os inteligentes, os parvos têm os sãos… No fundo, é assim que o equilíbrio que procuramos diariamente acontece.
Daí que, da minha parte, surja um agradecimento sentido a todos aqueles que, das mais variadas formas, tentaram entorpecer ou travar o meu desenvolvimento, ou até mesmo injuriar as minhas opções de vida. Duma vida que é minha, note-se.
Houve quem trocasse as palmadas fortes e sentidas por ligeiros toques semelhantes a esmolas, quem trocasse abraços por ligeiros acenos, quem trocasse momentos ansiados com protagonistas especiais por momentos fúteis com pessoas que antes suscitavam insultos da mesma boca, quem me acusasse directamente de não ter ambição e objectivos a não ser permanecer naquele limbo...
Valha a verdade que houve quem mais tarde se redimisse. Mas para haver redenção, tem de haver pecado.
Não me cabe redigir aqui a lista daquilo que mantenho como actividades regulares, dos objectivos a que me propus já cumpridos ou das minhas (imensas e fortes) ambições futuras. Apelo apenas em honra à dignidade daqueles que a perderam no momento em que atentaram contra a minha.
Em suma, o meu agradecimento é dirigido a todos, sem excepção, quer pelo apoio quer pelas contrariedades. O apoio por ser mais do que uma necessidade e porque, agora, sei de cor onde o encontrar. As contrariedades porque sem elas, sem alguém que deseje ver-nos escorregar, tudo tem um sabor mais ténue.
Afinal, todos os pecados são perdoáveis. “Perdoai-os Senhor, pois eles não sabem o que falam”, disse Cristo. E mesmo que soubessem, pediria o mesmo perdão com a mesma intensidade…
Por isso, muito obrigado!

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