Dom Porto, um caso exemplar




O nosso governo defende, alegadamente, a iniciativa privada. Até aí, nada contra, uma vez que é direito de cada um dos cidadãos poder promover o seu próprio emprego e o de terceiros. No entanto, subverte-se a lógica da intervenção privada na economia nacional quando se preferenciam os grandes grupos económicos.
Decidi, pela injustiça que este retrata, relatar um caso que me fez reflectir acerca de um pequeno pormenor, rodeado de tantos outros.
O restaurante Dom Porto, sito no famigerado Cais de Gaia, fez fama pela sua gastronomia. Em tempos de ouro teve enchentes, ganhou prémios, mas a crise é como o sol e também nasce para todos.
No entanto, a crise é, por vezes, criada por alguns, vivida por muitos e, pasme-se, usufruída até por uns poucos. Daí que as decisões tomadas em sede governativa não tenham amiúde a consciência do que se passa no plano social, no rés-do-cão do país.
E, então, para auxiliar um meio em perigo e para revitalizar a restauração, um dos sectores para onde tende o know-how nacional, o que faz o nosso governo? Aumenta o IVA.
Ora, pode-se argumentar que fazer refeições fora de casa é luxuoso, que pode ser facilmente contornado e tudo isso é legítimo. Mas, na verdade, não são os clientes que suportam esta diferença de impostos.
Por detrás da imagem de um restaurante, também estão pessoas que comem, que pagam luz, água e telefone e que o fazem tanto em sua casa como no restaurante. Por detrás de qualquer negócio está alguém que se rege pelo princípio por que todos nos regemos: ganhar dinheiro, para poder ter dinheiro e poder usar esse dinheiro para pagar contas e investir.
Eis que chega o governo e diz que a tributação de valor acrescentado aumenta drasticamente. Os proprietários defendem-se mantendo os preços e suportando a brutal diferença. Os clientes, por sua vez, desaparecem. Estão inundados de notícias sobre o aumento dos preços da restauração e evitam-na como se de uma doença contagiosa se tratasse.
No Dom Porto é também assim, com uma pequena diferença: lá, dói mais. Porquê? Porque o que nos servem é tão bem criado e tão cuidado que não há forma de não nos sentirmos agradecidos e ainda pagarmos no fim com um sorriso nos lábios. Aliás, de bom grado deveríamos pagar também a diferença do IVA, mas eles preferem suportá-la por nós e deixar-nos abandonados aos prazeres da língua.
Dói mais porque o melhor dos bifes folhados, o bacalhau com broa, o polvo terno e suculento, a posta macia, as gambas ao alho, enfim, os segredos que emanam daquela cozinha deveriam vencer qualquer adversidade.
Vencem o cepticismo do nosso palato, vencem as contingências típicas do pagamento, mas podem não vencer as atrocidades que o nosso governo pratica.
E hoje, mais do que nunca, precisamos de lugares como o Dom Porto, para que o nosso ânimo, que ainda não é tributado, possa manter-se em boa forma.


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