O amor mede-se, primeiro, no pouco

É provável que ela não saiba o quão importante é para mim. Neste texto, é o seu amor aos animais que me incentiva a voltar, num ano estupidamente duro, a escrever aqui. 
São imensos os abandonos e regressos escritos neste blog, mas aqui está para um depósito, para qualquer depósito, ainda que esporádico.
A maior parte dentre nós mede o amor pelo muito. Pelas noites muito tórridas, pelas prendas muito caras, pelo muito tempo em comum, pelas palavras muito fortes...
Para mim, o amor mede-se, primeiro, no pouco. Nos momentos pouco interessantes do dia-a-dia, onde não precisamos de ser nada além de nós; nas palavras de sempre, pouco profundas; nos cumprimentos pouco elaborados mas consistentes; nos olhares de que pouco nos lembramos mas que são como argamassa de sentimentos; nos momentos pouco seguros, nos momentos pouco estimulantes e, principalmente, nos momentos pouco dignos de serem partilhados com o outro.
Ao nosso lado sempre existiram animais. Em minha casa estão a Jessy e a Becky, duas cadelinhas a tender para o histérico e nervoso. Em casa da Filipa vivem o Kinder, um gato territorial mas meigo, e a Luana, uma cadelinha já velhinha, mas enérgica, que como qualquer idosa se passeava de manhã e à tarde e voltava a casa para viver a sua vida simples.
Ontem, atraiçoada pelo seu já fraco coração, a Luana deixou-nos. Tudo foi feito para que ela não partisse, mas os seus dezasseis anos condicionaram a sua despedida.
Luana, obrigado por teres estado entre nós, com essa tua felicidade um pouco senil. Lembro-me bem das várias vezes em que me recebeste a rosnar baixinho,com a cauda entre as patas, a abanar, num misto de raiva, medo e alegria.
Tomarei conta dos teus donos, ainda que seja difícil. Da Filipa, tratarei como tu gostarias que sempre a tratasse (razão pela qual desconfio que me rosnavas como aviso...). Amo-a ainda mais por te chorar e por temer não ter feito tudo por ti. Amo-a ainda mais por ser sensível com os animais e por te amar como se fosses (e eras) parte da família. Amo-a porque sabe amar qualquer ser por si só.
Agora, descansa bem e não ralhes com os outros cãezinhos. O vosso céu quer-se calmo, como o nosso.

Beijinhos;)

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