Raízes estúpidas não são pernas para andar




Não deixem apodrecer as vossas raízes. Talvez seja melhor nem as terem, pelo risco de apodrecerem. É isto que quero mostrar.
Quando começamos um trajecto novo, uma nova opção de vida, a maioria das vozes adianta-se a agoirar. Vêm de longe, até, para poderem dizer mal. Amiúde, opto por os deixar falar. Depois, fuzilo-os com os meus argumentos.
Não é por presunção da minha parte. Não sou melhor pessoa. Contudo, evito ter raízes. Fugi de umas que me prendiam a dogmas, encontrei outras que me quiseram prender ao dinheiro, luto com várias que me tentam ameaçar. Tentam.
Quem tem raízes, também tem ramos. Quem tem ramos, é inerte ou mexe-se apenas ao sabor do vento. Com braços e pernas pode-se trabalhar em qualquer lado. Com raízes e ramos só se é útil num local, aquele onde fomos plantados.
Sempre tive um espírito libertino. Não gosta de se prender a não ser a objectivos. Concretiza-os e encontra outros. Talvez seja por isso que tenho livros e chapéus, enquanto outros podem passear-se em carros de luxo. Não censuro quem os pode ter, apenas quem os ostenta
acima da sua circunstância, o que faz deste texto, não um manifesto anti-capitalista, mas um atestado de estupidez. De livro debaixo do braço e chapéu na cabeça, passeia-se livremente. Dentro de carros de luxo pouco condizentes com salários médios podem ver-se grades enclausuradoras e sente-se o cheiro a juros.
Ganha-se mais raízes desta forma. Há o carro, a renda, os filhos, o Natal, as férias... Fazem-se filas para receber gritos de "agradecimento" e acena-se respeitosamente à falta de consideração por direitos consagrados, mesmo quando alguém sofre acidentes.
Os ossos, presentes apenas naqueles que têm braços, partem. Os ramos, daqueles que têm raízes, também. Os primeiros reabilitam-se e voltam a ser úteis para trabalhar, progredir, evoluir, escrever, cuidar doentes, fazer chapéus... Os ramos voltam a crescer, mas continuam a ser a mesma madeira que só se mexe ao sabor do vento.
Quem tem braços e pernas, não tem medo do vento: veste um casaco. Quem tem ramos, teme que o vento lhos arranque e treme ao ouvi-lo chegar.
Não adianta esperar. Quem ganha raízes fica. Continuemos nós, feitos de carne e osso que podemos quebrar. Antes isso que torcer.


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