Literatura

Durante o período de tempo que estive em Itália foi quase completamente impossível ler. O meu primo açambarcava-me a maior parte do tempo, o que é normal e não necessariamente mau. Pelo contrário. Li, na verdade, parte de um livro em inglês, bom por sinal, mas que por ter sido apenas parte, não me encheu as medidas. Portanto, o Amsterdam de Ian McEwan ficou para trás.
Já no Algarve (afinal a separação dos dois destinos foi apenas sensivelmente uma semana), li três livros nos correspondentes quinze dias. Boa média. Era a vingança.
O primeiro já tinha na minha mão havia algum tempo, mas tinha apenas lido um pouco, suficiente para me despertar a atenção desta segunda vez. Sendo assim, finalizado o Com a Cabeça nas Nuvens de Susanna Tamaro, deu para constatar que ela é não só uma grande escritora, como uma grande contadora de histórias e estórias, enredando o leitor da primeira até à última página, sem obcecar, e para que o receptor saboreie da mesma forma que ela saboreou o livro ao escrever.
Ora acabado este apenas tinha um pequeno livro italiano, mas que demora muito mais a ler por ainda ser pouco o hábito. Por isso, adquiri Em Memória da Albertina, que Deus Haja!, de Francisco Moita Flores. Por entre a história de um prisioneiro mal preso, em prisão preventiva falaciosa, encontram-se críticas ao sistema judiciário português, elaboradas com base no cómico e sem descurar o sério da questão. É, portanto, um livro bom para as férias, bem escrito, com um fundo moral e muito alegre.
Por falar em alegre, o Jornada de África de Manuel Alegre foi o terceiro livro a completar a sequência literária de que me fiz acompanhar. Também comprado lá, é um livro que se insurge contra a Guerra Colonial, bem ao tom de Alegre, e que delicia o leitor. A utilização do calão - a que também recorre Moita Flores no contexto prisional - inserido na linguagem que fazia parte do quotidiano da tropa torna-se útil e não desvirtua a qualidade do livro, como se vê acontecer nos livros light, ou cor-de-rosa, de autores que podem até ser de grande qualidade, mas que não a demonstram assim. E é com tristeza que a cada dia que passa se vêem esgotar pelas bancas fora, tornando-se best-sellers, os livros daqueles que só passam para fora o que de pior tem a literatura portuguesa. Este grupo de autores, encabeçado por Margarida Rebelo Pinto, utiliza o calão despropositadamente e a linguagem em desfavor para com a arte. Digo isto porque ao confrontar alguém sobre um desses livros, verifiquei que a história era baseada no mesmo fundo, um fundo repetitivo de adultério em que um grupo de mulheres emancipadas em demasia partilha até os homens e discute futilmente sobre o que aconteceu com cada um, levando o leitor a um inventário de acontecimentos que, sinceramente, só interessam aos mais pobres de espírito. Por estas e por outras, continuo a preferir Tamaro, Flores e Alegre, entre muitos outros que em contrapõe o sucesso de vendas à qualidade do que escrevem.

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