Histórias de uma vida

Propus-me a fazer algo que não faço há muito tempo, mas que me continua a dar grande prazer. Apresento aqui então um conto escrito por mim, que tentei tornar breve:


Histórias de uma vida:

Voltava assim a casa o menino. Houve festa, comida, bebida, encontros com amigos até então desaparecidos, enfim, toda uma parafernália de revivências mais do que agradáveis. Mas encontrava-se lá alguém que, supostamente, não estaria presente. Ele tinha-se declarado a ela muitos anos atrás. Nunca a tinha esquecido, até porque nunca tentara. A recordação permanecera sempre. Mas que estaria ela a fazer ali? Teria renunciado aos motivos que a tinham levado a recusar o convite dele? Continuaram assim. Tão próximos e tão distantes. A pessoa por que ele lutara estava agora dentro da mesma sala que ele. Pronta a que ele lhe dirigisse uma palavra. Palavra essa que se desejava acolhedora e, simultaneamente, simbólica. Podia não ser algo muito bonito, mas era o momento pelo qual ele tinha esperado todo este tempo. Ele conhecera-a numa das suas viagens e nunca tivera coragem de lhe falar. Agora que podia, não tinha coragem. Não conseguia transmitir o calor que ia dentro dele, tal como lhe tinha acontecido quando a vira pela primeira vez. Não tinha sido um amor à primeira vista. No entanto, ainda durava, tanto ou mais forte do que o daquele tempo. Decidiu-se. Deu um passo na direcção dela. Ela sorriu. E ele lembrou-se, perante tal sorriso, das vezes que tinham falado ao telefone, das cartas que tinha mandado, dos falhanços que cometera e que ela, gentilmente, ignorara…Lembrou-se de tudo quanto tinha vivido desde aquele momento em que a sua vida tinha virado para o lado contrário. Pensou ser difícil voltar a enfrentá-la. Não a via desde esse dia. Mas esta podia ser a última oportunidade. Desta vez, não se permitiria falhar, pois caso o fizesse nunca mais se perdoaria. Chegou cada vez mais perto. Foi sendo interpelado por alguns convidados que não via desde há muito, os quais cumprimentava com abundante alegria e também com um pouco de pressa. Chegou assim frente a ela. Olhou, meio envergonhado, os olhos dela. Ela voltou a sorrir. Parecia um sorriso mais desesperado do que o anterior. Chegou-se a ela e cumprimentou-a com um beijo em cada face. Nesse preciso momento, uma mão tocou-lhe no ombro. Seria o pai, pensou. Iam chamá-lo para o pequeno discurso da praxe e para um pequeno dedilhar de teclas ao piano. Não era. Era simplesmente o namorado dela que voltara de fumar um cigarro. Cumprimentou-o também alegremente, mas esta era uma alegria fingida. Perguntou-se porque estavam eles ali. O rapaz acabou por lhe responder, como que adivinhando o seu pensamento. Havia ali uma teia de amizades um pouco incompreensível que o levara a estar presente na festa. E parecia estar a gostar. Despediu-se, pois, dizendo que outros convidados o esperavam. Forçou as lágrimas a conservarem-se nos olhos. Se elas rolassem pela cara estragariam a festa. Ele não queria que isso viesse a acontecer. Pediu então ao pai para o apresentar. O pai apresentou-o e ao seu discurso. Quando lhe foi dada a palavra ele corrigiu. O discurso não iria ser feito. Em seu lugar estaria um poema. Então começou a declamar, olhando para um papel em branco que tirara do bolso, fingindo que lia e que não era espontâneo. Agora podiam sair. Já não seria desagradável vê-lo chorar. A poesia comove. Ela percebeu. O poema todo tocava em coisas que ela conhecia. Os pais também se aperceberam provavelmente, mas nada disseram.
Chegou o final da festa e com ele a última oportunidade acabou. No fundo, acabou bem, com um poema. Mas não era bem este o sonho. Foi para o jardim, chorou, mas a chuva disfarçou as lágrimas. Tinha acabado. No entanto, o seu coração dizia, que tudo tinha de começar de novo. E ele ainda hoje respeita o coração e nunca desiste. Por isso, ainda hoje continua a tentar, e ela sabe-o.





16/04/04
Fernando Miguel Santos

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